Amor, ri(re)mando com tesão e paixão.

Henry Scott Tuke. Noonday heat, 1902.


Enquanto estiver vivo,
quero estar apaixonado.
A cada esquina, a cada rosto.
Desmanchar-me em cada sorriso,
especialmente nos disfarçados,
escondidos, acanhados ou proibidos.

Paixão é fogo que não mata,
mas acende e aquece a alma…
Amor, sempre perene e belo.

Amores e paixões são sempre belos.
Explosivamente belos, como os ipês em agosto.
Aconchegantes, como a neblina em julho.
Libidinosos, como o calor sufocante em fevereiro.
Sempre terminando na contemplação, ao som do mar eterno.

Tesão e amor podem ser como pimenta e sorvete,
rigidez e brandura, calor derretendo o gelo, tudo queimando ao fogo.
Umidade suave em delirante atrito dos corpos resistentes,
cujas almas, fortemente delicadas, cada vez mais sedentas e vorazes,
finalmente se entregam, serenas.

Na convivência, ensina o tesão à alma o gozo do corpo.
Livre, leve, pleno. Ele, perene e belo,
Para que possa ela também explodir, livre, leve, plena.
Eterna.

Tesão sempre rimará com paixão.
Mesmo quando ainda não se saiba ao certo que
seu significado é só aparentemente tátil.

Fluídico, penetrará e medrará na alma.
Mudará então o nome. Já será então amor.
E, fundindo você ao outro,
num só dividido em dois, será eterno.
Mesmo que você não queira,
inescapavelmente eterno, universal.

Paixões vão.
Tesão sempre passa.
Mas volta. E passa, e volta, e muda, acontece… e desacontece, e
explode no silêncio de espumas invisíveis.
A cada sorriso, a cada peito, a cada rosto, a cada olhar,
a cada perna linda, a cada bunda fornida,
a cada contorno desejado ou só imaginado.
No corpo dele, dela, delas, deles.
Todos, todas, sempre!
Porque beleza foi feita pra encantar, despertar, fazer crescer!

Quanto mais proibido, mais secreto e mais ávido o tesão.
Mais desejado, mais torturante,
e mais apaixonante a paixão despertada.

O amor? Fica!
Mesmo quando a paixão não pica e apenas arde e
brasa, acabe em cinzas.

O amor? Quanto mais aclarado, declarado, permitido,
mais irresistível, contagiante.
Eterno.

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16 respostas para Amor, ri(re)mando com tesão e paixão.

  1. Sérgio disse:

    Gostei.Muito bom. Não acho que seja um amontoado de palavras não. É poesia… e basta rsrs!

  2. Alex Martini disse:

    A única certeza que tenho é que tenho uns leitores extremamente generosos.
    Mas que é bom ouvir, não nego!
    Valeu!
    Beijo

  3. Junior disse:

    Amor, paixão, tesão… Ai, ai. Estou bem precisando (re) viver tudo isso. Belo texto.
    Junior.

  4. Sérgio disse:

    “E explode em silêncio,
    em espumas invisíveis.”

    Alex, se fosse destacar todos os versos, teria de reescrever seu poema inteiro. Fico então com esta pequena jóia.

    • Alex Martini disse:

      Sérgio, que mistérios nos reservam as palavras!
      Nossas, do ponto de vista material, porque saíram por nossas mãos. Isso sim, vi e sei. Mas, quando se mostram interessantes, “pequenas jóias”, fico me perguntando quem as terá assoprado em meu ouvido, que espírito misterioso esse que as colocou em minhas mãos. Olho, reviso, tento relembrar o instante, e, sinceramente, não encontro, não imagino quem possa ser. Quem, naquele instante, me ditava, não por palavras, mas por emoções ou intuição, aquilo que minhas mãos deveriam teclar.
      Mas olho, e depois, imodestamente, gosto. E louvo o mistério. Já não me importa muito quem foi. Elas agora têm vida própria.
      E, mistério tão misterioso quanto, ou mais, é entender que ventos trazem pássaros como você ao texto. Até sei o caminho concreto, mas me refiro à mirada particular que nem mesmo eu jamais teria. Pássaro que chega à árvore e aponta aquilo que nem mesmo suas flores viam, porque já não mais estavam: já não mais eram flores. Fecundadas, ovários intumescidos, frutos já visíveis, futuramente sementes, novamente árvores, novamente flores, novamente frutos e sementes… verdadeira razão delas, as flores. Até que um insano qualquer, assassino, não ateie fogo e acabe com tudo.
      Palavras, flores, frutos, pássaros, mistérios. Mistérios.
      Pra mim, tudo é novidade! Agradável novidade. Exercício fantástico, modesto e simples, muito gratificante.
      Obrigado!

