Homofobia e patrimônio. Uma história real.

Uma coisa que sempre me chamou a atenção em muitos héteros homofóbicos: a contradição e a hipocrisia. Ações que não se harmonizam com suas palavras, especialmente quando se trata de grana.

Isso mesmo, grana! Nos malham a vida toda, dizem que somos errados, pecadores, sem que jamais tenham se disposto a, honestamente, refletir se somos o que somos porque queremos ou porque não tivemos opção. Entretanto, quando se trata de botar a mão na nossa grana… Ah, santo dinheiro, venha de onde vier, inclusive do trabalho de um gay!

Quantas famílias são sustentadas, parcial ou totalmente, por gays, e mesmo assim não os aceitam como pessoas? Não é contraditório isso? Onde está a coerência? A tal ética desses? Se eu não te aceito como pessoa, também não deveria querer a sua grana!

— Ah, mas grana é outra coisa, dizem sempre!

Vou começar com uma história real, triste. Aconteceu há quase dezesseis anos, com um amigo mineiro, Gustavo, então casado com um gaúcho lindo, Guilherme. Viviam em Brasília, ambos com pouco menos de trinta anos, mas já tinham bons empregos, o que lhes permitira a compra de um apartamento, onde viviam confortavelmente, juntos.

Um dia, Guilherme, o gaúcho, sai em férias, pega o carro e vai visitar os pais e irmãos homofóbicos, em Porto Alegre. Já quase chegando ao destino, envolveu-se num acidente automobilístico. Morreu no local. Não havia abundância (nem sei se havia) de celulares em 1995 e, durante a viagem, os contatos se limitavam a ligações noturnas, quando Guilherme parava para dormir em algum hotel… A partir do terceiro dia, Gustavo não recebeu mais as ligações…

Teria ele encontrado um príncipe e fugido para outra pasárgada? Teria arquitetado o abandono da relação sem nada dizer? Teria caído doente? Ou, o pior, teria sido vitimado em um acidente? Guilherme jamais sumia assim! Mesmo quando aprontava alguma (embora apaixonados um pelo outro, não era tão raro rolar alguma deslizada fora da relação, e isso nunca havia sido motivo para brigas). Não. Algo grave teria acontecido, disso Gustavo já não duvidava… Começou a entrar em desespero… Mas aguentou e cumpriu a promessa feita a Guilherme antes da partida, de não ir atrás, não procurá-lo enquanto não recebesse a “chamada” de Guilherme, que tinha ido a Porto Alegre para, finalmente, explicitar, escancarar tudo à família, com palavras que já não eram mais necessárias há muito tempo. (A família sabia, mas fingia desconhecer a situação).

Dez dias depois, criou coragem para desobedecer o acordado e ligou. Conseguiu contato com a família homofóbica. Secamente, contaram-lhe que seu companheiro estava morto e enterrado, com missa de sétimo dia já rezada pela sua alma pecadora!

Meu amigo, que tinha ficado em Brasília, nem desligou o telefone. Teve um choque tão grande que ficou em estado quase catatônico. Sentou-se no chão do quarto, com o telefone na mão. Encontrado pela irmã algumas horas depois (preocupada com a linha sempre ocupada, sem sinal do irmão que sabia estar só), foi levado de ambulância e permaneceu hospitalizado por alguns dias, profundamente deprimido.

Saindo do hospital, ainda não teve coragem para ir à casa deles, onde tinham vivido uma quase lua-de-mel de dois anos. Ainda precisou de uma semana mais, buscando forças, hospedado na casa da irmã. Quando finalmente decidiu que já poderia enfrentar o inevitável, foi até o edifício em que moravam. Cumprimentou o porteiro — que não demonstrou estranheza ao vê-lo retornar ao apartamento, já vazio. Subiu… e … surpresa:a chave não mais abria a porta de sua própria casa!

Conferiu, tentou, respirou fundo, experimentou as chaves novamente… Nada. Desceu, falou com o porteiro, perguntou se alguém tinha estado lá.

— Olha, seu Gustavo, estiveram aqui um senhor e uma moça, que disseram ser o pai e uma irmã do … seu Guilherme, e levaram a mudança toda. Disseram que o senhor não ia mais morar aqui. Como eles tinham as chaves, o síndico entendeu que não era caso de polícia…

Pois é isso! A família de Guilherme, que jamais tinha aceitado a relação; que nunca tinha dirigido uma única palavra ao seu companheiro, Gustavo; que sempre fez de conta que não sabia o que rolava, tinha vindo de Porto Alegre a Brasília só para empacotar tudo, levar todos os pertences e colocar o apartamento (que estava apenas no nome do falecido, por questões ligadas ao financiamento na Caixa Econômica) à venda. Levaram inclusive as roupas do sobrevivente, que ficou, literalmente, com as roupas que tinha no corpo no momento em que recebeu a notícia da partida de Guilherme. Nem uma única foto deixaram. Cruéis!

