Adoção. Será que as crianças preferem o orfanato?

A adoção por casais gays, direito reconhecido em decisão inédita anteontem pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça), tira da criança a possibilidade de crescer em um ambiente familiar formado por pai e mãe, afirma o padre Luiz Antônio Bento, assessor da comissão para vida e família da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Nem sempre o que é legal é moral e ético, afirma ele. “Cremos que a questão da adoção por casais homossexuais fere o direito da criança de crescer nessa referência familiar.” Para padre Bento, as crianças têm o direito de conviver com as figuras masculina e feminina no papel de pais. (publicação: Folha Online, 29/04)

Foto de Sebastião Salgado


Muito bem, senhor  padre! Menos mal que começou com sua declaração dizendo “cremos“. Crenças cada um pode ter as suas! Mas, será que uma pessoa, ou uma instituição que pensa assim quer mesmo um mundo melhor para todos?

Há bilhões que discordam disso; heterossexuais ou não, aceitam outras referências. Porque Deus, ao contrário do que os donos da verdade aqui na Terra podem pensar, talvez tenha feito um mundo não uniforme, policromático, para dar a todos a oportunidade de, na convivência com o diferente, poder pensar, analisar, evoluir.

(Muito menos determinou que aquilo que vossa senhoria chamaria de preferências sexuais seriam estabelecidas pelos pais. Fosse assim, pense bem, meu senhor, todos seríamos heterossexuais; homossexuais ainda não se reproduzem por mútua associação; nem a ciência chegará a tanto)

Evolução, entretanto, é opção de cada um, seja qual for sua crença.

As suas crianças, caso permita sua consciência, quando a única opção delas for o amparo por duas pessoas do mesmo sexo, deixe-as então ao abandono, nas ruas, ou, com alguma sorte, num orfanato.  As crianças do mundo, que tal deixar que a sociedade acorde (como seria bom se isso acontecesse!) e decida o que é melhor para elas? Que os homens e mulheres de boa vontade as acolham, protejam, amparem, independentemente do que façam na cama, longe das crianças. (Heterossexuais também fazem sexo longe das crianças, não?)

É mais fácil deixá-las abandonadas, ou em abrigos, orfanatos, sem dúvida. Vamos lá visitá-las de vez em quando, fazemos uma pequena doação de vez em quando, rezamos uma missa de vez em quando, e tudo fica bem… Para deixá-las à própria sorte, que até hoje não lhes sorriu. Para que continuem nessas instituições — algumas vezes ao amparo de doentes abusadores –, não é preciso fazer muito… Aliás, não é preciso fazer nada… (desde que houvesse abrigos para todos, naturalmente).

Já para um casal homossexual conseguir a adoção, padre, precisará antes provar sua capacidade de criar, educar. Precisará demonstrar — ainda que por avaliação até certo ponto subjetiva do juízo competente — ter integridade moral, conduta ética. Essas coisas que andam faltando a tanta gente e a tantas instituições “honradas” deste triste país.

Não, não pense em nós, monsenhor. Gays, homossexuais, desviados, imorais, ou como queira se referir a essa parcela da humanidade que as igrejas em geral tanto desprezam. Segundo suas crenças, a nós já está reservado um lugar no Inferno, eterno. Por seu entendimento, não temos mesmo nenhum direito, muito menos à adoção. Sentimento e prática das verdadeiras paternidade e maternidade, para gente que pensa como o senhor — ou como a instituição que representa e da qual é o porta-voz — devem ser possíveis somente aos seres que têm preferência pelo sexo oposto. [Tudo, para muitos de vocês, se resume a sexo! Quanta “grandeza” de alma!].

Pensar em direitos iguais para todos, sem discriminá-los segundo a forma como fazem sexo entre quatro paredes, longe das crianças, seria pedir demais, reconheço.

