Casamento? Não, não… Não é isso!

Semana passada, logo após o Senado argentino derrubar restrições à legalização da união entre pessoas do mesmo sexo, um amigo me perguntou o que eu pensava a respeito. Ele sabe que sou gay, mas jamais tocou no assunto. Isso nunca atrapalhou nossa amizade, porque ele não tem motivo algum pra ter medo: é heterossexual convicto e praticante, não se interessa sexualmente por homens, e sabe que orientação sexual não se transmite por contágio, ao contrário de muita gente com quem sou obrigado a me relacionar todos os dias… Um irmão que eu gostaria de ter tido.

Eu estranhei, quase levei um susto, mas não perdi o rebolado. Respondi, na lata: O óbvio, ora! … Sinto-me com o mesmo direito aos direitos civis de quase todo mundo. Você não espera que alguém na minha condição seja contrário a isso, espera?

Ele ficou olhando, receptivo… continuei: Seria muito bom se um dia eu também pudesse fazer o que todos vocês sempre fizeram, né! Será ainda mais prazeroso viver quando o sexo deixar de ter tanta importância no mundo, e passar a ser vivido de modo menos traumático e excludente, no dia em que nossa sexualidade — a minha e a sua, embora algo distintas — deixe de ser fator determinante de direitos que nada tem a ver com isso.

— Não, não, meu caro, não será pro meu tempo isso, eu sei! Precisaria viver ainda várias décadas talvez, e eu não terei tanto tempo por aqui… Pense comigo: por que eu, que trabalho há anos, já dei um duro danado pra conseguir viver com padrão minimamente digno neste país tão indigno e injusto, pago meus impostos, não roubo nada, não me envolvo em corrupção, procuro ser sempre um cidadão honesto e participativo, por que a mim só obrigações e nenhum benefício? Aliás, prejuízo, por que nem mesmo escolher livremente a quem deixar meus bens eu posso…

Não, não, nada disso! Não pense que agora estou querendo casar na igreja. Isso pra mim é irrelevante e, confesso, me pareceria ridículo. Além do que, a minha antiga igreja já me expulsou informalmente há tempos, rejeitado que fui pelo homofóbico Papa Benedetto. Cansei de ser tratado como leproso na casa que se diz do Pai. E tenho vivido muito bem sem ela, a igreja católica, mas sempre que me dá vontade entro num de seus templos. Pelo menos enquanto não me proibirem. E, se quer saber, entro também em outros templos, alguns bem mais receptivos à diversidade humana, que também deve ter sido obra do Criador… Mas procuro ir quando vocês não estão lá … não se preocupe.

Não estou querendo mais ter ou adotar filhos. Mas, e se quisesse? Deveria ser direito meu, como sempre foi seu!

— Ah, sim? Poderia ter adotado um? Ou dois? Em que país você vive, meu caro?

Meu tempo pra isso passou! Antes que a lei me permitisse… O filho que eu poderia ter tido, natural ou adotado, ou os filhos, gerados por outros e que eu teria criado com carinho, já ficaram adultos, vivendo em abrigos ou orfanatos, ou foram aceitos por outros (pouco provável, o número de crianças abandonadas é muito maior do que o de casais e solteiros dispostos à adoção), ou cresceram sem acesso a condições mínimas, ou estão abandonados nas ruas, ou morreram vítimas da violência. Se vivos ainda estiverem, claro, devem estar penando muito mais do que precisariam se fossem meus filhos … E olha, se o mundo não fosse tão homofóbico, eu até poderia ter sido um bom pai, melhor do que muitos que conheço por aí que, embora estúpidos e omissos com seus rebentos, jamais tiveram questionado seu direito à paternidade.

