umidade excessiva

História adaptada do relato de uma amiga em visita a uma oficina.

I

Cansada de mandar o carro à oficina pelas mãos do irmão, do pai, Natália resolveu tentar pessoalmente resolver o probleminha que já começava a passar de seus largos limites. O irmão vinha fazendo isso pra ela, mas ultimamente seu Palio volta inexplicavelmente com a mesma entrada de água por dentro do revestimento, formando uma poça aos pés do motorista. Hoje é sábado, não tem plantão, e resolveu ir ela mesma à revendedora próxima à sua casa.

Chega, é atendida pelo consultor indicado na ordem de serviço, explica o problema. Muito gentil, chama o chefe da oficina, um moço alto, quase um e noventa. Não chega a ter pinta de modelo, mas tem uma beleza notável! Forte, cílios longos, sorriso perfeito, generoso. E exala um calor especial. É daquelas raras pessoas que tem brilho próprio, esteja onde estiver, como estiver. Gente que não parece deste mundo de gente conturbada, perturbada, agoniada. Antes mesmo do aperto de mão, protocolar, Natália já está entregue, derretida. Sente um calor estranho no peito, as pernas meio bambas.

Estende a mão. Rogério!

Quanta carência a minha!, pensa.

Meio perturbada, reexplica o problema, acompanha Rogério até o carro, estacionado na rua aos fundos da oficina. Abre, mostra as partes umedecidas do carpete. Rogério pede licença, abre mais a porta, tira o tapete, passa a mão pela forração, banco… Natália observa as mãos dele e num reflexo quase condicionado, imagina poder tocar aquelas mãos, deseja aquelas mãos vigorosas, mas suaves.

Cansada de relacionamentos com colegas, encontros que nunca chegam a nada além de, no máximo, uma boa transa, já vinha há algum tempo decidida a conhecer outros territórios, outros homens. Não se conformava com a limitação daqueles que conhecera. E algo em Rogério diz que é um homem que vale a pena conhecer. Abandona todo preconceito. Deciciu arriscar.

Rogério apalpa, passa a mão com delicadeza, procurando sentir a origem daquela umidade. Ela sonha. Ele curvado pra dentro do carro, ela contemplando, quando observa que a calça dele deixou à mostra o início de uma bunda linda. Não era mais um reguinho, já era um quase vale! Imagina a consistência, vê a penugem suave. Ela sempre gostou de observar bundas. De homens. Por elas, viaja, chega a vislumbrar o corpo. Mas nunca deixara a imaginação solta como agora. Seus momentos de prazer solitário e carência sempre foram mais supridos por lembranças do que por fantasias. Era interessante. Se não houvesse futuro, que pelo menos lhe deixasse lembranças.

Num quase transe, se dá conta que Rogério já vai longe nas explicações.

Será preciso reexaminar todo o serviço, isso não pode ficar assim!

Deixo o carro hoje mesmo?

Como a senhora preferir! Sorri. Não precisava, mas sorri, gentil.

Natália agradece. E também sorri. Não precisava, mas sorri, mais do que gentil, ainda que acanhada. Tem a certeza de que algo se estabeleceu entre eles. Virá pessoalmente buscar o carro quando avisarem que o serviço ficou pronto.

II

Volta pra casa, come, dorme, sonha. Rogério não sai mais do pensamento… Mas é algo suave, quente, nada desesperador. Alguma coisa lhe diz que com ele é diferente. Maravilhosa carência, pensa ela. Permitiu que visse um homem deslumbrante onde antes seu preconceito veria só um mecânico…

O carro nunca ficou bom, é verdade. Mas não brigou com Rogério por isso. Entregou o carro como entrada num modelo novo. Estão casados, felizes, há quase seis anos. O casamento só não saiu antes porque Rogério demorou a se convencer de que poderia mesmo ter uma médica como esposa. Nunca teve muita noção do valor que tem como pessoa. Para ele, menino pobre, parecia demais. Até que se convenceu de que era tudo aquilo que Natália sempre dizia. Quando não teve mais dúvida de que as palavras dela eram sinceras, aceitou o fato que ele também já sabia consumado há muito.

Dois filhos. Ninguém nunca os viu discutindo. Sempre sorrisos. E Rogério continua com a mesma suavidade nas mãos. Ela, feliz, trata cada vez com mais carinho as crianças em seu consultório. Vê, em todas elas, filhos dela e de Rogério. Hoje, é ela quem às vezes duvida que mereça tanto!

Anúncios
Esse post foi publicado em Ficção, Letras e vida. Bookmark o link permanente.

2 respostas para umidade excessiva

  1. Junnior disse:

    Que interessante! Devo ressaltar que me senti a Natália em toda a história, exceto no final: tive um carro que tinha exatamente o mesmo problema e o levei várias vezes à concessionária para corrigi-lo, mas não adiantava. Era chover e lá estava a poça. Era no banco de trás, aos pés do carona do lado direito. Vendi o carro assim. Fazer o quê? Engraçado era o que eu fazia quando começava a chover. Procurava um abrigo para o carro (postos de gasolina, etc), igual a gente quando está sem guarda-chuva na rua. Pode isso?
    E quantas vezes me deparei com um homem assim como o Rodrigo nas oficinas/concessionárias e babava com as mãos fortes deles (adoooro mãos)? Inúmeras. Porém, como disse, o meu final infelizmente não foi o mesmo da Natália (até hoje pelo menos): não me casei com nenhum deles e muito menos tive filhos (kkkkkkkk).
    Bj.ss

    • E eu só escrevi porque também me senti a Natália. Que, aliás, não existe.
      Depois do seu depoimento, mudei a tag pra ficção.
      Rogério existe, o encontro existiu, mas nem houve casamento, e muito menos filhos.
      O carro… este continua com o mesmo problema. Ainda não saiu da oficina.
      Sábado vou buscá-lo pessoalmente.
      Mas não haverá casamento algum.
      Rogério não é do ramo. Feliz ou infelizmente!

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s