Amizade bifurcada

Conheceram-se por acaso na universidade, num trabalho em equipe numa dessas disciplinas inúteis de que ninguém vai se lembrar. João, tímido e inseguro, ainda não sabia nada de si, tinha medo de tudo. Antonio, nada tímido e muito seguro, mas inconsciente do próprio poder de encantamento.

Pouco mais de um ano depois, o acaso os colocou novamente juntos: mesmo emprego, mesmo setor, mesmo horário. O que em João era já só lembrança agora passava a ser brasa queimando o peito o tempo todo. Ficava sempre algo desconcertado diante de Antonio, o coração saía pela boca, não sabia o que falar, onde enfiar as mãos, como agradar, como evitar qualquer coisa que desagradasse o outro. Mas nem por isso deixava de tentar uma aproximação, mesmo com tanta falta de jeito, mesmo sem saber ao certo que força era aquela que o atraía. Uma força sentida desde criança, que sempre vinha em ondas, nunca explicada. Em alguma gaveta do subconsciente ele poderia facilmente ver o que lá estava, sem que para isso precisasse de intermináveis sessões de análise. Poderia dar uma espiada e ver o que a qualquer um era gritante, óbvio. Mas os tempos eram outros, e essas coisas não se falavam assim por aí, tão fácil e livremente. Tudo era muito contido. Em autodefesa permanente, deixava ainda fechada a tal gaveta. O que não podemos aguentar, melhor não ver mesmo.

João queria mais do que a amizade de Antonio. Queria ser alguém para ele, sem saber que nunca teria sua amizade, que jamais teria alguma importância pro outro. Antonio? Esse, embora sedutor, não seria nunca homem de muitos amigos. Suas preocupações eram outras, e sempre se apresentariam no gênero feminino. Tinha mais com o que ocupar o tempo. João ainda insistiu, chegaram a fazer algumas viagens juntos, dormiram na mesma barraca numa praia deserta, uma vez foram hóspedes solitários no mesmo quarto de uma casa vazia, que lhe rendeu a única visão do corpo do amigo, rápida e natural, que o deixou ainda mais perturbado e humilhado. Ali, confirmou o que sempre soubera. Havia algo a resolver, a assumir para si mesmo, tentar superar aquela distância instransponível entre ele e o mundo. E a brasa queimando, sem que iluminasse o cérebro. Antonio nunca permitiu que a relação fosse além de uma companhia momentaneamente conveniente e que o tempo se encarregaria de afastar, como de fato afastou, depois do casamento com a mulher já grávida. João, por seu lado, ainda sofreria vários anos pela mesma paixão, mesmo quando convivia com outras, que não foram poucas, platônicas todas elas. Sofrimento que só foi sendo cicatrizado a partir da consciência de si e do significado de tudo que sentia por Antonio. O sentimento ficou, a dor incômoda foi embora. Ficou uma saudade do que nunca foi, do que gostaria que tivessem vivido. E não era muita coisa o que imaginava para ambos.

O tempo passou, João passou a viver e Antonio foi levando a vida no rumo que sua natureza já tinha traçado desde sempre. Ainda na mesma empresa, se encontravam de vez em quando até que, afastados quando João partiu para outro emprego, passaram anos sem se ver. Um dia se encontram ao acaso num supermercado. Antonio já não era mais a figura exuberante de antigamente, e o peito de João já não tinha mais brasas queimando por Antonio. Apesar disso, evitou olhar. Paixão adormecida costuma acordar pronta e bravamente, e nunca soube se as brasas estavam mesmo apagadas definitivamente. Mesmo assim, com medo de despertar o que não queria, aceitou o convite para um almoço em família, em solidariedade a si mesmo, ao rapaz tímido e inseguro que fora, para sentir que finalmente poderia estar ao lado de Antonio sem tremer. Era outro Antonio, vá lá!, mas ainda assim, era o Antonio; a aparência mudara, mas os olhos eram os mesmos, o jeito, a voz, tudo ainda podia rasgar-se em paixão. Deciciu que seria um encerramento cerimonioso de tudo que nunca tinha sido. Poderia ser só mesmo para apagar algum fogo que ainda pudesse exisir, mesmo certo de que jamais o vulcão estava extinto. Será? Precisava saber. Resolveu correr o risco de encontrar seu passado. Não era apenas a bela face, o belo corpo, o belo sorriso do antigo Antonio que mantinha acesa dentro dele a paixão. Sim, agora aquele sentimento já tinha nome. Nome tão óbvio e natural depois de aceito. Paixão e algo muito além.

