No trabalho… assumo ou não assumo?

Reedição de texto originalmente publicado em maio de 2010.

Volta e meia me vejo no meio dessa discussão: assumir-se ou não. A partir de minha experiência pessoal, especificamente quanto a assumir-se, ou não, no trabalho, comecei a organizar algumas idéias sobre o tema. Certeza, por enquanto, só uma: muitas dúvidas… Não tenho a pretensão de mostrar receitas, até porque acredito que elas devem ser individuais. Cada um deve ter a sua. Entendo que não devemos nunca transformar algo em obrigação mais pesada do que podemos carregar. Já basta toda a discriminação que já sofremos ao longo da vida. Ninguém deve, a meu ver, obrigar-se a assumir sua sexualidade publicamente se isso possa lhe trazer ainda mais sofrimentos. Muitos considerariam isso covardia. Paciência. Eu entendo que covardia é só aquilo que, podendo, deixamos de fazer, de ousar. Deixar de fazer algo que está além de nossas possibilidades, não creio que seja propriamente covardia. É como penso, certo ou errado, não importa. A esses, costumo dizer que ser covarde também é um direito, e cada um paga a conta por ser como é. Ninguém tem o direito de exigir do outro um procedimento que vá além de sua capacidade momentânea, ou simples opção.

A questão de assumir-se no trabalho é parte da “assunção global”. Você pode ser assumido para si, ser verdadeiro com amigos e a família, mas não necessariamente no trabalho. O bom, mais libertador, seria viver num mundo onde cada um pudesse ser o que verdadeiramente é, o tempo todo, com todo mundo. Sempre verdadeiro, em tudo. Isso é possível? Para alguns, sim; pra maioria, reconheçamos, ainda não. Ou antes, para muitos não é possível sem um custo que não estão dispostos a pagar. Ou ainda não se sentem emocionalmente prontos para enfrentar todas as consequências.

Há níveis nesse processo de “assunção” da própria [homos]sexualidade. Há desde aqueles que chegam ao ponto de viver um casamento [heterossexual] de fachada, numa tentativa desesperada de se esconderem para todo o sempre, até aqueles que já nascem assumidos, se me desculpam o exagero.

O primeiro caso [os falsos héteros], é grave! Envolve o sentimento e a vida de outras pessoas. É desonesto, no meu modo de ver as coisas. Mas não julgo ninguém (não cabe a ninguém fazer isso) que resolve seguir esse caminho. Cada um sabe a dor e o prazer de ser o que é, de fazer o que faz. O segundo (o assumido desde sempre), acho que só rola mesmo com aqueles que nunca tiveram como se esconder, já que é meio raro alguém ter a sorte de nascer e crescer num ambiente totalmente amigável e compreensivo em relação à homossexualidade. Em geral, são os que sofrem desde muito cedo por não esconderem o que são. A grande maioria de nós fica mesmo entre esses dois extremos. Nem nascemos assumidos, nem pretendermos morrer no armário.

Assumir-se totalmente, em todos os lugares, principalmente no trabalho, depende muito de cada situação. Como tudo, acho que é preciso primeiro estimar a temperatura externa, e desnudar-se só até onde der pra aguentar. Em outras palavras, não há receitas, não há leis nem regras. Só você pode saber a resposta à pergunta “devo ou não devo?”.

A aceitação geral em relação a nós, gays, felizmente, melhora graças aos destemidos líderes que têm, além da coragem necessária para assumirem-se publicamente, forças para defender uma causa. Eu, infelizmente, não tenho estrutura para isso. Lamento, mas sou assim. Também não cheguei ao ponto de um casamento heterossexual. Honestidade com os outros pra mim vem antes de tudo. Seria demais ser hipócrita a esse ponto. (Pra mim, bem entendido.)

E, caiamos na real. Com o passar dos anos, assumir-se publicamente torna-se quase desnecessário, pois, se você não namora mulheres, não transa com elas, não é casado com mulher, nem é padre ou monge, e além disso já passou de uma certa idade… só você mesmo é que pode pensar que alguém ainda imagina que você não seja gay. Só você mesmo pode continuar pensando que o mundo não sabe qual é a sua. E, se não sabem, falam do mesmo jeito. Não se iluda.

Especificamente sobre o assumir-se no trabalho… tudo depende de quem seja seu empregador, do tipo de trabalho que exerce e dos riscos que está disposto a correr. Ambientes corporativos são sempre muito competitivos. Ser gay pode ser uma desvantagem. Assumir-se, em casos raros, mas que existem, pode representar alguma vantagem. E, depois, se você está trabalhando num lugar onde a forma como você vive sua vida sexual e afetiva, onde sua vida privada conta mais do que sua capacidade profissional, talvez você devesse começar a refletir se está no lugar certo. Se não está na hora de mudar de emprego. Ninguém deveria ser beneficiado ou prejudicado por ser homo ou hétero, homem ou mulher, negro ou branco, magro ou gordo…

Quem puder se assumir publicamente desde jovem, ótimo. Que o faça. É uma grande libertação, Perderá menos tempo na vida gastando energia com uma coisa que, cedo ou tarde, será inevitável fazer… ou impossível esconder. Daí a assumir-se no trabalho vai uma certa, e prudente, distância. Antes, pense um pouco a respeito. Sua sobrevivência depende do emprego? Então pense mais ainda. Não queira ser mais realista do que o rei. Nem mais herói do que pode ser. Afinal, o que pretendemos, todos, penso, é viver num mundo onde ser gay ou hétero não faça diferença! Trabalho, para a maioria de nós, é ganha-pão, não é a razão de viver. Importante, nossa contribuição ao mundo, mas não é tudo em nossa vida!

