Sobre paixões e a paixão por Ivan – I

No começo da vida, tendemos, quase todos, a achar que tudo que desejamos um dia nos será possível. Com exceção daqueles desejos loucos e irrealizáveis a qualquer um. E talvez seja bom que as coisas sejam assim. Se começássemos a limitar nossos sonhos desde então, onde chegaríamos? Alguns sonham livremente. Outros, muitos, como eu, sofrem desde sempre limitações nos desejos e sonhos. As causas dessas diferenças? Ignoro!

Entretanto, seja um grande sonhador ou pássaro de asas cortadas, depois de algum tempo qualquer ser normal começa a desconfiar que alguns desejos nunca serão sonhos, e muitos que chegarem a sonhos não passarão mesmo disso… Todo mundo, ainda que só quando criança, adolescente, teve ou ainda tem sonhos e desejos assim, sempre haverá coisas que nunca serão atingidas. Podemos nos dar conta disso mais cedo ou mais tarde, ou nunca, mas elas existem, quer por serem mesmo impossíveis, quer por estarem muito distantes de nossas possibilidades. Quer por limitações insuperáveis, ou porque a gente acaba concluindo que a relação custo/benefício não vale a pena! Enfim, uma hora você saca, finalmente, que nem tudo que deseja pode ser sonho e nem tudo com que sonha pode ser realidade. Talvez para o vizinho, pro seu amigo, mas não pra você. Demora a aceitar, mas o tempo se encarrega de convencê-lo. Com mais ou menos dores, isso, porém, você sempre terá como administrar. Se os sonhos mais agudos e as frustrações não o tiverem enlouquecido antes. E a vida costuma compensar essa perda com um ganho: saem os sonhos que nunca serão realidade, entram algumas realidades que descobrimos podem ser sonhos!

Há casos piores, como aqueles sonhos que sonhamos, mas que desde sempre sabemos irrealizáveis e, mesmo assim, insistimos em não abandonar. Como se abrir mão deles fosse abrir mão de nós mesmos, de nossa essência ou algo que assim sentimos. Uma coisa tão profunda que precisamos dela pra continuar acordando, levantando, respirando, caminhando…

E ainda outros mais trágicos, como os desejos que sequer um dia chegaram a ser sonhos conscientes e só nos damos conta deles, que um dia fizeram parte de nossa realidade mais íntima, quando já não são mais possíveis, restando apenas a eterna dúvida: eram ou não realizáveis?

As paixões que guardamos só pra nós normalmente estão nessas duas últimas hipóteses. Ou soubemos desde que apareceram que eram impossíveis, ou só nos damos conta delas, que existiram um dia, quando já não são mais nem mesmo hipóteses. Ou o amado, a amada se foi, fugiu, casou com outro…

Não sei dizer se paixão verdadeira, quando não realizada como gostaríamos, é eterna ou não. As minhas, confesso, demoraram muito tempo pra deixar de queimar e incomodar. Anos e anos. E não posso garantir que, se a causa dessas paixões reaparecesse, eu ficaria indiferente. Algumas dessas pessoas eu tive oportunidade de reencontrar. Não senti nada. Outra, bastou uma conversa formal (ele agora era diretor, eu continuava um reles empregado) de alguns minutos para reacender tudo que sentira no passado.
A paixão por Ivan, porém, é um caso esquisito. Nem queima mais, nem parece ter fogo para requeimar meu peito, mas existe e existirá sempre.
Falei demais para introduzir a história. (Uma história que nem é atraente, mas precisa ainda ser contada, para ser enterrada, se possível.) Ficou longo. Não vou cansar você, leitor, mais. Fica pro próximo texto. (Já me disseram que textos longos em blogs não são lidos. Mas… e daí, né? A gente continua escrevendo…)

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9 respostas para Sobre paixões e a paixão por Ivan – I

  1. gente, isso descreveu tão inteiramente o q eu estou vivendo
    a parte sobre sonhos irrealizáveis
    q eu tow chorando até agora

    obrigado por me proporcionar isso

    • saber que compartilhamos sentimentos, sonhos, percepção, é um dos melhores caminhos para sabermos que somos iguais, que não estamos sós.
      E isso nos ajuda a esquecer os sonhos que não poderão ser realidade, e ver, na realidade, situações e coisas que podem ser tão boas quanto nossos melhores sonhos!

      Mais importante do que os fatos são mesmo os sentimentos que eles nos deixam…

      Obrigado!

  2. não é a toa que seus comentários no meu blog sempre são tão ricos
    vc realmente é um cara inteligentíssimo!
    caramba, tow relendo de novo.
    pela 3ª vez já.

  3. imprimi pra ler sempre. vai ficar na porta do guarda-roupa.

  4. Cesinha disse:

    Oi, tudo bem? Há algum tempo venho ensaiando comentar alguma coisa por aqui, mas sempre achava que o que já estava comentado era o suficiente. Hoje resolvi arriscar.

    Quanto aos seus longos textos, entendo, costumo ser também assim. Isso é uma qualidade de quem tem muito a dizer pra gente, e você tem demais.

    O meu único pitaco, se me permite, é uma distinção que costumo fazer entre amor e paixão. Embora a paixão seja o tal fogo que arde e consome e que nos faz tão bem, ele traz um componente desesperado e avassalador que me incomoda um pouco. Todas as vezes que me apaixonei acabei sofrendo infinitamente mais do que me senti feliz.

    Amor, eu ainda não conheci… mas acredito que seja como uma calmaria de final de tarde à beira mar, onde o que mais conta é a mansidão de dois seres que só tem a possibilidade de existirem estando absolutamente juntos. Eu, embora não tenha experimentado, prefiro isso.

    Abração

    • Cesinha, obrigado pela visita e pelo comentário, com o qual concordo plenamente.
      Meu texto fala apenas de paixões e sonhos. Ambos normalmente tão mais perturbadores quanto mais intensos e irrealizáveis.
      Sobre o amor e as sensações que o acompanham, acho que você está absolutamente certo.
      Quando você está com quem ama de verdade parece que sai deste mundo! Vai prum lugar onde não existe conflitos, brigas, preocupações, fomes, sedes, nada. Tudo pleno, tudo em paz!
      O amor chegará pra você também.
      Mas não deixe de viver as paixões, enquanto isso.
      Elas, de alguma forma, nos preparam para um grande amor!

  5. Autor disse:

    Nunca acho bons textos longos. É o que sinto aqui, quando vejo, acabou. 😦
    E isso é algo que me interessa tanto, esse motivo de algumas paixões queimarem tanto ao ponto de outras já serem cinzas faz tempos. Vamos ver se conhecendo sua história com Ivan podemos pensar nas nossas próprias.
    Você é um senhor gentil, viu!
    Beijos

Comentários

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