Por que você tem um blog?

Outro dia me perguntaram isso e eu não soube responder. Sei lá, disse eu, me deu vontade, queria ver se alguém lia, só isso. Mas fui pra casa e comecei a pensar sobre isso. Continuo pensando e ainda não encontrei resposta.

Tempos atrás, encontrei ao acaso, pelo Google, blogs muito interessantes que tratavam de armários, ser ou não ser, aceitar-se, enfim, essas dúvidas e medos que todos nós, pelo menos antigamente, tínhamos quando o assunto era a descoberta de uma sexualidade um pouco distinta da grande maioria. Ser gay, até há pouco tempo, era padecer num quarto escuro. Hoje, você abre o computador e se comunica, troca idéias, conhece os medos e dúvidas de outros como você. Descobre que não está sozinho, o que sempre acalma a alma. Sentir-se diferente, excluído, discriminado, e ainda por cima sozinho, garanto, não é nada gostoso! Se você nunca se sentiu assim na vida, ótimo! Parabéns! Você é uma raridade.

E a partir desses blogs (o primeiro que me inspirou nem existe mais, acho que seu dono não aguentou a luz aqui fora e voltou ao armário escuro, deletou o blog e sumiu do mapa) comecei a pensar que eu talvez também tivesse alguma coisa a dizer. Porque nem só escritores, doutores e especialistas têm coisas a dizer. Muitas vezes (aliás, quase sempre, na vida de pessoas comuns) a palavra que consola, que ergue, que anima, que pode mudar seu dia, será dita por outro ser comum, como eu, como você. Ok, um ser comum meio pretencioso, né?!, mas vá lá, nem por isso, incomum. Não porque pessoas comuns sejam diferentes, melhores que as incomuns, mas principalmente porque é a essas que nós temos acesso no dia-a-dia.

Escrevo pouco. Sou mais motivado a comentar os textos alheios, mais interessantes. Descobri, com o blog, que o muito que eu achava que teria a dizer era quase nada. Que escrever mais ou menos bem e de vez em quando era algo muito distante de escrever bem e despertar o interesse sempre. Depois que li o conto “Então você quer ser escritor”, de Miguel Sanches, e o livro O Cabotino, de Paulo Polzonoff, então, fiquei com vergonha até de ser blogueiro. Mas me recuperei. Falei a mim mesmo: peraí!, eles estão falando em ser escritor, de um tempo em que as pessoas só escreviam livros, um tempo em que gente comum como eu e [talvez] você não poderíamos pensar em escrever, e muito menos em publicar uma linha que fosse. E nós, blogueiros, queremos outra coisa. Participamos de um mundo em que a oportunidade de livre comunicação e troca de experiências entre pessoas comuns é bastante, e cada vez mais, democrática.

O principal que ganhei, foi descobrir pessoas que, não fosse pelos blogs que mantém, eu jamais encontraria. Conheci pessoas que de comuns só tem mesmo o anonimato, no sentido de não serem “famosos” (palavrinha chata). Confirmei algo de que sempre desconfiava: a verdadeira vida talvez eu descubra com aquela senhora que se esconde ali naquela casa velha, cercada de mato, naquela rua quase deserta. Hoje, a vida pulsa também pelas palavras de pessoas comuns, desconhecidas, mas muitíssimo especiais. Que eu jamais leria, conheceria, não fosse essa invenção. Algumas delas, alguns desses blogs, têm o link ali ao lado, aos quais eu homenageio neste texto. Gente que fez e que faz diferença na vida de muita gente comum como eu. E de outras nem tão comuns assim. (ah, como é bom ser comum!)

E você? Por que escreve e mantém um blog?

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6 respostas para Por que você tem um blog?

  1. Anônimo disse:

    Bom texto, belas palavras.

  2. Cesinha disse:

    Meu amigo, você só tem um problema: “Escrevo pouco. Sou mais motivado a comentar os textos alheios, mais interessantes”. Cara, você escreve que é uma maravilha! Tenho gosto quando alguém como você dá pra gente o privilégio de ver sua escrita.

    Respondendo a sua pergunta: sinceramente, não sei porque escrevo um blog. Sou muito “novo” nesse mundo, um pouco mais de um mês… talvez porque uma bela madrugada eu tenha me sentido só… talvez por não acreditar que eu fosse capaz… talvez pra estabelecer alguma conexão com pessoas interessantes como você. Devem ser muitos motivos, como na vida, onde nenhuma causa é linearmente determinante de nada, entende?

    Beijos.

    • Maravilhosa sua resposta, doutor!
      Você pode até não saber porque escreve. Nós, porém, sabemos porque lemos seus textos!
      Como disse no texto, o melhor de tudo é ter acesso a pessoas às quais eu jamais teria nenhum acesso, nenhuma chance de chegar perto. Como você!
      Valeu!
      Nada é tão linearmente determinante. Melhor assim, né! E, se for, melhor não sabermos. Ficaria tudo muito chato, controlado…

  3. Gay Incomum disse:

    Oi, Alex!
    Pois é, apesar dos hiatos, acho que não conseguiria viver mais sem um blog, sem conseguir expor o que penso, o que vivencio, sem compartilhar as experiências.
    Desde 2007 que tenho blog, o Diário é que é recente.
    E no meu caso são duas vezes a mesma pergunta.
    Por que resolvi criar o primeiro e por que resolvi criar o Diário.
    O primeiro foi motivado pelo blog de um amigo. Ele escrevia algumas crônicas do seu dia a dia e a maneira como fazia, me motivou a criar o primeiro.
    O Diário foi a necessidade de compartilhar as experiências gays que eu não tinha como fazer no outro.
    Enfim, gosto de escrever, sou melhor com o texto do que com as palavras.
    Acho que meu maior sonho já foi ser aqueles escritores que são pagos para criar romances e mais romances.
    Ah, os sonhos! =)

    Abração!

  4. d4rif6t disse:

    O “retrato…” não é o meu primeiro blogue. Nem o segundo!…

    Quando principiei, creio que o fiz talvez pela necessidade premente de falar de mim. O que verdadeiramente me intriga, é a circunstância de jamais ter pensado na possibilidade de as minhas palavras poderem ter interesse para quem quer que fosse. Digamos que escrevia apenas para consumo próprio.

    Procurava compreender a minha própria realidade, já que bem cedo me dei conta de que não é fácil manter um diálogo que não seja inócuo. Sem substância!… E, depois, não fazia muito sentido conversar com um espelho. Escrever sempre foi mais fácil, ainda que tenha a consciência de que não é possível evoluir sendo o meu próprio e único interlocutor.

    Até que o blogue deixou de ser suficiente!…

    O “retrato…” é, nem mais nem menos, o registo das conversas que, diariamente, vou tendo com minha mãe, sobre minha mãe!… Estão prestes a completar-se dois anos – apercebo-me de que o tempo é uma ilusão – desde que deixei de a ter fisicamente comigo. A verdade é que a nossa vida em comum não terminou, apesar de, agora, existir o vazio onde seria suposto estar a alma!…

    • A necessidade faz o homem, e o homem faz a sua obra. Sua vontade de compreender-se o levou à escrita, com o que nos foi possível conhecê-lo em suas belíssimas manifestações com nossa língua, sempre com forma e conteúdo impecáveis e agradabilíssimos.
      Imagino que esse hábito, da autoconversação transfigurada em sua escrita o tenha ajudado a enfrentar o vazio inevitável quando alguém que amamos deixa de estar conosco, fisicamente. Porque, em espírito, sabemos, estaremos sempre juntos.

      Grande abraço

Comentários

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