Roberto, um solitário na Gávea.

Sábado de carnaval. Roberto está confuso, acordou cansado, dormiu pouco. Deitado na cama, segue essa estranha compulsão que o acompanha há algum tempo. Dezoito anos, mas ainda meninão, virgem de amores, ficadas e também de sexo. Foi se acostumando à solidão, mesmo quando está no meio dos outros. O Carnaval? Passava sempre com os livros, indiferente ao ruído familiar do sítio em Itaipava, pra onde a família sempre subiu nos feriados, férias e todas as folgas. Cansou. Não quer mais isso. Precoce, inteligente, vivaz, talentoso em quase tudo que se meteu a fazer, terminou o segundo grau aos dezesseis, quando cedeu às ladainhas da carola mãe que sempre quis um filho padre. — Sim, ainda há mães assim!, acredita? Sem rumo, concordou em ir pro seminário ao invés de ir estudar Direito na PUC. Passou no vestibular, mas cedeu e acabou na igreja. A dose de submissão dessa vez, porém, foi cavalar demais até para ele, moço que, ainda que excessivamente indeciso, já era homem e conseguiu ver que aquela não era sua verdadeira vocação. Tinha talento, sim, seria um ótimo padre ou pastor, psicólogo de almas que buscariam nele o conforto e a compreensão de suas pobres vidas. Atenção e orientação que outros tentam encontrar em intermináveis sessões com onerosos e muitas vezes enganadores terapeutas. Ele teria sido um bom nisso, seria sempre sincero, honesto.

Mas não era sua vocação mais genuína. Nem sabia qual seria. Se é que tinha alguma, não saberia tão cedo. Mas pelo menos já era seguro de não querer algo. Era um começo. Este segundo semestre na faculdade estava sendo um nascimento pra ele. Não diria renascimento, porque se achava até ali um morto — não podia ser, então, renascimento. Agora admitia-se — não dava pra esconder mais — admirado, paparicado pelas moças e por alguns moços também. Ele, sempre tão isolado, que varara toda a adolescência acreditando na imagem de falso santinho que a mãe lhe meteu nas idéias desde muito novo, já preparando o terreno para o padre que desejava, deixou sempre de chegar perto de qualquer coisa que pudesse cheirar ao que a igreja chamava de pecados. Condenava-se sempre após cada sessão de masturbação escondida, quando já não agüentava mais e, desesperado, desamparado em suas orações, seu corpo pedia mais e não dava mais conta de se exaurir com exercícios nem com as intermináveis, quase diárias, poluções noturnas, sempre associadas a sonhos pecaminosos. Justificava-se, assim, por suas punhetas. Melhor esgotar logo do que deixar a alma ser levada pelo Diabo durante a noite em estranhas e luxuriosas, talvez reveladoras, atitudes, conduzido por desejos inconfessáveis. Sim, inconfessáveis. Outra tortura à sua pobre alma era essa. Jamais contava ao seu padre confessor o que fazia, mesmo quando questionado se não estava esquecendo de contar algum pecado em especial. Parou com as confissões ainda antes de ir ao seminário, quando Monsenhor Duarte, na última vez, lhe dissera claramente: — se não é pra contar tudo, não precisa mais se confessar. Sim, uma pessoa qualquer, temerosa de abandonar as cerimônias religiosas, nem assumiria coragem pra contar tudo, nem abandonaria os rituais que lhe parecessem necessários. Adotaria, como tantos, a hipocrisia como meio de sobrevivência: passaria a relatar algo leve, por metáforas, como sabia que todos os seus colegas faziam, lhe contavam. Mas nele, menino para quem a honestidade era um valor tão fundamente entranhado, que trazia não sabia de onde, essa atitude só lhe faria ainda mais apertado o peito. Não queria inventar, mentir, nem tinha coragem de falar a verdade. Tomou uma atitude radical, não se confessou mais, não se punhetou mais, entrou pro seminário na esperança de que lá, supondo um contato mais próximo com o sagrado, ficaria livre, finalmente, daquela tortura. Mas não foi assim. Não aguentou. Acabou desistindo. Seu corpo venceu. E agora estava começando a tomar coragem para enfrentar um mundo diferente.

Roberto era, neste momento, a acabada demonstração de que ingenuidade e inteligência podem, sim, conviver numa mesma pessoa, sem muitos conflitos. E, principalmente, de que essa co-habitação não é eterna.