— Ah sim, ninguém me impediu. Não, não é isso. Eu poderia até ter feito algumas manobras, dado um jeitinho — pra quase tudo aqui se dá um jeitinho, ilegal –, e ficado com um, como se filho natural mesmo fosse. Mas eu pensei neles, nos filhos que teria, e que não saberia como lidar com a discriminação que eles sofreriam por terem um pai gay. Nunca soube lidar com a rejeição que sofri… Causar isso a outros talvez fosse demais pra mim. Egoísmo? Sim, um pouco. Covardia de minha parte! Sim… sei disso, não precisa me lembrar… Mas não exija de mim mais do que posso dar. A luta muitas vezes fortalece, mas nesse quesito específico, meu caro, a vida me enfraqueceu. Chegar até aqui, pra mim, não foi simples como você pode pensar …

Também não estou querendo deixar a pensão previdenciária pruma viúva mocinha, que viveria às custas do contribuinte por mais uns setenta ou oitenta anos, em troca de, numa companhia interesseira, ter ficado poucos anos ao meu lado, me dando algum prazer retrazido pelos viagras, como fazem tantos velhos machões homofóbicos país afora…

— Você não acha que seria um direito meu deixar minha pensão ao meu companheiro, como fazem todos vocês? Que deixam tudo pras suas esposas ou pros maridos, conforme o caso, mesmo quando o sobrevivente não necessita de um salário a mais? Não, minhas décadas de contribuição ficarão limpinhas pra Previdência. Depois de morto, não ajudarei, como muitos heterossexuais, a arrombar ainda mais os já combalidos cofres públicos. As viúvas jovens e tantos outros já estão dando conta do recado! E com o aplauso ou a conivência geral. Afinal, eles, os velhos mortos, e elas, as espertas viuvinhas, nunca foram gays, nunca envergonharam a sociedade, né não?

— Não, meu caro, meu companheiro, felizmente, teve a sorte de sobreviver a tudo e poder trabalhar dignamente … Não precisaremos, eu ou ele, não sei quem vai primeiro, recorrer a isso!

Também não me passa pela cabeça impedir que meus pais herdem – caso eu parta antes deles, claro – no mínimo cinqüenta por cento dos meus bens. Sim, porque os outros cinqüenta, você não sabe, mas eu já garanti em testamento público ao meu companheiro, que vive comigo há quinze anos e, ao contrário da maioria dos meus parentes, inclusive meus pais, nunca me rejeitou. Mas apesar de tudo, não sou mau nem ingrato. Bem ou mal, eles me criaram, fizeram o que sabiam, repassaram o que aprenderam, inclusive o preconceito e a rejeição. Entendo que é mesmo difícil pra eles aceitar. Nem sei se eu, na condição deles, aceitaria um filho como eu … Partindo eu antes deles, deixarei ainda metade do não muito que possuo para amenizar materialmente o final de suas vidas.

– Não, não, claro que não! Minha presença não fará muita falta. Eles ainda terão os outros filhos, e os netos, todos mais dignos, aqueles que puderam e poderão perpetuar a família que eles começaram… Coisa que se dependesse de mim… Depois, partindo eles, herdam meus irmãos, que há anos não se lembram que eu existo, só mesmo nas reuniões formais de Natal e Páscoa. Eles, sabe, morrem de vergonha do irmão mais velho, um veado na família. Discreto, mas veado. Nunca assumem, mas morrem de vergonha de ter um irmão veado. Só que, meus bens, se puderem, pegam… Não são tão coerentes assim…

Não estou querendo mais ser aceito em nenhum emprego. Já fui rejeitado na empresa em que trabalhei quase metade da vida. Demorei pra perceber que a discriminação não tinha nada a ver com minha falta de competência. Já te contei, mas omiti o motivo exato que me impediu de ocupar, lá dentro, cargos mais bem remunerados. Não por incompetência, mas por não saber lidar com as ardilezas armadas na competição com os menos capacitados, porém, heterossexuais. Faltou-me inteligência, mas inteligência emocional… Até que um dia me enchi, dei um basta, voltei a estudar duro, como nunca tinha estudado antes, prestei vários concursos e consegui um novo e bom emprego, agora público, onde procuro ser exemplar servidor, servindo efetivamente ao público, que paga meus salários, mesmo achando que não deveriam faze-lo.

