Café solúvel.

Atendeu ao pedido, apesar do tempo, da distância, do quase esquecimento que sempre mantivera o amigo mudo, fingindo-se surdo a qualquer tentativa de aproximação verdadeiramente mais próxima. Chegou ao aeroporto triste, com a alma no meio de uma ventania, sentindo tudo que gostaria tivesse sido e nunca mais seria. Ricardo partira dois dias antes. Os sonhos que um dia pretendeu viver agora seriam só isso, definitivamente sonhos, sem qualquer possibilidade outra que não esfarelarem-se na memória como sonhos, desejos que, tão reprimidos, jamais sentiriam. Seriam apagadas e quase esquecidas lembranças de um futuro que nunca chegou a ser presente e, assim, jamais poderia ser pretérito. Amigos, será? Não se viam há mais de quinze anos, desde quando, ainda meio adolescentes e meio adultos, seguiram para universidades distantes. Ele nunca mais voltou à cidade. Nos primeiros anos ainda andaram se falando, em conversas intensas, em que um mal disfarçava a vontade de rever o outro. Vontade que de tão grande e assustadora mais afastava do que convidava o encontro. Andaram por caminhos distantes, sem que pudessem admmitir a perda de algo que nunca teriam. O amigo — sim, sempre considerou amigo — manteve-se como sempre e, imprevisível, antes de partir deixara o pedido. Que ele, se pudesse, estivesse presente, mesmo sabendo que estariam, como sempre estiveram, sozinhos. Já agora sem mais nenhum sonho, nenhuma esperança de transformarem a solidão de um no encontro do outro.

Irônico, misterioso, quase cruel o destino e o pedido, deixado com o irmão. Mesmo depois de tantos anos, estava convencido de que o eterno amigo não faltaria. Sabia, sempre souberam, há amigos assim. Nunca se veem, nunca se esquecem, mas a um estalar de dedos se fazem presentes. Tudo em memória de ambos, em memória do que gostariam. Em consideração a algo que só os dois sabiam, de que só os dois tinham certeza, mas que nunca passaria de dúvida. Eterna incerteza.

Encerrado o último ato, cumprimentou o irmão. Não ousou chegar ao pai, próximo. A cara não era das melhores, e o momento sim, era o pior. Deixou todos em torno de suas próprias tristezas pelas alegrias que sempre haviam recusado ao irmão, ao filho. Foi saindo de fininho. O último olhar do irmão parecia confirmar seu sentimento das causas da partida do amigo. Não fora acidente, morte sofrida e de causa não declarada. Tempos bicudos, aqueles! Sentiu um grito do amigo! Se você estivesse aqui, eu não estaria aqui! Mas era injusto isso. Não tinha razão. O outro nunca abriu o jogo. E os tempos eram mesmo indóceis, bicudos com todos eles! Despediu-se e agradeceu ao irmão, saiu caminhando algo sem rumo em meio à neblina que escondia aquele campo verde onde só os videntes ouviam e viam. E esse, até ali, não era o seu caso. Da cidade vinha apenas o rumor da avenida próxima, acentuando o vazio entre vistos e invisíveis, uns eternamente silenciados e outros para sempre calados. Triste, de uma tristeza que parecia intransponível, foi seguindo … Pode perceber, trazido pelo vento gelado e cortante daquele inverno que conhecia tão bem, um suave cheiro do café solúvel produzido na fábrica ali próxima, o que o levou de volta à infância. E o amigo se faz novamente presente, quase redivivo.

Ricardo foi sem adeus, bem ao seu estilo. Desde menino aprontava daquelas. Mas agora deixou pelo menos uma carta, que, passdos já alguns meses, ainda ainda não foi lida. Ainda faltava-lhe coragem. Coragem que sabia nunca teria. Sobraria para sempre apenas o medo. E tristeza, e certezas que, tão cruéis, seriam sempre sentidas como dúvidas. Do motivo da ausência, da certeira causa anunciada, menos para ele, partida. Fingia sentir que nada teria mais nenhum sentido, mesmo tendo agora a certeza de que tudo sempre fizera todo o sentido do mundo. Ele é que não vira a tempo, ou fingira para si mesmo não entender nada do que seu coração mandava.

Botou os fones, escolheu uma cantata dentre as muitas gravadas no Ipod. No portão principal, um táxi arriscava esperar algum passageiro desamparado. “Aeroporto, por favor”. Sua cidade, onde um dia ousara sonhar em ser feliz, ficaria agora apenas como lembrança. Apenas, e tudo! Ah, Ric! Se eu pudesse voltar! “Porra, cara! Por quê?”

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3 respostas para Café solúvel.

  1. junnior disse:

    Amigo de verdade é assim, independe de tempo. Mas, qual foi o destino dele?
    Beijos.

  2. Junnior disse:

    Passa lá no blog hoje, dia 27 de setembro, e veja a surpresa que preparei. Tem a ver com o seu blog. Espero q curta.
    Bjaum.

Comentários

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