  5. John disse:

    As lágrimas vieram, soltas, fortes como a chuva que cai lá fora, ao ler tuas palavras. Muito bonito…, de fazer o coração chorar e ao mesmo tempo ficar feliz pela beleza dos sentimentos, das sensações geradas ao ler, e me remeterem a minha própria história. Obrigado.

    • Alex Martini disse:

      Seu comentário me fez pensar na responsabilidade da palavra escrita, muitas vezes — quase sempre, no meu caso, principiante que nunca se atreveu a publicitar nada — soltas, livres, espontâneas, sem censura, sem atinar para o que possam causar no outro, ainda que a inteção seja sempre a melhor. No caso, neste caso, felizmente, terminaram bem. Jamais pensei, sinceramente, que pudesse chegar a tanto! Se alguém tem que agradecer, sou eu às suas, belas, palavras. Obrigado!

      • John disse:

        As palavras foram mesmo feitas para tocar o outro, não se preocupe, prefiro elas soltas, livres e espontâneas, mesmo que remexam com sentimentos incômodos. Me tocou muito pois ao ler o texto de forma fluída me veio uma sensação de felicidade por ter sentido o que descreves mas ao mesmo tempo sofrer ao imaginar que talvez não mais o sinta. Afinal, não ter um companheiro não é bem uma opção. Alguns de nós são tímidos, outros têm medo de se expor, e outros, ainda, simplesmente se sentes patinhos feios. Mas o que importa é fazer o que está ao noso alcance, amar a nós mesmos, com paixão. Um dia após o outro.

        • Alex Martini disse:

          “Mas o que importa é fazer o que está ao nosso alcance, amar a nós mesmos, com paixão. Um dia após o outro.”

          Essa a grande lição da vida, sem a qual, penso, nenhuma outra pode ser verdadeiramente aprendida. Nem mesmo a fundamental de todas: amar o outro como a nós mesmos.

          A vida nos traz mistérios incompreensíveis, pelo menos por enquanto, nesta dimensão. Se houver outra, se seremos esclarecidos oportunamente, saberemos, ou não, no futuro. Não importa. Só o que podemos contruir aqui e agora poderá valer, se houver amanhã. Se não houver, teremos vivido, bem, o hoje. E já terá valido a pena.

          P.S.: As palavras talvez saiam mais sinceras e pungentes quando, como no meu caso, manifestam a vontade de, mais do que ter vivido tudo aquilo, viver tudo aquilo. E, ainda sem viver nada daquilo, saber que aquele, sim, é ou seria O caminho. Elas, palavras soltas, mostram minha face no espelho. Aquilo que gostaria de ter tido sempre a coragem de fazer, a coragem que nunca tive. Ou, tavez, não soubesse que tinha.
          Mas, nunca é tarde. “Enquanto estiver vivo…”

  6. Sérgio disse:

    Alex, meu caro,
    vc tem feito poesia com tudo. Todas as suas palavras constroem versos. Até suas respostas (em especial as que se dirigiram a mim, desculpe a vaidade rsrsrs) rimam pureza com beleza. Obrigado por tanto e tudo! Abraço forte!

    (desculpe, exclua a anterior, ok?)

    • Alex Martini. disse:

      Sérgio, meu caro,

      flores atraem pássaros, insetos.
      Todos, além de belos, úteis, fecundam
      a flor.
      Palavras são como flores. Leitores, pássaros.
      Que, muitas vezes, despertam outras flores.

      Palavras, poderosas, cutucam novas palavras…
      Num bicar incansável, eterno, vivo, feliz. Uma reação em cadeia.
      Uma sinfonia de cantos, pássaros felizes.