Se a união civil fosse realidade à época, um instrumento efetivo, reconhecido pelo direito civil, isso não teria acontecido. Pelo menos parte do patrimônio construído por ambos teria sido ficaco para quem de fato pertencia.

A família, além de homofóbica e hipócrita, mostrou-se, como tantas, desonesta na hora da partilha dos bens. Partilha que nem deveria ocorrer, pois o único herdeiro, no caso, seria o remanescente do casal. Levaram tudo. Mas isso não é considerado roubo!

Ou seja, não aceitavam o filho gay, e muito menos o companheiro. Mas passar a mão nos bens de ambos, isso souberam fazer muito bem!

Claro, rezando muitas missas em memória da alma “pecadora” de Guilherme … para aliviar suas consciências inconscientemente porcas, imundas, nojentas.

Alguém ainda tem dúvidas de que um dos principais motivos que impedem a aprovação da união civil seja a questão patrimonial? As histórias são tantas… com finais tão distintos entre os gays, em relação ao que acontece com os outros…

Gustavo sempre se emociona quando se lembra de Guilherme! Prefere não lembrar da família que roubou tudo que era dele. Os bens materiais foram substituídos.

Guilherme, nunca! Nem poderia. Era, como cada um de nós, único. Especialmente para quem o amava, ama, sempre amará!

[Nota: Ainda hoje a união civil não é reconhecida de pronto, mas pelo menos já se pode lutar judicialmente e, eventualmente, conseguir algumas coisas que os héteros têm tão simplesmente com suas certidões de casamento, ou mesmo sem elas , pois para eles a cohabitação já basta para provar uma união com todos os direitos de um casamento tradicional. Além disso, hoje o Código Civil permite a livre destinação de até 50% do patrimônio, ou 100%, quando não houver outros herdeiros necessários, ou seja, descendentes ou, na falta destes, ascendentes **].

**A Nota contou com a colaboração do autor do Blog Navve Guei., a quem agradeço.

Nota 2: Se você vive ou pretende viver uma relação homoafetiva estável, informe-se sobre o que nos aguarda no mundo jurídico. Apenas a título de sugestão, deixo este link: http://www.direitohomoafetivo.com.br/

Anúncios
Esse post foi publicado em Direitos Humanos, Gay, Homofobia. Bookmark o link permanente.

4 respostas para Homofobia e patrimônio. Uma história real.

  1. bluMan disse:

    É difícil voltar a respirar depois de ler um texto assim.
    Saudade.

  2. Alex Martini disse:

    Júnior, na reedição do texto em seu blog, você lembrou muito bem. Hoje, qualquer pessoa que tiver herdeiros obrigatórios (descendentes ou, na falta destes, ascendentes) pode disponibilizar para qualquer pessoa, em testamento, até 50% de seu patrimônio. O que já é melhor do que antes. Mas isso, salvo engano, só passou a vigir com o novo Código Civil, a partir de 2003 (?).
    Mas, quando se trata de um casal, é injusto poder deixar apenas 50%. Com a união civil, as condições para casais homossexuais seriam as mesmas para os héterossexuais. Inclusive em relação a outros direitos, como pensões pós-morte, por exemplo. (O gay contribui a vida toda com a Previdência, mas não pode deixar para o parceiro ou parceira, quando não tem filhos).

    Essa dualidade das famílias em relação aos gays é muito comum. Roldão Arruda, escritor e jornalista, em seu excelente [eu assim considero] livro “Dias de Ira“, resume, no relato de cada assassinato, a biografia das vítimas do maníaco do Trianon (identificado ou não, não importa aqui). Todos homossexuais. Quase todos arrimos de família, vivendo sozinhos, distantes das famílias que ainda ajudavam a sustentar. Não serviam para viver com suas famílias, as envergonhavam. Mesmo assim, não abandonaram as famílias que os rejeitavam. O dinheiro deles, ao contrário deles, sempre era bem-vindo.
    Se eu não te aceito, não te respeito, também não deveria querer sua grana!

  3. Derland disse:

    Muito legal seu blog e otimo, e muito criativo, se depois vocês quiser olhar o meu blog e dar a sua opnião eu ficarei muito grato: http://derlandreflexivo.blogspot.com/

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s