— Não, meu caro, aqui também não é fácil. Nunca é fácil como é prum cara “normal”, desses que fala de mulher o tempo todo, que olha pras bundas das colegas e faz comentários jocosos em relação às feias, que pega todas que pode, ou diz que pega, que conta quais já comeu … Essas coisas que todos estamos cansados de ouvir sempre que dois homens se encontram num mesmo lugar, sem ninguém vigiando… Só que agora, pelo menos, a dificuldade não é mais lidar com a homofobia alheia, mas com a corrupção, o desleixo, o descaso…

– Não, não… aqui também não morrem de amores por mim. Não gostam muito de gays, ainda mais se de meia-idade, mas meu trabalho é valorizado e ninguém vai poder deixar de me promover, de pagar meu salário só porque sou gay. E nunca será tão fácil inventar falsas acusações. Tudo tem que passar por um processo administrativo. Não basta uma acusação leviana de alguém que quisesse o meu lugar, nem a simples vontade do meu patrão… Eu cumpro minha obrigação, respeito as leis… fica difícil pra oposição…

Nem me passa pela cabeça reivindicar o direito de passear de mãos dadas com meu companheiro pelas ruas, nos shoppings, muito menos dar beijinhos, como você e todos e todos podem fazer, sem nenhuma censura ou crítica, mesmo que fiquem excitados e mostrem seus volumes diante de todos, como estou cansado de ver nos shoppings aqui em Brasília… quando esses jovens se agarram pelos corredores.

Não estou mais buscando meu lugar ao sol no mundo. Já tenho o meu canto, luminoso, onde até os bem-te-vis gostam de mim. Pra mim, tá bom. A maioria tem muito menos. E meu tempo de ambições desmedidas já passou. Passei muito tempo lutando contra mim mesmo. Gastei boa parte de minhas energias tentando ser igual aos demais, sem que jamais alguém me dissesse que isso fazia parte da minha natureza, imutável. A escola me maltratou, o antigo emprego me discriminou, meus antigos amigos quase todos se afastaram quando eu fui viver junto com outro… homem e passou a não ser mais possível fazer de conta que não sabiam que eu era, sempre tinha sido, gay, quando a peneira não podia mais tampar o sol. Minha família já deixou claro, com atitudes claras, mas nunca com palavras, que tem vergonha de mim.

Não, caro amigo. Agora, eu só quero, ou antes, espero, que você, depois de saber de tudo isso, explicitamente, continue sendo meu amigo. Porque eu sempre fui seu amigo e nunca te discriminei só porque você gosta de transar com mulheres.

Sim… Gostaria que as leis me facultassem, antes d’eu partir, alguns direitos que todos vocês sempre tiveram, porque, até agora, tive muito mais obrigações do que direitos. Muito mais discriminação e rejeição do que aceitação.

— Não, não espero mudanças por aqui. O mundo, o Brasil em particular, além de muito incivilizado, é governado pela maioria. Como aliás deve ser. Só que a maioria ainda entende que eu não sou gente como vocês e não aceitará tão cedo aqueles que assumiram que não são iguais.

(Num aspecto irrelevante, eu acho, mas diferentes. Mas sexo é uma coisa muito importante pra vocês todos, né? Algo mais importante até do que nossa própria condição humana… Aliás, nunca vou entender, nem quero, por que é que os fundamentalistas nos odeiam tanto… )

Meus netos, talvez pudessem ver um país diferente. Mas eles, como falei, não existirão. Não porque eu não quisesse…

— Deixa eu ir. Já ta meio tarde e quero chegar antes de meu companheiro. Vou preparar nossa janta, rever um filme — Na Companhia de Estranhos, canadense, da Cynthia Scott, já viu? Muito bom. Vou descansar e curtir um pouco da nossa noite. Como muitos de vocês, estou certo, fazem todos os dias.

Minhas cortinas estarão fechadas, não se preocupe. A vizinhança não terá do que se envergonhar. Poderá continuar fazendo de conta que não sabe que no 801 moram dois caras muuitos suspeitos, que vivem numa relação muito suspeita…

PS: Chegando em casa, liguei na TN e acabei vendo a promulgação da lei que acabou dando origem a essa conversa aí em cima

PS: Palavras da Presidenta da Argentina no ato da promulgação da lei do matrimônio igualitário).

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8 respostas para Casamento? Não, não… Não é isso!

