E agora, tio? – III (parêntese)

Um dia em que nada acontece e um encontro quase me tira da rota…

Alguns dias depois, um sábado, saindo do clube, encontro Fernando, um amigo. Convida-me pra voltar, uma cerveja. Aceito. Sentamos próximos à piscina. Ele inicia o questionário habitual entre pessoas que não se veem há algum tempo, mas noto tudo muito protocolar. Não esconde certa sofreguidão para que eu termine logo as respostas. Quer mesmo é ser ouvido. Recolho meu trem, decido apenas ouvir. Tudo bem! Estou num dia de inabitual generosidade. Acho que ele hoje precisa de atenção.

Nem terminamos o segundo copo quando meu celular interrompe nossa conversa – melhor seria dizer monólogo, mas vá lá! Na linha, Rodrigo! Fosse qualquer outra pessoa, não teria atendido. Mas ele… E, depois, não queria correr nenhum risco de prolongar aquela conversa que, pra mim, já estava esgotada.

Mal disfarçando meu contentamento, combinamos um encontro para logo mais à noite. Eles preferiam fosse numa espécie de bar dançante, ou mini-boate. Eu, receoso, sugiro uma pizza. Combina bem com qualquer situação e permite a todos uma escapada rápida, se for o caso… nunca se sabe. Ou um esticada, se rolar clima.

Meu companheiro de mesa mostra alguma indignação e comenta, malicioso:

— Pela sua cara, já imagino…

— Não é nada disso. Ou, pelo menos, aiiiinda não…

— Aiinda?

— Sim. Digamos que é uma história que mal começou, que eu desejo os próximos capítulos, mas ainda não se sabe como vão seguir as personagens, nem mesmo eu. Uma peça em construção… Entre um primeiro ato estimulante e final desconhecido, não se sabe o que acontece…

— Muito mistério! Mas se não quer falar…

— Não é isso! Não tenho nada pra contar. Olho nos olhos, sorrindo com indisfarçável contentamento. — Não, ainda! E desembucho a história, o primeiro encontro casual, o contato com Rodrigo, minhas vontades, minhas dúvidas.

Esperava, no mínimo, que ele ouvisse sem censuras. Não poderia esperar isso de alguém que sempre teve discurso libertário. Não dele, ongueiro militante de causas relevantes. Hoje parecia mais um pastor retrógrado. Só faltou condenar-me ao inferno. Onde já se viu! Um quarentão agora encontrando mocinhos, cultuando a beleza do corpo… Geração fútil… E por aí seguiu. Eu? Desliguei. Não era meu dia para discussão acalorada.

— Ridículo. Nunca esperava isso de você!

— Esperava o quê? Por que o preconceito? Você, sempre tão libertário, parece mais uma namorada ciumenta… Quer dizer que essa defesa de relacionamentos com diferenças de idade, que você sempre viu com bons olhos, só vale quando é o mais velho que escolhe e dita as regras? Não vale quando a decisão parte do mais novo? Se ele quer, se eu quero, os dois, livremente, sem nenhum interesse material envolvido… Não vejo problema. Aliás, ele não, e-eles!

— Hummm. Suruba?

— Não é nada disso. Quem mente poluída está a sua hoje, meu caro… falo, em tom mais amistoso, procurando desanuviar o clima… Já te falei, conheci um jovem casal, e estamos nos aproximando. O que vai acontecer, não sei…

— Cara, você tá louco, e me decepciona muito. Casal, homem e mulher? Recaída?

Dou uma desculpa, vou até o caixa, volto com a conta paga. Digo até mais, que vou almoçar com meus pais (mentira), e vou embora. Sem saco algum, desisti, há muito, de entender mentes complexas como a desse meu amigo. Gente do tipo que vive declarando seu amor à democracia, mas da boca pra fora. Democrata, desde que você concorde com ele.

Fico sem entender nada. Ciúme não pode ser. Inveja muito menos. Esse meu amigo, apesar de um pouco mais velho, é um tipão, e tem todos os atributos que ele mesmo diz não valorizar nos outros… É atraente, um cara inteligente e culto, embora muitas vezes irremediavelmente equivocado e quase sempre mal humorado, azedo mesmo. Desse tipo que resolveu cultivar o próprio azedume como se fosse charme.

A ira de meu amigo reforça minha decisão. Sei que já estou muito vivido pra dar atenção à opinião alheia. Nada mais me impede de ir ao jantar-pizza com os dois. Sem expectativas. Sem medo. Quero conhece-los. É tudo.

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3 respostas para E agora, tio? – III (parêntese)

  1. Junior disse:

    Realmente, não deu pra entender a reação do seu amigo. Talvez ele não leia o seu blog (rs). Conte-nos depois como foi o encontro.
    Bom dia.
    Bjus.

  2. FOXX disse:

    olha, já estou até linkado.
    vou ler com mais paciência depois a estória pra conseguir entender.
    mas respondendo sua pergunta lá no blog,
    sim, já encontrei pessoas por quem EU fiquei interessadíssimo e sim, demonstrei para essas pessoas q eu estava interessado, mas como sempre a carta “vamos proteger a amizade” é jogada. Isso qndo a carta, “se vc me pagar um salário” não saltou da cartola, mas neste caso não era alguém interessante né?

  3. FOXX disse:

    vc gosta de escrever, hein moço?
    são tantos pontos que precisam de réplica.

    1) eu não sou bobo, e sei q se eu for com mta sede ao pote é óbvio que eu assustaria a pessoa q eu estivesse interessado. mas no meu caso, para explicar (me sinto nesta obrigação), eu não conheço pessoas por tempo suficiente para q elas sintam q eu sou carente demais, q vou sufoca-las e bla-bla-bla. simplesmente não dá tempo, vc tem acompanhado meu blog recentemente, mas vc já pode ter visto que tipo de relacionamentos ocorrem comigo, se vc notar, todas as postagens são com pessoas diferentes porque nunca há uma segunda oportunidade. as pessoas me conhecem e decidem q não sou bom o suficiente e somem, ponto, assim.

    assim chegamos ao ponto 2: vc fala para eu ir vivendo, me relacionando, conhecendo, q um dia vou conhecer a pessoa certa, mas a situação é diversa. não estou falando em encontrar o principe encantado, estou falando é dos sapos mesmo. penso assim, “como vou encontrar um principe se nem os sapos me qrem?”, o problema é mto anterior.

    e o ponto 3: não procuro o par perfeito. definitivamente não é isso! não ache q eu estou escolhendo demais por isso estou sozinho. não é isso. para escolher eu tinha que ter pelo menos duas opções, e não há nenhuma. quer dizer há: eu posso fazer sexo no banheiro da faculdade (de graça) ou pagando para michês e garotos que acham q se eu paga-los eles não são gays. e essas opções não estão MAIS na minha lista.

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