Então, pense apenas no bem dos pequeninos e indefesos, gerados por pais heterossexuais que os abandonaram, que não têm direito a optar se querem ou não um lar, ainda que com dois pais, ou duas mães. Pense só neles. Sinta-os com o coração, e não a nós com o fígado. Tente, de modo tão isento quanto lhe for possível, imaginar o que Jesus faria, qual seria a orientação
dEle, se pudesse aqui estar pessoalmente, em carne e osso, para se manifestar, já que, apesar de todos os ensinamentos que deixou, apesar dEle estar sempre presente, ainda nos é tão difícil aplicá-los à realidade. (mesmo para aqueles que se julgam, ou se dizem, tão conhecedores da Palavra).

E, se querem mesmo evitar que homossexuais adotem crianças, sugiro que seu líder comece já uma campanha (pode ser silenciosa) para que os heterossexuais e católicos — de todo o mundo –as adotem.  Antes de todos. Assim, seriam amparadas por lares heterossexuais e católicos. Seria uma bela maneira, inclusive, de desviar a atenção e redimirem-se concretamente por tantos erros, de séculos e de tempos mais recentes. Concretamente, e não apenas com pedidos de desculpas.

[Quem sabe fossem até imitados pelas concorrentes?]

Seguindo o raciocínio implícito em sua referência ao exemplo familiar, seriam quase todas heterossexuais e católicas. Seguido o “bom exemplo”, em breve não haveria mais crianças para os “outros”. Daqui há cinquenta anos o mundo seria algo mais próximo do Paraíso que do Inferno atual …

Seria, mas, como sabemos, ninguém quer fazer nada de verdade. É apenas mais uma oportunidade para atacar e tentar denegrir aqueles que ousam ser diferentes. Porque não puderam ser iguais à maioria, mesmo tendo sido, padre, todos nós, criados por famílias com pai e mãe heterossexuais. E, como os meus, católicos.

Não faltariam pessoas (católicos e heterossexuais, claro) dispostas a atender ao apelo, não é mesmo? E quando não houver mais crianças abandonadas, padre, essa preocupação manifestada em sua (ou da instituição que representa, não importa) declaração deixará de ter sentido. Será desnecessária.

Que Deus tenha compaixão do homem! E que proteja sobretudo nossas crianças (sim, padre, nossas; as crianças são do mundo, pertencem à humanidade, são nossa continuação)  de nossos preconceitos, atos e omissões.

Elas merecem um mundo melhor do que este que encontramos. Cremos.

P.S. Claro, todos têm direito à manifestação livre das idéias. Assim como Vossa Senhoria o fez, faço aqui. Com uma diferença. Este texto, poucos lerão. O seu, publicado na grande imprensa, milhares leram. Nossa diferença, padre, é que aquilo que penso influencia quase ninguém, enquanto essas suas palavras podem dificultar o bem a muitos, ou fazer muito mal. Dependendo do ponto de vista, claro. Tudo uma questão de consciência. Cada um tem a sua. Felizmente!

http://www.filminfocus.com/focusfeatures/film/babies/

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12 respostas para Adoção. Será que as crianças preferem o orfanato?

  1. felipessan disse:

    E , enquando a pequenez de pensamento impera, as crianças sofrem nos orfanatos lotados. Como diria Jesus: ‘Pai, perdoa-os, porque não sabem o que fazem’.

  2. Gay Incomum disse:

    Sempre pensei muito sobre essa questão, Alex.
    Infelizmente, alguns padrões enraizados na sociedade dificultam a aceitação de outros comportamentos.
    Tenho um grande amigo hétero que ainda não concorda com uma criança ser educada por dois homens (duas mulheres talvez). Ele diz que a criança não pode ser privada do convívio materno, que é imprescindível.
    É um preconceito ligado ao seu modo de ver o mundo, atribuindo à mãe, o papel de único amor incondicional e essencial ao crescimento do filho.
    Mas e quanto às crianças que perdem as mães cedo, até mesmo no parto, quanto aos filhos criados apenas pelos pais? Podem não ser muitos, mas existem.
    E garanto que as crianças cresceram muito bem. E o pai ama incondicionalmente seus filhos.
    O mundo é uma evolução. Alguns anos atrás, mãe solteira era mal vista e quebrava o padrão de família aceito pela sociedade.
    E hoje o número de filhos criados apenas pelas mães é imenso, sem deixar de constituir uma família.
    Assim como a citação de Jesus por Felipe no comentário anterior, temos que perdoar essas pessoas porque ainda não sabem o que fazem.
    Um dia o esclarecimento irá chegar à sua mente!

