Endoscopia.

O dia amanheceu frio, cinzento, a cama convidava, mas Beto tinha um exame agendado. O estresse do doutorado, aquele interminável bulllying adulto do orientador e seus cúmplices e comparsas, a vida num cubículo, o pouco dinheiro, a solidão de anos, tudo tinha desaguado naquelas dores insistentes, intermináveis, agora indisfarçáveis dele mesmo, no estômago. Tão incômodas que se o exame indicasse uma mera gastrite já estaria no lucro. Mas certeza mesmo, só com uma endoscopia.
Beto pediu a João que o acompanhasse. A clínica não faria o exame se ele fosse sozinho. O motivo só soube depois. Saiu complemente grogue com o Dormonid que lhe injetaram na veia. Sensível a medicamentos, aquela dose não só tirou Beto de sua órbita sempre um tanto instável. Regredido à infância, quando saiu da pequena sala, dispensado pela enfermeira, ainda na recepção encontrou João, que abraçou, beijou, riu, ali. Na frente de todos, um menino.

João, com todos as preocupações e ocupações que o perturbavam, tinha uma pausa. Naquele momento lhe fora dada uma criança para cuidar. E dela cuidou. Caminharam calmamente até o carro, Beto encostado em João, João apoiando e quase arrastando Beto, numa manhã cinza, fria, aconchegante. Um instante que João desejou fosse eterno. Uma calmaria que não conhecia desde o colo da mãe, talvez, porque nunca chegou a saber se tivera ou não colo de alguém. Dois meninos caminhando, tiveram certeza, uma certeza que ainda não era consciente, de tão recente que era. Um mês juntos, mas algo dentro de ambos dizia, sentiam… aquilo seria pra toda vida. E foi.

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10 respostas para Endoscopia.

  1. gente, q estória mais bonitinha. pena q é ficção.

    • Foxx, o melhor de tudo é que nem só de ficção é feita a vida!
      E, Foxx, duas motivações me levaram a escrever, a contar, a história.
      Um repeteco de Beto num hospital — que João só pôde acompanhar e monitorar pelo celular — e
      a leitura daquele episódio lindo que eu pensei ter lido no seu blog, do assalto ao ônibus, aquela oração, o Pai Nosso, entremeada, na narrativa, dando uma noção de realidade perfeita. Inspiradora.
      Não me pergunte porquê. Talvez a forma como você escreveu me deu vontade de escrever também.
      Mas o conto, o que eu pensei ter lido no seu blog, parece ter sumido!
      Agora não sei se foi ficção ou realidade, ter lido e me inspirado num conto que não achei mais.
      Será que li mesmo? Beto, porém, se tornou cada vez mais real na vida de João.

  2. Cesinha disse:

    A estória é linda! Lírica, delicada. Pra mim ser ficção ou realidade não é o mais importante, mas sim a maneira como você escreve. Só alguem com a sua alma consegue escrever dessa forma! E sobre o dormonid… eu já vi cada reação! Interessante que as pessoas costumam acordar com jeito de criança mesmo.

    Abração, meu querido

    • Pois é, Cesinha… Você sabe melhor do que ninguém aqui, então, do que o Dormonid é capaz.
      Não faz milagres, não muda ninguém, mas libera o que, de outra forma, manteríamos talvez desconhecido de nós mesmos. A vida, afinal, não é um relaxante…
      Naquele dia, com a ajuda, a liberação promovida, supostamente, pelo Dormonid, Beto mostrou-se e João, mesmo acanhado, aceitou a onda que a vida havia lhe trazido. Onda que o mar não levou mais.

  3. Gay Incomum disse:

    Que lindo!!
    Já quis muitos Betos pra cuidar, mas nunca aconteceu.

    Abração!

  4. Lucas disse:

    Amigo, quem escreve bem é você! Nem vem… sou um mero arranhador de letras. Isso sim é beleza e concisão ao mesmo tempo. Ótima combinação, ótima mistura. Lindíssimo texto.

    Abração.

  5. Querido, parabéns pela história. O título não te traz boas recordações mas o desfecho até me fez querer fazer mais uma endoscopia. rs Quem sabe não encontro pra toda a vida tb, né?! Obrigado pela visita. Abraços

  6. Leia-se: “o título não ME traz…”

Comentários

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