Esses contatos na faculdade, todo o assédio que vinha sofrendo, e principalmente a proximidade com Mateus, rapaz com quem dividia a atenção de colegas e professores, tudo isso mudava sua percepção de si e das pessoas. Amigo que nunca tivera, que nunca se permitira ter, Mateus não falava sobre sexo, era sempre um papo agradável, tinha namorada, tranqüilo, bem resolvido. Além de todos os talentos, tinha um especial: ler a angústia pelos olhos das pessoas. Perto dele, os olhos de qualquer um, observados por alguns segundos que fossem, eram sempre a janela escancarada da alma. E foi assim que chegou a uma conversa franca com ele, praticamente lhe recontando toda sua vida, que Mateus via pelas janelas da alma que Roberto também não fazia nenhuma questão de cerrar. Num dia, ao final do primeiro semestre, conversaram longamente à saída da faculdade. Ele se colocou à disposição pra qualquer coisa que quisesse falar, mas Roberto não retornou. Medo? De quê? Algumas frases de Mateus o acompanharam durante os intermináveis meses das férias, indiferentes ao silêncio da montanha em Itaipava, onde ficou internado quase todo dezembro e janeiro. Desceu apenas para encontrar a avó, muito doente, no Natal, talvez o último daquela que sempre fora sua cúmplice, não por palavras, mas por olhares e afagos. A única, entre pais, irmãos, amigos, professores, que olhava para ele sempre com aceitação e amor que lhe pareceriam sempre eternos. As últimas frases de Mateus, o amigo, martelavam insistentemente suas idéias. Ouvia que ele era um cara muito bonito, inteligente, e que precisava participar da vida, não adiantava fugir de si mesmo, que só assim ele seria capaz de deixar sua verdadeira vocação aflorar, vir, mostrar-se toda. Cumprir seu papel no mundo. Ser feliz, ter uma vida de uma felicidade humanamente possível. Voltaram natural e inevitavelmente a se encontrar agora, e já não podia mais se esconder de ninguém. As moças cada dia mais atrevidas, alguns olhares de moços também cada dia mais perseguidores, e seu espírito, cada dia mais cconfuso, querendo voar. Ah, e aquela compulsão interna, aquele desespero ao qual ele — já livre e desamarrado da proibição, mas ainda não livre do sentimento de pecado –, não conseguia botar fim nem com todas as intermináveis punhetas tardias. Masturbava-se, agora, por todas as vezes que deixara de faze-lo antes. Tirava o atraso. Nas últimas semanas, seu pau recebera, pelas mãos, todos os sofrimentos dos quais se mantivera livre durante quase toda a adolescência. O castigo, antes em doses homeopáticas, vinha agora em coices, incontroláveis, embrutecidos, desesperados. De uma só vez. Mas não resolviam. Antes, desesperavam-no ainda mais.

E foi assim que Roberto acordou no sábado de carnaval. Consumido por dentro, corpo cansado da sessão na academia no dia anterior, das três gozadas antes de dormir, ainda sonolento pelo Frontal que tomou, sozinho, evitando pensamentos que entravam sem pedir licença, ora na companhia de Marta, ora na de Mateus, ora na de ambos, outras na companhia da turma quase inteira da faculdade, todos nus, sorrindo juntos. E não tinha, ele sabia, fumado nada, tomado nada, cheirado nada. Deitado na cama, ainda algo baforento, sentia aquele ardor na base do pênis, os mamilos sensíveis à menor esfregada do lençol. Em silêncio, ouvia o rumor da cidade lá longe. Carnaval, alguns batuques muito distantes, carros passando, uma ou outra moto barulhenta. Não ouvia vozes naquela manhã. Não agüentou, arrancou a cueca, a camiseta. Nu, tentou aliviar-se uma vez mais. Surpresa: o pau pediu arrego! Pela primeira vez, via seu companheiro tantas vezes desdenhado não conseguir mais responder ao seu fogo. Esgotara-se. Mas ele, insistente, tentou, por quase uma hora a fio. Desistir seria passar o dia naquela tortura. Até um calor estranho começoou a percorrer o corpo, dos pés ao peito, e finalmente veio o gozo, tímido, arrancado mesmo sem plena ereção, explicitado por algumas gotas, que mais pareceram lágrimas. O amigo, enfraquecido, amolecido, dormiu. Suados, choraram ambos.

O feriadão começava. Ele sozinho em casa. Sem rumo. Sem ninguém. Com medo, mais assustado consigo do que com quem quer que fosse.

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3 respostas para Roberto, um solitário na Gávea.

  1. Junnior disse:

    Tô vendo um excelente texto pra ler…Vou sair agora por almoço e deixarei para degustá-lo após, com calma. Até mais.
    Beijos.

  2. Junnior disse:

    Gostei muito. Continua? O ‘corpo cansado da sessão da academia do dia anterior’ + ‘todos nus’ + ‘não tinha ele fumada nada’ pareceu que a estória iria dar um pulo para dias atuais e longe de uma época da qual Roberto não guardaria sequer resquícios…
    Bjos.

    • Não sei se continua. É ficção, ainda não conheço Roberto direito, não sei que rumos ele tomou depois daquele sábado de carnaval, não tão longe no tempo… Uma coisa eu já sei: os tais resquícios o acompanharam até hoje.

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