  3. Thiago disse:

    Não entendo como alguém possa dizer que uma criança primeiramente necessita de um pai e uma mãe, antes de necessitar de amor e bons cuidados.

    Mas também tenho receios quando se fala em crianças abandonadas e etc. para ajudar a nossa causa, por que as vezes isso faz com parecessemos bons samaritanos, e esquece-se do detalhe de que somos humanos, e assim como os heterossexuais temos a “vontade” de ter um filho, a vontade egoísta mesmo de ter o que nós queremos.Defendo a teoria de que tudo o que fazemos por vontade própria, tudo o que fazemos porque gostamos, e tudo o que sentimos é de certa forma egoísta.Por exemplo, se alguém de quem gostamos morre, nós nos sentimos mal porque NÓS perdemos aquela pessoa.Mas não vou me aprofundar muito nela.

    Por um momento parece um argumento válido.Mas se pensarmos melhor permitir entregar crianças a alguém por “falta de opção” é algo terrível.Imagina entregar crianças a pais incapazes porque os orfanatos estâo cheios demais,pode acabar sendo pior do que ficar no orfanato!Entenda que eles nos igualam a esses pais incapazes.Portanto acho que o foco deveria ser em refutar essas afirmações e mostar que podemos ser bons pais, ao invés de apontar a falta de opção das crianças, o que já é para todos os efeitos um fato para todas as crianças, adotivas ou não, já que ninguém escolhe a própria família.

    • Obrigado pela visita e pelo comentário, muito pertinente.

      Sem querer me justificar, o texto foi escrito sob o sentimento de indignação em relação a uma declaração de um porta-voz de uma instituição respeitável, o que, a meu ver, só torna ainda mais grave as declarações que tomei como ponto de partida para meu texto resposta. A questão é mesmo muito complexa, há muitos pontos de vista válidos e sinceros, e eu não tive, nem poderia, por falta de espaço e principalmente de conhecimentos, ser exaustivo sobre o assunto. Muito menos estabelecer verdades, que não as conheço.

      Quanto à falta de opção, creio que não é assim que se processam as adoções hoje em dia. Pelo pouco que acompanho de um orfanato aqui em minha cidade, e da experiência de uma amiga (solteira) que adotou uma criança, as adoções oficiais hoje em dia são feitas com o acompanhamento criterioso do judiciário, e só são autorizadas em caráter definitivo quando se tem alguma segurança quanto à adequação e vocação dos pais adotivos em relação a tarefa a que se propuseram. Assim, excetuados os casos em que a adoção é clandestina, em que a criança é registrada como filho natural dos pais adotivos, sem o conhecimento do poder judiciário, creio que ninguém é entrege a pais adotivos por falta de opção. Os juízes hoje em dia, especialmente depois do ECA, tem muito cuidado nessas decisões.

      Importa aqui dizer que concordo com suas observaçoes. E, fosse hoje, provavelmente escreveria outras coisas, realçaria outros pontos do problema, sem abandonar, absolutamente, o que escrevi à época e sob o impacto daquela declaração infeliz do tal padre. Na forma como ficou o texto, dá mesmo pra ver muitas falhas na breve abordagem. Embora já tenha evoluído em relação a muitos pontos, se o texto continua suscitando comentários atenciosos como o seu, acho que permamence válido e não tenho, ainda, motivo para deletá-lo.