  1. Junior disse:

    Alex, você demora para escrever algo, mas quando o faz, vem com tudo, né? Adorei tudo.
    Muito do que eu li reflete o meu modo de pensar. As ambições, todos nós temos. Elas só mudam com o passar dos anos. As antigas vão pro arquivo morto, assim como aquela pessoa que as ambicionava já não existe dentro de nós. Vamos nos transformando a cada ciclo de…Sei lá. Nem sei de quanto tempo.
    O certo é que elas, as ambições, vão se tornando cada vez mais sublimes, como, por exemplo, a de cultuar boas amizades, como essa, nossa, que estamos construindo: sem interesses, sem pressa, mas com admiração mútua e verdadeira.
    Tenha uma ótima noite com o seu companheiro e bons momentos assistindo ao filme da Cynthia Scott. Chau !

    • Alex Martini disse:

      Junnior, você sempre generoso com as palavras…
      Concordo com vc. Até tinha respondido ao Heider, acima — antes de ler o seu comentário!! — que o que penso e sinto hoje certamente é diferente do que pensava e sentia na idade dele, um homem jovem em início de vida adulta.
      Aliás, não sei o que eu, hoje, com o mundo como é hoje, pensaria a respeito de todas essas questões, como casamento e adoção.
      A única coisa que sei, hoje, é que se deve, para nossa felicidade, viver da forma mais próxima possível de nossas idéias e convicções. Hoje, pra mim, casamento é uma coisa muito boa e prazerosa. No passado, eu provavelmente teria encarado como uma prisão.

      Abç

  2. Heiderscheid disse:

    Casamento, filhos… pra quê?
    Sabe Alex, pessoas que tem uma vida difícil como nós temos tem que se permitir um pouco a felicidade.

    “Deus, para a felicidade do homem, inventou a fé e o amor. O Diabo, invejoso, fez o homem confundir fé com religião e amor com casamento.”

    Machado de Assis

    • Alex Martini disse:

      Heider,
      Machado sabia o que dizia. Entretanto, essa é a regra. Pode haver exceção.
      E há que pensar que também mudamos com o tempo.
      Aquilo que eu penso e sinto hoje, inclusive em relação a essa questão, é
      diferente do que eu pensava há anos…
      Abç

  3. bluMan disse:

    A verdadeira ficção é aquela que nos faz crer que é verdade. Eu sempre a julguei mal, tirando o seu merecimento. Mas então eu entendi que era muito mais difícil do que apenas transcrever o que a realidade me proporcionou.

    Assuntos sérios que eu ainda não tenho como discutir. Por enquanto eu vou sendo feliz…

    • Alex Martini disse:

      Seu tempo, de ficções e de realidades, chegará.
      E, nele, espero que tenha mais direitos do que teve minha geração.
      Aliás, já está tendo.
      Hoje, já dá pra ser gay e não precisar se esconder tanto,
      fingindo uma ficção heterossexual permantente. Tentando esconder o que é impossível esconder e mudar.
      Já é possível, com algum sacrifício, viver a realidade. Gay.
      Mas ainda nos faltam muitos direitos civis… inexplicavelmente.

  4. Junior disse:

    Oi Alex. Você tá muito sumido!
    Passei aqui pra lembrar que o meu blog ainda existe e também pra dizer que o Dois, aquele que sempre comenta lá no NG (do blog “Dois Perdidos Na Noite”), criou um blog cujo objetivo é divulgar os blogs que, de alguma forma – pra não dizer não necessariamente – falam sobre o universo LGBTs.
    Se tiver interesse em incluir o “Conversa ao Pé do Mundo” passe lá e deixe um comentário com o link e ele será incluído, ok? O endereço é: http://blogayrosbrasileiros.blogspot.com
    Abraços.
    Junnior.

    • Alex Martini disse:

      Junnior,
      eu tenho visitado o seu blog diariamente, mas ando sem tempo pra escrever até um breve comentário, pelo que peço desculpas. Entre escrever meio sem tempo, correndo o risco de escrever o que não devo, seja aqui, seja em outros, estou preferindo ficar quieto.
      Vou conhecer sim o blog do Dois. Obrigado pela dica!
      Abraços

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