Bem-te-vis no inverno

Bem-te-vis lá fora…
Que dia lindo, que dia lindo!

Anunciam uma chuva que não virá.
Cantam numa luz dourada que só vem no inverno,
alguns poucos minutos quase segundos,
nas tardes do cerrado.
Imenso. Seco.

Seca que pensa enganar os bem-te-vis,
que se fingem enganados.
Num jogo insondável,
sabem que a chuva não virá tão cedo,
mas precisam continuar cantando.
Então cantam, cantam…
Não sabem que não precisam fingir.
Não imaginam que seu canto basta.

Meu corpo ouve…
Quase perco o controle…
Quer fugir, conversar com eles.
Numa linguagem impossível, desnudar-se
diante dos bem-te-vis,
abandonar minha alma e estar com eles
num encontro sem convite.

Claro,
não posso…
Então, cantem, cantem, bem-te-vis…
Meu corpo fica aqui e ouve. E,
mesmo sem entender,
sente.

A luz dourada se vai.
Uma luz cinzenta chega. E também se vai.
O dia vai.
As palavras ficam.
Os bem-te-vis voltarão.
Eu porém, não serei mais o mesmo.
O momento, único e eterno na lembrança,
passou.

Passou a luz, passou o canto.
Eu, por enquanto, fico.
Os bem-te-vis ainda estão,
Mas já não cantam.
E eu já não ouço.
Porém, ainda, espero.

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7 respostas para Bem-te-vis no inverno

  1. Junior disse:

    Belo poema. É seu, Alex?
    O dia aqui no Rio hoje está frio, cinzento o chuvoso e de nada lembra um bem-te-vi cantando na luz dourada…Mas eu gosto (rs).

    • Alex Martini disse:

      Bondade sua, Junnior!

      Tanta bondade havia me inspirado numa resposta mais longa que o texto original.
      Reescrevi, juntando o textículo ao falso poema, tudo num só.
      Agora discurso, fala. Prosa.
      Pueril. Assumidamente.
      Desavergonhadamente pueril.

      Abç

  2. bluMan disse:

    eu não sabia que era seu.
    eu adorei.

    ouça o chamar dos ben-te-vis e continue escrevendo.
    uma chuva sim. é poesia, realmente.
    não sei mais o que você escreve.
    mas faz parte de mim ler. como pensar.

    • Alex Martini disse:

      Não sabia que era meu,
      mas sabia os bem-te-vis.
      Ler e pensar. Sem dúvida.
      Faz ler, faz pensar, faz sentir, sabe!
      Certa e certeiramente.
      Descobrir. Esconder. Abrir. Encobrir.
      Terminar.
      O que nunca se acaba.

  3. Junior disse:

    Se não um poema, uma prosa poética…

  4. Luis Fabiano disse:

    Alex, adorei o post. O meu também é sobre inverno, mas digamos que não seja assim tão pueril. Bem, obrigado pela visita no blog. Eu gosto bastante do filme “O Céu de Suely” e quando me referi a uma paisagem saturada no cinema é porque, de fato, ela está saturada, mas o roteiro e a interpretação são tão pungentes que a paisagem não interfere mesmo. E realmente as pessoas não curtem muito, mas eu insisto em postar mesmo assim, porque não acho que tenha que ir sempre a favor do vento. Quanto postei no ano passado sobre “Feliz Natal”, muitas pessoas nem sabiam que o Selton estava dirigindo. Enfim, ótimo inverno pra você! Abração!

Comentários

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