E deixar os outros na dúvida pode também ser uma forma de afirmação. Um jeito de dizer: isso não tem a menor importância! Enquanto tiver dúvida, sugiro: sua vida afetiva e sexual não deve ter nada a ver com seu desempenho no trabalho. Portanto, vida privada, vida privada. Trabalho, trabalho.

P.S.: Eu abandonei um emprego seguro, depois de muitos anos, numa empresa que se diz gay friendly. Amigável na propaganda para os clientes, uma imagem cuidadosamente construída. Mas lá dentro… Não aguentava mais o ambiente homofóbico. Embora eu nunca tenha assumido explicitamente, como falei acima, depois dos trinta e cinco, fica difícil você esconder o que é. E posso dizer: poder trabalhar sem ter que se preocupar se você vai ou não ser prejudicado porque gosta de pessoas do mesmo sexo é uma libertação tão grande, que impacta diretamente no seu desempenho profissional.

Você pode também gostar de ler: São Paulo: Discriminar gays no trabalho rende multa de quase R$ 500 mil

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6 respostas para No trabalho… assumo ou não assumo?

  1. Junnior disse:

    Olha, passei aqui pra fazer uma reclamação (ia perguntar se tá com preguiça de postar) e eis que me deparo com uma postagem nova. Na lista dos meus blogs, consta ainda a postagem anterior. Esta não apareceu!?
    Enfim, li a matéria acima e adorei (pra variar). Tá tudo mastigadinho e quase não há o que acrescentar. Eu vou me atrever a fazê-lo somente com um detalhe: pensamos, às vezes, que o ambiente de trabalho não favorece o ato de assumir a nossa sexualidade porque não damos margens para isso. As pessoas podem parecer desrespeitosas conosco quando escondemos pra elas o que somos ou, visto por outro prisma, fingimos não ser o que somos. Dessa forma, elas se sentem à vontade pra falar e até pra ‘alfinetar’ quando sentem algo no ar. Ou seja, o respeito vem quando exigimos ele e, para tanto, precisamos nos impor.
    Por outro lado, não há como desconsiderar o que você disse: não devemos procurar mais sofrimentos se a homossexualidade não é aceita por nós mesmos ou, num grau menos grave, quando ela não está madura dentro de nós ou se não estivermos preparados para lidar com as situações que virão a partir de uma decisão como esta.
    Beijos.

    • Junnior,

      concordo com seu ponto de vista. Cada situação deve ser analisada individualmente pela própria pessoa. As condições podem ser muito diferentes em cada empresa, cada local de trabalho dentro da mesma empresa etc.
      O ideal (eu acho) seria a gente poder ser sincero sempre, transparente em tudo, mas numa questão como essa, absolutamente relativa à vida privada, não vejo porque explicitar quando poderá nos trazer mais sofrimento do que benefícios.

      Essa relação custo/benefício tem que ser cuidadosamente avalidada pelo próprio interessado.
      Nesse texto eu procurei colocar algumas reflexões trabalhadas numa conversa com um rapaz, ano passado, que vivia esse conflito. Ele se sentia incomodado com o fato de não ser verdadeiro, de ficarem pensando que ele era uma coisa que não era (heterossexual, no caso). Acabou contando pros colegas mais próximos. E se arrependeu. O custo foi maior do que o benefício. Alguns colegas que ele considerava amigos se afastaram, deixando nele aquela sensação de rejeição que muitos de nós – pra não dizer todos – conhecemos muito bem.

      O texto estava perdido lá nos primeiros posts, e eu resolvi reeditá-lo, trazendo pra página atual. Como se tratou de reedição, creio que o blog não considera texto novo, motivo pelo qual não terá aparececido lá no link do IdentidadeG. Mas logo eu vou continuar as outras histórias.

      Abraço

  2. SAON disse:

    Se você ainda não se assumiu e quer compartilhar experiencias com outras pessoas na mesma situação conheça meu blog:

    http://seassumirounao.blogspot.com.br/

  3. junior disse:

    engraçado é que os próprios gays é que veem homofobia em tudo. ninguém tem nada contra o gay, mas sim contra a prática homossexual. você pode ser gay afeminado, travesti, transexual, machão, boneca, entre outros estereótipos totalmente assumido. desde quando você não dê em cima de ninguém em seu trabalho ou se beije na frente dos outros, estará tudo bem. a sociedade odeia o pecado e não o pecador. pensem nisso.

    • E alguém é contra a prática heterossexual? É contra beijo na rua? Engraçado, entre nós nada pode em público, ninguém tem nada contra gay mas sim contra a prática homossexual. Não sei como se pode ser gay sem prática homossexual.
      No fundo, meu caro, há muito preconceito e ignorância.
      Você ainda fala em pecado, pecador.
      Pra mim só existe uma coisa: amor. E o amor não tem sexo.

      A atitude de dar em cima no trabalho não tem nada a ver com ser homossexual, mas sim com falta de respeito e é deplorável em qualquer situação.

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