Ode ao meu garoto. Envelhecido, porém eterno.

Festa é um estado de espírito.
mesmo aparente e enganosamente triste, posso estar
em festa. Silenciosa, só minha, mas verdadeira, em harmonia com todos.
Celebrando mais um dia que me foi dado, mesmo que eu nem saiba até hoje por quê.

Fugi de tudo, fugi de todos. Agora vejo: passei a vida fugindo.
Nunca quis e continuo não querendo comemorações. Não me pergunte o motivo. Nem eu sei.
Acho que é um lance de quase não se sentir merecedor de nada disso…
Talvez seja apenas por não ter aprendido com experiências.

Minha infância não tinha festas de aniversário. Muito menos minhas.
Uma única, houve, sim. Bolo caseiro, cobertura de suspiro, guaraná e sodinha da fabriqueta da esquina.
Antártica não havia, lá na minha cidade, então uma quase aldeia. Coca-cola, pra ter uma idéia, eu nem sabia que existia.

Parabéns no meio da tarde. Improvisado, como tudo na vida, desde que nasci.
Improvisado, mas feliz.
O problema é que não tinham me avisado.
Que haveria, naquele dia, o bolo, nem que na naquela vida, eu era feliz.
Ninguém sabia, ou não quiseram me contar: felicidade era só aquilo mesmo. Só e tudo aquilo!

Lembro-me dos olhares das poucas crianças presentes, vizinhas todas.
Chega minha avó postiça. Minha terceira avó. Uma avó cujo amor recíproco acho que só vim a sentir depois que ela já tinha partido…
Tímida, não veio pra festa que não haveria. Veio visitar-nos, como sempre fazia, sem aviso, parte da nossa vida que ela era.
Tímida, pobre de bens, mas de coração enorme, no dia seguinte me mandou um presente: uma meia, azul e branca, certamente comprada num bazar da avenida Central. Durou anos, a meia. Será eterna, a lembrança. Da avó que não era avó, que era um anjo e eu nem sabia!

Pessoas generosas, dessa generosidade genuína, verdadeira, desinteressada, a gente jamais esquece.
Não foi a meia, claro. Foi o olhar, o ato, a decisão, a certeza de que, pra ela, eu era importante.
Não que eu merecesse sequer a meia. De jeito algum. Mas porque ela, minha avó adotiva, jamais, poderia deixar de dizer.

Minhas moléculas, meu pó, minhas cinzas — se nada mais existir — se lembrarão dela, que me impregnou, sem que eu soubesse, disso: amor, generosidade. Tornou-me mais humano, menos duro, ainda que eu demorasse décadas para me dar conta disso tudo…

Hoje, zerando cinquenta, me lembro dessa única quase festa, que foi aos zero cinco!
Numa espécie de memória instintiva daquele dia, nunca mais quis nenhuma festa. Mesmo quando pude, mesmo quando quiseram. Mesmo quando insisitem. Fujo sempre, nego, imploro: não!
Festa, foi só aquela.

Hoje viro os 50. Poucos anos talvez me restem. Já passei da metade. Muito, disso ninguém duvida.
Mesmo que eu não queira.
Minha festa, doravante, será rasgar a meia que já se foi. Jogar tudo pro alto.
Ser digno do que até aqui recebi. Que não foi pouco.
Esquecer as conquistas que não aconteceram, apagar qualquer lembrança do que não tenho, e pensar em quem tem menos. E como tanta gente tem tão menos!
Pensar e fazer. Não vou virar Madre Tereza, mas algo preciso fazer, mesmo começando do zero.
Voltar aos zero cinco.

Não porque sou generoso, mas porque, descobri, depois de quebrar as asas,
que o voo bom é o voo da generosidade.
Que o generoso, no fundo é um egoísta, porque busca,
antes de mais nada, uma festa interior.
Busco, agora, a remição dos pecados, mesmo daqueles que ficaram apenas na vontade,
o sorriso que nunca dei,
o olhar que não encarei,
a dor que me recusei a sentir,
a muita dor que causei mesmo sem saber,
os dedos que já bateram,
a língua que já feriu,
os dedos que agora reparam,
a língua que agora se cala.
Busco cicatrizar o amor que não vivi, que se foi sem ter vindo.

Deixar que apenas o olhar pela vida fale.
Seguir em paz, em festa. Aos cinquenta e sabe-se lá mais quantos.
Que sejam muitos. Que sejam poucos. Mas que sejam.

Tudo valeu a pena.
Principalmente quando descubro que,
mesmo sendo pequena a alma,
acompanhada de tantas pequenezas,
nela cabiam muitas coisas,
sensações mil,
palavras doces que se pensavam salgadas apenas,
lembranças eternas,
dos que estão, dos que se foram, dos que nunca vieram.
Virão?

P.S: Hoje acordei pensando na carta que me escreveria. Os dedos me soltaram isso.
Eles acabaram de me mostrar, onde ficou a festa que nunca mais se repetiria.
Ou, antes, uma festa que seria eterna.
Mas eu, então, ainda, não sabia.

Será que hoje sei?
Desconfio.
E isso já é tudo.
Ah, como valeu a pena!

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4 respostas para Ode ao meu garoto. Envelhecido, porém eterno.

  1. Sérgio disse:

    De novo destaco um verso:

    “Hoje viro os 50. Poucos anos talvez me restem. Já passei da metade. Muito, dissso ninguém duvida.
    Mesmo que eu não queira.”

    Costumo dizer pra meus amigos e nem tão amigos que já vivi 2/3 da minha vida, considerando que a média de vida dos brasileiros é de 75 anos e que meus pais faleceram em torno dessa idade. talvez chegue lá. Talvez viva um pouco mais… talvez menos… com sorte, alcançarei a média, que é o ideal. Não quero ser eterno. A eternidade me assusta e deprime. Não quero a longevidade inútil e sem tempero. Não quero a existência longa e cansativa. Se tudo se renova, se o mundo corre célere, pq eu tenho de ficar? Pior, ficar sem que isso reaolva ou compense. Não! To satisfeito de ter chegado até aqui. Mais satisfeito ainda se chegar na média. O resto, nem sei se é lucro. O que eu quero é a VIDA, mesmo que ela dure só um instante. Tamanho nem sempre foi (ou é) sinal de satisfação, concorda?
    Gostei da sua Ode aos 50. Escreves muito bem!

    • Alex Martini disse:

      Belas e reflexivas suas frases. Teria que copiar muitas. Vou destacar só essas: “Não quero a longevidade inútil e sem tempero. Não quero a existência longa e cansativa.”

      Se pudesse escolher, acho que ninguém gostaria.

      A eternidade não me assusta, mas a eternidade nesta vida aqui, neste mundo louco e belo, assustaria.
      Embora, na capacidade de renovação, talvez, resida o grande segredo do bem-estar.
      O que mais me deprime, ou melhor, já me deprimiu no passado, foi minha dificuldade em seguir adiante.
      Vamos envelhecendo e, ao mesmo tempo em que as forças vão indo (ainda não estou perdendo nada, mas sei que não tarda minha vez) nossa cabeça vai
      ficando melhor.
      Nossos medos vão sumindo.
      Até que um dia, como dizia aquele gênial escritor, nossa edição definitiva será entregue aos vermes.
      O corpo. Porque a alma, se eterna, como creio, estará em outra…

      Receber um elogio desses, hoje, anoto como um graaande presente de aniversário!
      Eu, que não gosto de presentes (mentirooooso)…
      Vaidade, é foda! Tenho que reconhecer que a tenho.
      Talvez me tenha faltado só oportunidade para ser vaidoso…

Comentários

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