Passeios

Uma história alheia…

Desde que o primeiro encontro, algo insistiu em permanecer entre eles: uma sombra no peito de ambos que parecia anunciar, de maneira muito sutil, mas também muito firme, que um dos dois partiria logo. Que aproveitassem, que vivessem, que amassem, que sentissem tudo que pudessem, e aprendessem a sentir e a viver o que não pudessem, pois seu tempo seria breve, ainda que eterno.
Talvez por não saberem o motivo – não havia nenhum motivo real –, talvez por preferirem aceitar a felicidade que a vida lhes trouxera sem explicações, foram vivendo, sem questionar, sentindo uma perda antecipada, anunciada, mas ganhando cada minuto que pudessem compartilhar. A tal sombra, longe de afastar, acabou aproximando os dois. Tão forte e decididamente que até a própria talvez tenha esquecido que os tivesse aproximado para logo separa-los, e deixar no outro aquele vazio a que ninguém se acostumava. Gostou tanto de ver a aproximação deles, foi deixando…
Mas, um dia, a profecia, nunca explicitada, se cumpriu. E foi Beto quem partiu antes, contrariando a ordem que seria natural. João chorou por dentro e aguentou firme. Às cinzas, não sabia dar destino. Beto não dissera o que queria fosse feito delas. Confiava que João saberia o que fazer. Mas não soube. Até que, um dia, sonhou com um passeio de muitos que haviam feito há muitos anos.
No dia seguinte, chegou ao trabalho e foi logo negociando uma semana de férias. Comprou uma passagem e no segundo dia desembarcou há dez mil quilômetros. Com as cinzas debaixo do braço, foi às praças preferidas onde, em suas andanças intermináveis, sem rumo pela cidade imensa, vez ou outra comiam seus sanduíches do Pret A Manger. Foi deixando um pouco em cada canto que lhes pertencia, anonimamente, sem cerimônia. E via, sentia, Beto ali junto dele, sorrindo. Depois foi até o Jardim Botânico, passando antes pelo calçadão à beira do rio, e foi sempre lançando um pouco do pó na paisagem que tanto admiravam juntos, pó que nada mais significava, mas era símbolo, e o ritual importava aos dois. O que sobrou delas depositou ao pé de uma das árvores que visitavam sempre que passavam por aquele canto do grande parque. Logo o vento levou o pouco que restava para o extenso gramado. Fim.
Voltou ao Hotel, mesmo quarto onde estiveram tantas vezes, mesmas estações até o aeroporto, avião… Mas nunca chegou em casa. De João, nunca haveria cinzas nem alguém que se preocupasse onde jogá-las. Foi dado como desaparecido, para sempre, no Atlântico.

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6 respostas para Passeios

  1. Cesinha disse:

    Eita, mas que história triste! É linda, poética, mas muito triste. Sabe, meu lindo, eu não consigo entender. Sou meio “lerdinho” (kkkkkk). Tenho sempre a sensação que é você quem escreve. Essa maneira de deixar as palavras fluirem, esse modo sempre um pouco contido de falar das emoções. Mas, se eu entendi, você diz que o texto não é seu! Bem, vou acreditar que é. Combina com você. Não a tristeza do texto, mas o texto em sí…

    Beijos

  2. eu gostei mto! mas não é de surpreender afinal é o Alex e ele é foda!

  3. Lucas disse:

    Adoro essa maneira ao mesmo tempo natural e lírica como você escreve. Tornar o triste em lírico é coisa de quem sabe o que escreve.

    Obrigado por suas palavras, sempre de muito afeto, para mim!

  4. Você, como sempre, bondoso!
    Obrigado!

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