almoço

Chega atrasado pro almoço. Está sempre atrasado. Com ele mesmo, com os horários idiotas que se impõe sem nunca cumprir nenhum. Pega a comida mecanicamente, pesa, sobe ao andar de cima do Oásis, onde come quase todos os dias, afastando-se um pouco daquela pequena e monótona confusão da provinciana e pretenciosa Felipe Schimidt, onde fica seu escritório.

Tempinho único de descanso, diário. Terá sua meia-hora sem telefonemas, cobranças, prazos, petições, clientes desesperados. Pelo menos esses quase trinta minutos diários ele ainda respeita. Sozinho quase sempre, começa seus dois rituais simultâneos: o almoço, e o outro de que gosta ainda mais, observar as pessoas que estão por ali, comendo, como se estivessem na cozinha de sua casa, imagina. Moças bem arrumadas, senhoras vindas não sabe de onde, alguns estudantes saídos do cursinho que fica logo ali. Rapazes, adolescentes, jovens…

Seus olhos sempre se prendem um pouco mais demoradamente nos homens no pedaço, aproveitando a hora em que estão indefesos. Uns mais, outros menos interessantes, mas todos algo indecifráveis; alguns sorridentes, outros meio irritados. Todos comem. Alguns se desesperam diante do prato, quase todos os gordos comem assim, observa. Outros têm cara de bulímicos, magricelas, comem sem vontade, como se cumprissem apenas uma obrigação, fazendo um favor ao corpo, sem nenhum prazer.

Observa que na mesa ao lado está um jovem interessante, bonito. É novo por ali. Terno bem alinhado, gravata bem composta, cabelo produzido, óculos novos, retangulares e pequenos, que lhe dão um ar de ainda estudante metido a besta, talvez concurseiro, ou jovem advogado com pretensões a alguma carreira jurídica. Ou um gerente de atendimento da agência ali na praça XV, por que não? Não, não… nunca viu esse por lá. Teria visto. Observa seu jeito de comer. É quase aristocrático, embora pareça essencialmente simples.Namora o cabelinho bem cortado na nuca, sonha – sempre quando vê um homem bonito –, sonha como seria bom se pudesse apenas conversar com ele. Quase não tem mais amigos. Quase sozinho, libera a fantasia com qualquer sonho de aproximação.

Começa a perceber que o olhar de seu vizinho procura sutil mas insistentemente alguém do outro lado do salão. Claro, só podia ser: lá está ele, outro jovem, aquele mesmo que já tinha visto lá embaixo pegando a comida. Branco, alto, cabelos claros mas não loiros, olhos grandes e quase negros, jeito de estudante, corpo sarado sem exageros, cara de modelo. Lindo.

Diverte-se por alguns instantes vendo a tentativa de paquera do engravatado ao seu lado. O outro, o “modelo”, nem toma conhecimento, tem certeza disso. Fica observando ambos. De repente, seu olhar cruza rapidamente com o moço do outro lado … Viu! Ele olhou? Será? Mais uma garfada, um olhar. Um pedaço do bife, nota mais uma fuzilada rápida do outro. Agora não tem dúvidas. Ele notou, sim, sua existência do lado de cá do equador… Oba! Será? Sente-se subitamente quase feliz. Sente aquele frio no estômago… “Meu Deus, não permita que eu avance nenhum sinal, que eu espante aquele que colocas em meu caminho…” brinca, sincero, consigo.

Continua comendo, mas o grandão é mais rápido e vai logo embora. Desce pra pagar a conta. Suspira. Chega a quase pensar algo: sonhar é bom, mas é apenas um sonho. Diário. Renovado e repetitivo. Termina sua coca zero, e também desce pra pagar. A fila é pequena, mas nota que o grandão ainda está lá. Não, não está esperando por ele. Conversa algo com a moça do caixa, ela sorri, balança a cabeça, sorri de novo. O moço bonito faz com a mão um sinal para ela esperar. Sai ao lado, pega o celular e parece falar com alguém. Chega sua vez.

– Como vai, Dr. João. Comeu bem hoje?

–Sim, Ana. A comida boa, como sempre… O bife hoje tava ótimo!

O rapaz volta e pergunta se não pode deixar pra pagar amanhã. Ana sorri, acolhedora, pede pra esperar só um pouco, precisa falar antes com a gerente. Ele vê o ar de constrangimento do rapaz. Como é bonito assim de perto…

Nessa hora, percebe que está perdendo uma oportunidade de ser gentil com alguém. Ora, não tem cara de golpista. Se ta sem dinheiro, deve ser porque esqueceu a carteira. O moço se afasta novamente, ele pergunta a Ana, discretamente: ele tá sem dinheiro?

– Sim. Vou falar com a gerente e fica pendurada. Muita gente pendura, o senhor sabia? Faz parte do negócio… Sempre alguém …

– Não precisa, Ana, cobra a dele junto com a minha. Põe aí. Débito, por favor.

Ela olha, quer disfarçar, mas um leve sorriso no canto da boca denuncia. Já entendeu tudo. — O senhor conhece esse rapaz?

– Não, ainda não. E dou um sorriso, menos sutil do que o dela.

Ela entende, mais maliciosa do que devia. Saca tudo. Sua figura não é assim tão indecifrável, e as mulheres sempre sentem o cheiro dos temperos masculinos… Costumam ter um radar mais eficiente do que os homens, especialmente os jovens… Ah… que pena! Antes que terminasse de passar o cartão, o moço bonitão volta. Olhar pidão de cachorrinho com medo de levar um chute… Ana, sorri: tá liberado, rapaz. Sua conta já foi paga!

