ainda sou um homem

Cheguei cedo ao meu ponto. Se atraso um pouco, não me sobra lugar no semáforo, minha última esperança nesta cidade. Não vejo mais nada. O dia foi longo, ressecante, passei com a água trazida numa garrafinha e uns biscoitos, dados por uma dona na hora do almoço. Os biscoitos me economizaram uns trocados.

Já vão quase oito da noite. Já passei da minha hora, cansado. Volto pra casa com cinco reais e setenta e cinco centavos. Sei de cabeça. As moedas são tão pingadas que vou somando ao longo do dia, fácil. Queria que fossem mais, que eu me perdesse nas contas.

Acostumo com a indiferença, com os nãos. Só acho que nunca vou me acostumar com agressões. Verbais, apenas, felizmente. Acho que ainda respeitam um aleijado de muletas. Mas ajuda, que é bom, nada. Alguns ainda nos dão um sorriso leve, um não-tenho educado. A maioria fecha as janelas de suas máquinas, fingem falarem ao celular, inventam que não existo. O que é verdade. Pra maioria não existo mesmo. Nunca existi. Por eles, seria melhor que eu já estivesse morto, que aquele maluco que me atropelou tivesse me arrancado a alma do corpo, e não apenas uma pedaço da perna.

Chega um senhor, careca, parece ouvindo música, mas vou me atrever a pedir algo. Vou perto, a janela aberta, não me aproximo. Ele pode levar um susto, achar que é um bandido, e nunca se sabe que reação a pessoa terá… Chego devagar, falo baixo. Peço uma ajuda. Ele leva um susto. Vejo em seus olhos a dúvida, mas o sinal abre, ele avança, vai embora. Acho que se foi minha última possibilidade de ajuda. Hoje, se comprar pão, não terei por ônibus amanhã cedo. Hora de ir pra rodoviária, pegar meu ônibus.

Caminho, a fila de carros se forma, acaba, se alonga de novo. De repente, reconheço o mesmo careca, o mesmo carro. Vem pela beirada, para, me estende a mão. Ganhei a janta, o ônibus de amanhã. Sobrevivi mais um dia. Em olhou como homem. Ainda tem gente boa no mundo. E eu, ainda saio desta. Ainda sou um homem.

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4 respostas para ainda sou um homem

  1. Junior disse:

    Legal a sua (idéia e) tentativa de mostrar ao leitor a mesma história sob as duas óticas. Mas é complicado considerar o que se passa na vida e na cabeça do pedinte. Pra mim, é algo que nem mesmo ele conseguiria expressar.
    Abraços.
    Junnior.

    • Alex Martini disse:

      Você tem razão. Foi apenas isso mesmo, uma tentativa.
      Vestir a pele do outro, entretanto, mesmo que fosse possível, nunca é sentir-se realmente como o outro,
      passar pela humilhação maior de não ter direito a uma vida digna e ainda ser discriminado, desprezado pelos iguais …

  2. Heiderscheid disse:

    Invisíveis, é assim que eles se sentem. De vez em quando a gente sente isso (mas é claro que por razões diferentes). Confesso que quando vejo um mendigo a primeira reação que me vem à cabeça é medo. Tenho muito medo de ser roubado (apesar de nunca ter sido na vida). Raras vezes, geralmente quando saía do restaurante sempre tinha um mendigo na porta, eu dava algumas moedas. Mas se fosse abordado acho que não daria.

    • Alex Martini disse:

      Eu, muitas vezes, confesso, me sinto achacado, quando a pessoa chega exigindo.
      E, também confesso, tenho a maior dificuldade em aceitar criança pedindo esmola.
      Dou até comida, mas esmola pra criança, confesso, tenho dificuldade…
      Hoje, mesmo, isso aconteceu…

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