      Partindo do homem, tudo pode ser considerado egoísta, considerando que boa parte do que fazemos é a busca de satisfação de vontades. Inclusive da vontade de ter filhos naturais ou adotivos. Entretanto, pelos poucos pais adotivos que conheço (nenhum gay), vejo, em todos eles, uma grande generosidade, mesmo que acompanhadas de algum egoísmo — seja por vontade de ter companhia na velhice ou alguém pra deixar o patrimônio etc. Mas considero que a adoção, por ser ato voluntário, ao contrário do que muitas vezes acontece com os filhos naturais, é uma opção. E, sendo uma opção, deve ser desempenhada com dedicação e amor.

      E ainda mais um casal gay, ao decidir adotar um filho, deve estar ciente do que os aguarda, dos preconceitos que terá que enfrentar. Eu não teria estrutura para adotar uma criança, ser um pai na minha condição, mas admiro e bato palmas para quem tem essa força, vá lá, mesmo que egoísta. Aliás, não fosse a busca de autorealização, acho que pouca coisa o homem faria na face da Terra. Mas isso é um papo filosófico que eu, realmente, não tenho nem como tangenciar.

      Talvez hoje eu centrasse o texto mais na questão que você também realçou, se entendi bem, de que um lar verdadeiro é o que importa, ter amor, carinho e atenção para que a criança possa desenvolver-se e tornar-se um adulto pleno e feliz. E que muitos casais, gays ou não, podem ser piores para a criança do que um bom orfanato, já que este é severamente vigiado pelo poder judiciário e seria impensável dispensar às suas crianças maus tratos, por exemplo. Mas, por outro lado, muitos casais, gays ou não, certamente serão bem melhores para o adotado do que qualquer orfanato, por melhor que fosse. Entretanto, não nos cabe decidir. Como as crianças não têm poder de decisão sobre o próprio destino, decidem, por elas e por nós, os juízes.

      No caso dos gays, além de todos os problemas enfrentados por qualquer pai e qualquer mãe, a opção pela adoção vem acompanhada de grandes sacrifícios, especialmente aqueles relacionados às tratativas com o preconceito da sociedade em relação aos próprios pais, e principalmente aqueles que a criança enfrentará por ter dois pais, ou mães, do mesmo sexo.

      Ninguém é melhor, nem pior, do que ninguém, para criar filhos adotivos, quando se decidem e se decidam a isso com o coração.

  4. É muito fácil proferir palavras bonitas a respeito de um “ser superior que tudo vê, tudo sabe, tudo resolve, tudo provê”, mas quanto ao futuro dessas crianças compete a nós, seres do mundo resolvermos, nós humanos, quem os pusemos no mundo, pois a responsabilidade é nossa, fomos nós quem criamos todas as injustiças sociais e que muitas vezes matamos, estorquimos, enganamos e promovemos guerras e genocídios em nome desse “Deus” o qual nada foi comprovado sobre sua existência. Existe esse Deus? Não existe? Mas a crianças órfãs, abandonadas, viciadas, à beira da prostituição e de diversos sofrimentos, expostas nas ruas ou mesmo que resguardadas em orfanatos de alguns problemas, ah isso, existe! Chega de tanto preconceito, exclusão social, caso Deus exista então ele criou os homossexuais!!! É fácil falar, vamos então cada um de nós pegar uma criança dessa abandonada em orfanatos e adotar, pelo menos uma, que tal? É fácil falar quem teve lar, família, pai ou mãe, ou os dois, que teve educação e privacidade e não teve que viver em abrigos com horas marcadas para tudo, tendo que dividir banheiro, quarto, cama, briquedos, tudo de forma coletiva, com hora para brincar, dormir, estudar e até para ir ao banheiro.

  5. edvania do nascimento disse:

    Sou adotante adorei.faria tudo de novo.

  6. lucimeire disse:

    Gostaria de adota uma criança mas nao sei como quem pode min ajuda lige para 7183457324

  7. Alex M Bra disse:

    Procure a Vara da Infância ou Adolescência de sua cidade ou comarca mais próxima. Ou tente contato com um grupo de apoio a adotantes em sua comunidade, ou próxima.

  8. isadora disse:

    oie boa nooiite gostaria de adota uma criança

Comentários

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