Ele olha os dois, entende tudo. Claro, só estão os dois ali… Pergunta, tímido: O senhor…?

– Sim, hoje foi por minha conta.
Ele agradece, saem juntos até a porta. Estende-lhe a mão.

– Rodrigo.

– João.
Já na rua, promete que amanhã trará o dinheiro. Vem almoçar aqui, faz cursinho aqui, no Energia.

– Não precisa, meu caro. Esquece. Quando encontrar alguém nessa situação que você viveu hoje, retribua o que recebeu, se puder, da mesma forma. Assim é que se faz, e não falamos mais nisso.

– O mundo seria bem melhor se as pessoas pensassem assim …

– É. Deveríamos, né? Mas nem sempre fazemos…

– Então o senhor percebeu minha dificuldade ali? Esqueci o dinheiro em casa, sabe? Não me dei conta antes de entrar no restaurante…

– Percebi que algo não ia bem. A moça do caixa me conhece. Como quase todos os dias aqui. Desconfiei o que seria. Olhei pra ela, nem precisei perguntar. Ela confirmou. Mas não vá brigar com ela. E… depois… foi ótimo. Você me deu uma oportunidade de me sentir bem, fazendo algo de bom hoje.

Rodrigo olha um tanto intrigado. Não pergunta nada. Seus olhares se cruzam, agora sem medo. Um quase apaixonado. O outro extasiado, sentindo-se acolhido. Ambos sem reação. Segundos que parecem uma eternidade.

— Então, Rodrigo, até a próxima!

— Rodrigo olha, olha… fala baixinho: Até!

João segue pro escritório… “O mundo poderia mesmo ser bem melhor, Rodrigo!”

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5 respostas para almoço

  1. Junior disse:

    Ai, ai. Após ler o final, pensei logo: por que o João, que arrumou coragem para ir além do que o de costume, não aguardou a resposta do Rodrigo para ter certeza de tudo o que aconteceu naquele almoço? O não do Rodrigo poderia torná-lo triste pela rejeição, porém o levaria para o mundo real. Mas poderia ser um sim e, nesse caso, os tantos almoços solitários passariam a ter um sabor melhor.
    Hoje dei uma boa viajada na postagem do blog. Quando puder, confira.
    Com relação ao “guapoinnatura”, eu ri com o seu comentário (rs). Ainda não sei o que fazer, mas a proposta seria aquela mesmo. O problema é a minha ignorância quanto aos recursos do “wordpress”. Acho tudo tão complicado!
    Tenha uma boa sexta-feira, Alex. Bjo.

    • Alex Martini disse:

      Junnior,

      João não esperou porque tinha certeza.
      O moço tava assustado. E depois, quando Rodrigo quiser, estuda no cursinho ali ao lado, também no centro de Florianópolis. E ele, João, almoça ali todos os dias. E vai almoçar ainda mais agora, esperando o retorno do moço.
      A esperança é a última que morre…
      Pra acontecer uma boa refeição, a dois, ambos precisam tomar essa decisão.
      Não se come um arroz com feijão quando um dos dois ainda está cru!
      E Rodrigo, infelizmente, ainda tinha medo do fogo.
      Ficaria muito assustado com os calores todos de João.
      Nunca saberá o que perdeu!

      Òtimo fim de semana, meu leitor predileto!

    • Alex Martini disse:

      PS: Esqueci de comentar. Também acho complicados. todos eles. Tanto que você vê, o meu blog é basiquinho, sem nenhum recurso, sem destaques, nada.

      Acredito que Guapo, in natura agradaria de qualquer jeito. As leituras se prenderiam ao conteúdo naturalista, pouco importando as firulas das formas bloguísticas. Guapo estaria nu. Guapo, e nu! Quer mais o quê?

  2. Heiderscheid disse:

    Achei esse texto muito interessante.
    Eu no lugar do João, teria sido um pouco mais sutil. Acho que mesmo se fosse uma mulher (e aqui não fazemos juízo de beleza ou idade) o moço ia ficar surpreendido da mesma forma. Digo isso me imaginando no lugar dele: uma pessoa desconhecida paga o meu almoço por ter me achado bonito – uma situação um pouquinho constrangedora, não acha?
    Sinceridade é ótima, mas tem que ser bem dosada. Essa é a moral da história do João (sob o meu ponto de vista, é claro). =D
    Abraços Alex, seu blog está ótimo!

    • Alex Martini disse:

      Heider,
      bom q vc gostou. Não sei se consegui contar bem a história, se deu a entender que ele pagou pra dar uma cantada no moço bonito.
      Não. Não foi assim. João é sempre um cara generoso e, ali nas redondezas de seu escritório, volta e meia paga um almoço pra algum quase mendigo.

      O lance é o seguinte: João não pagou porque Rodrigo era bonito. Ele começou a prestar atenção na presença de Rodrigo porque achou ele bonito. E, tendo ele em mira, notou que estava passando por alguma dificuldade e resolveu o problema.

      Se Rodrigo não tivesse chamado sua atenção, talvez ele não tivesse percebido a dificuldade, já que não havia nenhum alarme.

      Talvez eu tenha e reescrever a história. Esse pedaço não ficou lá muito fiel à realidade e, reconheço, talvez precise ser mais bem contado.

      Abraços!

Comentários

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