A genialidade de Machado. Uma outra questão em Dom Casmurro.

Ultimamente tenho ciscado aqui e ali, sem parar pra nenhuma refeição mais demorada. As facilidades da Internet, associadas à minha baixa concentração, me fizeram assim: um galo ciscador. E, antes que contradigam, digo eu mesmo: galo! Poderia ser galinha ciscador, mas dessa fase já passei. (Mas evito o primeiro gole, a primeira tragada, porque isso de ser galinha é meio como cachaça; demora pra gente mudar de verdade).

Bom, mas não foi pra fazer filosofia de botequim que parei pra dar esta ciscada aqui. Foi mesmo só pra levantar uma bola, que nunca tinha visto nem imaginado, mas que são Google me informa banalizada já, de tanto que outros tiveram a mesma percepção…

Estes dias, resolvi dar uma parada e reler, depois de trocentos anos, Dom Casmurro! Que, afinal, convenhamos, por mais gostoso que seja, não é leitura pra obrigar adolescentes, como faziam na minha época. E, que leveza, que maravilha, como as palavras fluem sem pedantismo, sem arrogância… Muito a aprender! Minha intenção inicial era apenas me deleitar com as palavras, o texto, porque, essa velha história de decidir se Capitu traiu ou não Bentinho já cansou! Concluí, há muito, que não há o que concluir. Machado queria nos deixar mesmo meio perdidos. O que importa no caso é a dúvida que cada um levanta ao se ver no próprio espelho.

Bentinho e Escobar: resposta ululante!

Mas agora, desde o primeiro encontro, venho registrando umas cenas entre Bentinho e Escobar que, francamente… me trazem mais certezas e poucas dúvidas. Ou, antes, me deixam as mesmas dúvidas sobre minhas próprias e alheias certezas. Eu me vejo no espelho deles. Vou acabar de ler, depois ir relendo e selecionando as passagens que meu espelho tiver refletido, compara-las com opiniões mais esclarecidas e, quem sabe, um dia ainda voltar ao assunto. Para deleite próprio, antes de mais nada, e de uns dois leitores, se tanto, que virão aqui pra conferir.

Claro, se você perguntar ao Google, verá que a dúvida não é nadinha original, que muita gente boa já andou pesquisando e concluindo a mesma coisa há muito tempo. Aí, só lhe restará um comentário: — só ele (eu) não sabia! E, a mim, só mesmo pedir desculpas pela ingenuidade…

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7 respostas para A genialidade de Machado. Uma outra questão em Dom Casmurro.

    • Simples! Se eles não eram gays, muito menos eu, então!
      A resposta me leva a outra pergunta, isso sim: o que é ser gay?
      Genio é isso! Coloca muitas dúvidas para que cada um busque, e encontre, sua própria resposta.
      Acho eu!

  1. Gay Incomum disse:

    Interessante! Quando li Dom Casmurro foi na época do ensino médio empurrado guela abaixo pela professora, e como vc mesmo disse, não é uma leitura pra esse tipo de situação, talvez por isso não tenha simpatizado e muito menos me interessado em reler novamente, agora com outra visão.
    Pra ser sincero, nem me recordo direito da história, além da clássica dúvida.
    Talvez seja um bom momento pra buscar compreender melhor a obra.
    E essa temática gay existe mesmo? Eu devia ser muito ingênuo então e passei batido. =0

    • Não creio.
      Não existe temática gay propriamente. E, considerando os tempos em que foram escritos, nem dá pra chamar assim. Naqueles tempos, talvez isso nem tivesse nome… Mas os sentimentos são eternos, então…
      Dá uma boa polêmica. Mas o texto tem passagens com as quais nos identificamos, sentimentos que já sentimos, e que sabemos nos conduziram até aqui. O que não quer dizer que todos os homens com sentimentos nobres e ternos em relação a outros homens, que tenham carinho e afeto, tenham também atração física pelo outro. Isso seria absurdo dizer.
      Mas que Machado entendia bem da alma, isso entendia.
      E que eu consegui viajar e me identificar neles, isso consegui.
      E basta! Pra mim é tudo!
      Literatura é isso! Prazer!
      E na adolescência, nossos prazeres são sempre outros, quase sempre mascarados e atrapalhados pelos nossos medos, preconceitos…

  2. Gay Incomum disse:

    Entendo o que quer dizer.
    É maravilhoso quando encontramos em algum texto, sentimentos que já sentimos também. Os personagens parecem vivos diante dos nossos olhos, ou das lembranças das situações que vivemos.
    Escrever com a alma, e criar personagens com alma própria é sublime.
    Penso que um pouco de conhecimento da psicologia é uma grande ajuda nesse processo. Conseguimos mergulhar no íntimo de um alguém de verdade.
    Ah, e como são bons esses prazeres!!

    • Muito bonito isso que você fala! É isso mesmo: um prazer pra ser sentido, mais do que estudado…
      Agora, falando sério, Machado fala de sentimentos. Meus olhos tortos é que voltam à infância, à adolescência, e vê o que ele, talvez, jamais desconfiasse existir.

  3. Até deu vontade de reler porque realmente Machado de Assis está (ainda) muito associado aos livros didáticos que era obrigado a estudar na escola.

Comentários

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