Até quando, Isabella?

Cansado da leitura, mas antes de desligar o micro, Isabella lhe vem às idéias. Será mesmo ainda um restinho de paixão, depois de tantos anos? Não, claro que não, imagina! Para, cara! Nós sabemos. Você se lembra dela quase todos os dias! Sabe, pensa que sabe, que nunca pôde ser sua, que nunca poderia ter estado com ela. E que ela não seria sua nem de nenhum outro. Está certo disso, convicto desde sempre. Nem acredita que tenha estado próxima um dia, assim como sabe bem que gostaria que tudo tivesse sido diferente.
Mas, lá no intimo, escondidinho de tudo e de todos, está a imagem de que ela esteve ali,a meia certeza do ouvir dizer assim que muitos viram, só ele não viu, só ele não se sentiu capaz de tê-la, possuí-la, ser possuído. Faltou-lhe coragem, isso sim. Ou, muito antes, faltou-lhe considerar-se capaz. Não acreditou que tivesse dotes suficientes, fossem quais fossem esses requisitos imaginários, fantasiosos, que mais serviram para evitar qualquer tentativa de relacionamento do que justificativa verdadeira para seus fracassos, que nem isso foram, pois nunca tiveram mesmo a vontade de ser sucessos, seja lá o que isso significasse. Aliás, nessas áreas, coisa que nunca saberá, o que é sucesso na vida?
Um dia, ele se foi. Cansado e sem nenhum adeus, apenas chegou-se e disse a ela que estava indo embora, partindo para outro emprego. E ela não alterou um músculo da face, mas não teve cinismo suficiente para esconder que estava, no fundo, feliz. Uma pedra a menos no caminho, terá pensado. Disse apenas “será melhor pra você assim”. Nem um seja feliz, nem um obrigado, nem um até breve. Nunca mais se viram. Há dez anos, embora morando na mesma cidade, que nem chega a ser assim tão grande que pudesse justificar a probabilidade de um não-encontro, casual que fosse.

Noite avançada, sozinho, ela volta. Ou faz a aparição que sabe quase diária. Coisas nunca começadas ou mal resolvidas são mesmo assim. Vão, mas ficamos sempre desejando, à espera de um reencontro esclarecedor, um novo diálogo, desarmados, desinteressados ambos, incógnitos de tudo e de todos, para, ao menos uma única e última vez, serem verdadeiros um diante do outro, saberem o que uma alma via e sentia verdadeiramente da outra. Falarem, ao menos hoje, ao menos uma vez, o que sentem agora, afastados no tempo, no espaço, sem disputas, sem objetivos que não a paz eterna, numa espécie de acerto de contas apenas ou só mesmo apenas um olá-até-nunca-mais, onde tudo pudesse ser dito, o que foi, o que nunca poderia ter sido, o que gostariam que tivesse sido e já nunca mais será. O que um nunca pensou que o outro quisesse, que nunca pensou desprezar quem jamais imaginou lhe desejava. Partirem, então, para até nunca mais. Ou seria até breve? Sabe-se lá. Se não nesta vida, talvez na próxima, pelo menos. Mas, será? Haverá outras? Melhor sonhar. Mas nem sonhos, ela nunca voltou. Só mesmo em visões de seu desejo reprimido.

Entra no Facebook e, na segurança do anonimato, de um fake, resolve procurar seu nome. Lá está ela. Surpreso, lê “mora em Milão!” Um frio percorre levemente suas vísceras. Então, ele veio, ela foi. Provavelmente, terão andado próximos por vários meses, dividindo, quem sabe, os mesmos bondes, o mesmo trem do metrô… Quem sabe até andaram quase se esbarrando por lá num encontro casual diante do Beijo de Hayez… (não, isso seria muito clichê, convencional, censura-se).

Agora, ele voltou, ela está lá. Definitivamente, sabe ele. Está seguro, ou prefere pensar que está, de que há algo além, do além, que mantém, em sua lembrança, viva, próxima, Isabella. Mas, o mesmo além, parece também dizer: sonhar, desejar, tudo pode, talvez, especialmente o afastamento eterno. Muitas coincidências! Até quando?

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4 respostas para Até quando, Isabella?

  1. aaaaaaaaaaaaaah

    vc voltou a escrever?!?

    gente!

    tow mto feliz com isso!
    hehehe

  2. junnior disse:

    Olha que surpresa! A Isabella merece um beijo só por ter feito você voltar a escrever.
    Bjaum.

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Comentários

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