Foi ao almoço, num sábado. A mulher, bem, ainda era a mesma chata e fútil dos tempos em que eram solteiros. Mas era a mulher de Antonio, e juntos fizeram filhos lindos. Como seria mesmo esperado. Genética infalível. Terminado o almoço, saíram mãe e filhos. Tinham algum compromisso, iam fazer compras ou algo assim, e os dois acabaram sós na varanda. Na longa conversa, interminável para o gosto de João, com Antonio relembrando fatos e atos que pareciam sem significado algum, foi ficando incomodado, não via a hora encerrar a conversa, dar uma desculpa qualquer e partir. Faria isso na primeira brecha que o outro deixasse. Começou a perceber que o o outro queria dividir algo com ele. Numa colocação bem estudada no meio de um relato, disfarçando um descuido verbal, Antonio comparou algumas visões com certas e não raras alucinações que tinha à noite, há alguns anos. João perguntou se tinha alguma causa. Tinha. Tomava há algum tempo um remédio. Que remédio? Efavirenz! Ah, um antiretroviral. João começou a suar frio. As brasas quase foram vomitadas pela boca. Como assim? Sim, é isso, meu caro, um antiretroviral. Você nunca ouviu falar disso? Aconteceu comigo, meu caro! Mas tá tudo bem! A vida tem sido generosa comigo…

Em silêncio, ouviu solidariamente. Não sabia por que motivo lhe contara aquilo. Queria dividir com alguém que imaginava poder conhecer mais de perto outras pessoas com o mesmo problema? Ou imaginava que também ele, João, poderia fazer uso do mesmo medicamento? Nunca saberia. Acabou aceitando a confissão de Antonio como um desabafo, com uma pessoa que imaginava não o discriminaria por isso. Quem sabe até tivesse visto João em uma de suas idas ao mesmo posto de saúde… sabe-se lá! João acabou confessando que também era soropositivo, quase com medo que fosse um passo em falso, um avanço desnecessário diante do desconhecido. Mas por que Antonio faria aquilo? Nâo se viam mais, não havia nem resquício de amizade verdadeira entre eles … não faria sentido algum. Contou, pronto, não se arrependeu. Também há muito não fazia questão de esconder de ninguém, embora também não tivesse motivos para divulgar aos quatro ventos seu infortúnio! Tiveram a discrição de não perguntar um ao outro como haviam se contaminado. Ninguém pediu detalhes, desnecessários diante da situação consolidada de ambos.

Despediu-se, foi embora. A coincidência dos destinos, sabia, era apenas uma fatalidade compartilhada. Certo que jamais poderia pensar que Antonio… mas a vida tem dessas surpresas. Nem tudo é como a gente acha que é! Nossa imaginação é quase sempre mais pobre do que a criatividade da vida. A de João, pelo menos, sempre fora. E essa fatalidade não seria motivo bastante para trazer suas estradas sempre divergentes àquela bifurcação perdida no tempo, a partir da qual um novo caminho pudesse ser percorrido. As trilhas de ambos estiveram construídas desde sempre em rumos inconciliáveis. Ou pelo menos pensava assim até há pouco… Se a vida de ambos não lhes permitira nada além de um relacionamento amistoso e passageiro, não seria agora que mudariam isso por conta de uma ironia do destino. Tarde demais. Nesta vida, pelo menos.

Já em casa, João fez o que não fazia há mais de trinta anos: chorou! Muito. Um choro quente, abafado, indo do sufoco à libertação, em ondas. Definitivamente não havia mais brasas vivas. Pelo menos aquelas do passado, que tanto incomodaram suaa vida em intermináveis dúvidas, que tanto o fizeram manter aceso um sonho impossível. Dentro de alguns anos, não saberia quantos, num dia qualquer do futuro incerto, não estariam mais apenas decaídos pela idade. Nem corpos teriam mais, única certeza que restava a todos. Mas sua alma, sentia, hoje mais do que nunca, era eterna. E, apesar de tudo, insistia em lhe dizer que gostava da alma de Antonio. Não adiantava, gostava e pronto, e nada poderia ser feito a respeito disso. Viveriam juntos em outra dimensão? Haveria outra? Quando? Onde? Como? Isso não importava. Era amor. Puro. Ponto. Não mais paixão, que essa já não existia mais. Bastava a coragem para ver e aceitar. E esse sentimento o faria feliz.

Dormiu em paz. Naquela noite, não teve sequer um sonho estranho. Esgotado de sua cota de alucinações na vida!

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7 respostas para Amizade bifurcada

  1. nossa, não esperava esse final mesmo!

  2. Anônimo disse:

    Belo texto, como sempre. Gostei muitíssimo do final; tudo a ver com a vida, com a realidade.

  3. Gay Incomum disse:

    Muitas vezes a poesia da vida está nas lições que aprendemos ao longo dela, e não naquilo que queremos.
    A história dos dois é pura poesia, é pura arte, é pura realidade.
    O bonitinho, a fantasia, o idealismo está sempre na nossa imaginação.
    Quando acontece, beleza; quando não, ainda assim encanta.

    Abração!!

  4. Autor disse:

    Sabe aqueles dias em que vc está no ócio total no trabalho e, navegando pela internet se depara com um lugar que lhe fisga a atenção?
    Dessa forma, tenho que te agradecer por ter esse blog com tantos textos arquivados que fui me deliciando na tarde hoje.
    Incrível como apesar das diferenças, encontramos tantas singularidades nas histórias dos outros.
    Fiquei realmente feliz por ter achado seu blog e, espero, agora não mais esquecê-lo. Já linkei pra poder ler sempre.
    Um abraço e obrigado mesmo por compartilhar tão belas histórias.
    Bjo

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