      Festa na floresta.
      Palavras na vida.

      Nem só araras, bem-te-vis, colibris, pica-paus,
      compõem a orquestra.
      Pardais também, como eu, podem ser livres.
      Também piam.
      Tanto mais quando descobrem,
      que seu pio também pia, encanta, atrai, fecunda.

      Obrigado!
      Abração!!!

  7. Sérgio disse:

    “Palavras, poderosas, cutucam novas palavras…”

    Alex, compare isso que vc escreveu com o poema abaixo, de Anne Sexton:

    “Palavras

    Ter cuidado com as palavras,
    inclusive as miraculosas.
    Para as miraculosas faremos nosso melhor,
    às vezes elas enxameiam como insetos
    e não deixam uma picada mas um beijo.
    Podem ser tão boas como os dedos.
    Podem ser tão firmes como a rocha
    que você finca seu traseiro.
    Mas elas podem ser também margaridas e feridas.

    Sim, sou amante das palavras.
    Elas são pombas que caem do teto.
    São seis laranjas sagradas pousando no meu colo.
    Elas são as árvores, as pernas de verão,
    e o sol, sua face apaixonada.

    No entanto elas me faltam.
    Tenho tantas que quero dizer,
    tantas histórias, imagens, provérbios, etc.
    Mas as palavras não são boas o suficiente,
    as incorretas me beijam.
    Às vezes eu vôo como uma águia
    mas com as asas de uma cambaxirra.

    Porém tento ter cuidado
    e ser gentil com elas.
    As palavras e os ovos devem ser manejados com cuidado.
    Uma vez quebrados são impossíveis
    de reparar.”

    Tradução Priscila Manhães

    Percebeu por onde vc está voando, meu carow Muito lindo tudo isso.

    Forte abraço!!!

    • Alex Martini disse:

      Lindo mistério, tudo isso.
      Na floresta em festa, as palavras cantam,
      entoadas pelos pássaros, de ontem, de hoje, de amanhã.
      Já não preciso ser original. Alguém já cantou antes.
      Eu não ouvi, não aprendi, mas, de alguma forma,
      ficaram as palavras, as idéias, soltas, fazendo parte
      do universo
      da nossa floresta,
      que agora,
      eu, mesmo sem saber, repito, pio, canto.
      Sem a beleza do bem-te-vi ou sabiá,
      mas também um pio.
      Que foi ouvido, também sentido.
      E para mim, basta.
      Comerei as castanhas. Beijarei as flores.
      Dormirei em paz.
      Repercutirei o canto, de outras gerações,
      de outros pássaros,
      que vieram antes,
      que virão depois.

      P.S. Obrigado pelo comentário! Pelas palavras tão inspiradoras.
      Vejo aqui pela minha janela a floresta. E leio na tela o poema, as belas palavras
      que só outro pássaro poderia me mandar.

      Ah, se pudesse voltar, no tempo, teria lido desde criança.
      Piado desde o ninho.
      Muito antes de aprender a voar.
      Muito antes de quebrar as asas.

      Os voos já não serão
      o canto, mesmo rouco,
      ainda será!

      Abração e bom dia.
      Hoje é dia de festa. Na floresta.
      Vou ao cinema. Talvez.

  8. André disse:

    eu acho que já vi isso em algum lugar 😉

    “Amor é fogo, que arde sem se ver…..”

  9. ptolomeu1965 disse:

    A escrita é bela e clara!
    O que encanta é saber que quem escreve assim é porque conhece tanto amor quanto paixão.
    E quem sabe , ensina, transmite!
    O seu escrito é mais do que precioso em tempos onde se vê paixão, tesão e amor sem conexão!
    bjs

    • Acho que não entendo tão bem assim. Apenas sinto, senti, tentei colocar em palavras.
      Quando escrevemos e o outro sente, foi feita a comunicação. Essa mágica humana!
      Um dia as pessoas poderão ser livres para viver tudo isso junto, sem vergonhas que dissociam o que, humanamente,
      existe junto dentro de cada um de nós!
      Seu comentário é muito melhor do que o texto, mas agradeço, de coração!
      Bjs

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