Meus anjos encarnados …

Ele era um anjo, disso eu já desconfiava.

Mas quando conheci sua família, mãe, irmão, pai, irmã, sobrinhos … não tive mais dúvida. Estava, eu, diabinho, no meio de uma família de anjos encarnados.

Eram anjos pela pureza da alma, inocência de atitudes, candura, tolerância, sinais de uma quase imaginada perfeição humana, mas nada pretenciosos. Tudo muito natural, simples. Eles mesmos não sonhavam, jamais entenderiam, mas eram. Anjos.

Viviam ali, calmos, quietos, seu cotidiano. Traziam paz à cidadezinha parada no tempo, embora cercada de tecnologia e modernidades. Apenas eram o que tinham de ser, sem muitas palavras, sem campanhas, sem lutas. Iluminavam sem consciência da própria luz.

Só eu os via assim? Só eu os sentia? Era preciso ser um diabinho tão diferente deles para percebê-los? Os iguais não se reconhecem aqui neste mundo? Essas respostas eu jamais — pelo menos enquanto estiver por aqui — terei. Mas continuarei me perguntando…

Aí, um outro anjo soprou ao meu ouvido: — você ainda é um diabinho, pelas imperfeições que carrega, mas já pode sentir a presença de alguns anjos. Eles já chegaram aqui anjos, vindos de outras vidas, de outras paragens. Nem eles sabem ainda por quê! E você precisou andar muito para comecar a enxergá-los e senti-los como eles realmente são.

Foi um dia feliz. O mais intenso, mas estranhamente também o mais suave, em toda minha vida. Eu, que até então aprendera a associar prazeres a intensidades — mesmo que sempre mais imaginadas do que vividas –, jamais me conformando sequer com a possibilidade de que eles (os prazeres) pudessem advir da suavidade das almas, surpreendendo-nos no labirinto formado pelos sentimentos delas. Ninguém — eu certamente não — se transformaria em anjo, mas agora pelo menos me fora dada alguma permissão para, de vez em quando, encontrar algum desses, encarnados. Não era pouco. Com certeza, muito mais do que eu, ainda merecia.

Mas algum motivo haveria nisso tudo… E, de novo, o mesmo anjo, agora invisível, tentava me dizer algo: que um diabinho jamais fica impune, imune, indiferente a um encontro desses. E o meu [encontro] tinha acontecido, e já ia derretendo minha alma até então endurecida. Alma que nem era assim tão pedra, assim tão fria, mas aprendia a virar água, mesmo que ainda nada cristalina…

Agora eu não poderia mais duvidar. Ele era mesmo um anjo. Eu? Não, era de outra massa, ainda pedra, mas já amava um deles… E talvez o amor pelo anjo me permitisse viver ao lado dele, com ele, apredendo a amar outros anjos, e outros nem tão anjos assim, começando por mim mesmo.

Cada vez menos rocha. Cada vez mais alma. Um dia, quem sabe, talvez também anjo. Na companhia deles todos…

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7 respostas para Meus anjos encarnados …

  1. FOXX disse:

    uau!
    deve ser uma família realmente especial…
    como vc conheceu o anjo então?
    ou diabinhos e anjos frequentam os mesmos lugares?

    • Alex Martini disse:

      Poderia dizer que conheci o homem, não o anjo, num inferninho.
      Mas a convivência foi me mostrando que era um anjo. Caído, também procurava seu lugar no mundo…
      Pois, pra amar um diabinho como eu, só sendo anjo, que ainda acabará por me transformar também num deles…
      Suave, doce e maravilhosamente.

  2. Jhonne disse:

    Fico me perguntando se já passou algum anjo caído na minha vida. Acho que sim. Será que o amor só é possível entre seres tão diferentes?

    Forte abraço!

    • Alex Martini disse:

      Anjos que não enxergamos no passado são anjos que passaram. O importante é o futuro, aprender a reconhecê-los na nossa vida…
      Quanto ao amor ser possível só entre seres muito diferentes, no momento penso que não.
      O amor é possível de todas as formas. Entre iguais ou não tão iguais.
      A convivência, porém, harmonioza e duradoura, acho que é mais provável entre iguais, entre pessoas mais próximas, com mais afinidades.
      Os opostos se atraem, mas são os iguais que permanecem juntos.
      Abração

  3. bluMan disse:

    Eu entendi o “caídos” representando hipocrisia. será?
    Eu estou rodeado de anjos em minha vida.

    Você é o diabinho mais angelical do mundo. 🙂

    • Alex Martini disse:

      Não era minha intenção. Não tinha pensando em nada negativo. São anjos encarnados.
      O emprego da expressão “anjos caídos” foi fruto de minha ignorância sobre o assunto. Sua observação me obrigou a ir verificar, rapidamente, o que significava, segundo as escrituras, ser um anjo caído.
      E nada tem a ver com meus anjos aqueles seguidores de Lúcifer expulsos do Paraíso.

      Vou reescrever meu texto, substituindo o termo caídos por encarnados.
      Dará um ar mais religioso — que não era minha intenção –, mas fica menos impreciso. Menos poético, porém mais preciso. Anjos caídos, como estão na literatura e nas escrituras, não têm nada a ver com os meus, que são pessoas puras, luminosas, especiais, raras. Reais. Encarnadas.

      Você talvez seja um deles, pois considera um diabinho como se anjo fosse…
      Aquele que não julga e aceita o próximo como ele é, certo de sua evolução, talvez já tenha mesmo algo de anjo.

  4. FOXX disse:

    comentando seu ultimo comentário no meu blog
    acho q sua explicação serve pra porque a gente se entrega na mão daquela espécie de homem, pra aplacar uma fome nossa, mas não explica pq eles agem daquela forma.

Comentários

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