ainda é um homem…

Sinal vermelho. O ponto não é dos mais tranqüilos à noite, mas eu, absorto — a mesma música dos últimos dois meses –, esqueci o vidro aberto… Um barulho. Um susto. Alguém ali fora me chamando? A barriga gela. Será? Assalto? Como dei tanta bobeira? Relaxo. — Vai com calma, cara!

Olho pela janela. Na noite escura, dois olhos brilhantes e um sorriso tímido me contemplam e me pedem desculpas.

— Não queria assustar o senhor. Desculpa…

Fico com pena, mas o carro da frente arranca, não posso continuar ali. A música ajuda a amolecer ainda mais meu peito, que nunca é lá dos mais duros… Minha consciência pesa. Não tenho nada, diretamente, com ele, mas é covardia fugir assim… Ele não exigiu nada. Apenas pediu, com brilho nos olhos, uma ajuda.

Pego a carteira. Só uma nota de dez. Vou adiante, dou uma grande volta para poder retornar ao mesmo ponto, ver se ainda o encontro por lá e dar aqueles últimos dez reais para que meu mendigo dos olhos brilhantes encerre o dia um pouco menos triste …

Volto, torcendo para pegar o sinal fechado novamente. Tenho sorte, mas a fila já está lá em cima, longe do cruzamento. Como nada é por acaso, lá vem também meu amigo, subindo a rua, já quase alcançando meu carro, com dificuldade, manejando as duas muletas.

Tomo a nota, entrego a ele, enroladinha pra não humilhar. Ele me agradece com um sorriso de sincero alívio e um Deus-lhe-ajude-sempre! Segue adiante, subindo a ladeira com alguma dificuldade. Eu ainda parado, só agora vejo: falta-lhe um pedaço de uma das pernas…

Precisaria apenas de uma prótese, uma perna de pau completando facilmente a parte que lhe falta, e um trabalho. País injusto: ele dificilmente terá essa oportunidade… Por enquanto, só lhe resta competir com outros mendigos pelo mesmo semáforo. Mesmo que o mundo não queira, mesmo que tudo esteja contra, ele ainda está a favor de si mesmo. Ainda não desistiu. Ainda é um homem.

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3 respostas para ainda é um homem…

  1. Heiderscheid disse:

    Eu já estive na pele de um mendigo uma vez, de uma forma lúdica é claro, no dia do meu trote. Estava irreconhecível, todo sujo de tinta, ovo, graxa, farinha, etc, e os veteranos pediram pra gente juntar R$ 20,00. É muito difícil. No início, quando você ainda está animado pela brincadeira, sua cara-de-pau em abordar as pessoas é grande, afinal você está em grupo e tem um contexto para aquilo.
    Mas quando o tempo vai passando, o frio vai chegando, as pessoas começam a te estranhar, há vergonha, sentimento de humilhação, pessimismo e abandono. Só fui conseguir os R$ 20,00 de noite. Geralmente quem dava dinheiro eram algumas senhoras, mães, com pena. De contra-partida tinham alguns idosos que ameaçaram chamar a polícia pra gente. Os próprios alunos da universidade, que provavelmente já tinham passado por aquilo, nem moedinha de R$0,05 tinham.

  2. Alex Martini disse:

    Caro Heiderscheid,
    gostei! Obrigado por seu comentário depoimento.
    Tentarei, nos próximos dias, reescrever a mesma história, real, só que a partir do ponto-de-vista do mendigo.
    A crueldade da maioria das pessoas, e a bondade da minoria, geralmente só é percebida pela vítima!
    Abraços

  3. Junior disse:

    Quantas vezes fiz isso. Negar logo de cara e depois voltar arrependido, procurar o(a) pedinte e dar-lhe o dinheiro….

Comentários

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