Noites que me assustam!

Desabafo para minha releitura.

Sensação de desespero inexplicável. Volto aos treze/quatorze anos, quando, por duas vezes, acordei aos berros na madrugada, vivendo uma situação de pavor, tomado não por monstros — nem pra imaginá-los monstros isso minha imaginação jamais serviu –, mas por coisas que se transformavam em monstros. E, não, não tomava nenhum remédio ou usava nenhuma outra substância que pudesse tudo explicar. Hoje até teria explicações. Foi uma coisa nunca entendida, nem por mim, nem por ninguém, e felizmente nunca mais revivida. Acordava com vergonha do papelão vivido na madrugada, todos em silêncio, respeitando, fazendo de conta que nada tinha acontecido. E, bem ou mal, esquecemos todos.

Anos depois, sozinho num quarto de hotel, acordo com sufoco, falta de ar, desespero, mas agora sem visões, sem medos. Não era medo, era pavor, natural quando se tem a certeza de que a morte chegou, a sua morte, ali, o seu fim. Até agora, foi a única vez em que senti a morte próxima, me espreitando, bafejando minha nuca, assustando meus ouvidos. Já tive e tenho medo dela, sim, mas sempre como uma possibilidade ali na esquina, não aqui e agora. Num quartinho de hotel, a dez mil quilômetros da minha casa, senti que meu fim chegara, sem explicações, sem motivo, sem aviso, rindo da minha felicidade vivida naqueles dias, como se dissesse: se pensavas que poderias ser feliz, te enganastes mais uma vez, tolinho! Naqueles dias, estava lá solitário, mas quase feliz, e a idéia de morrer ali sozinho, no pátio interno do hotel, pra onde tive que descer às três da madruga… putz! Por alguns minutos, que pareceram a eternidade, implorei a todos os seres superiores e bondosos que, pelamordeDeus, permitissem que eu não morresse ali, abandonado no meu quase desespero diante do desconhecido. Que se era chegado o fim, que pelo menos eu pudesse voltar pra minha casa pra lá me acabar, perto da pessoa que eu amava, dos meus pais, me dessem pelo menos mais alguns dias… e aí sim, ok! Não morri. Ainda vivi o mesmo alerta alguns dias depois, mas voltei. Na cadeira, passageiro e não simples carga no porão. Penso que naquele dia vivi um aviso, um prenúncio, um prenúncio de outro susto pelo qual passaria semanas depois.

Ultimamente, tenho acordado nas madrugadas, sempre pontualmente após a quinta hora de sono, apavorado sem razão, coração disparado sem motivo, medo da escuridão da noite, medo do trabalho, medo do não-trabalho, medo de não ser gente, medo de ser um monstro, medo do inferno em vida, medo de tudo que não conheço, medo sem motivo algum, que minha vida, pra quem vê de fora, tá boa que só!

Mas, entre o que veem de fora e o que me vai dentro, há uma diferença de coloração que não sei explicar. Reluto em procurar um médico. Vai me entupir de remédios, quem sabe um antipânico, um antidepressivo, um sonífero… Esses remédios, você sabe como entra, mas pra sair depois… Outro dia conto…

Porque escrever tudo isso, meu caro? Se eu soubesse, não estaria escrevendo. Por falta de assunto, falta do que fazer, falta de ânimo pra fazer, pra ler, pra estudar, pra conversar, pra amar, pra viver, pra ser o que nem sei o que nunca fui, pra registrar meu momento de banalidade catártica, porque é indolor, porque não mata, por descarrego, pra ser eu mesmo, pra desnudar-me em praça pública e ser ridicularizado e ouvir o velho grito de escuta-seu-ninguém, pra me olhar no espelho e me lembrar do garoto apavorado, assustado, com medo de sair da cama a cada dia, mas que apesar de tudo, ainda não vai morrer, ou pensa que não vai, ou talvez já tenha morrido e não saiba! Porque não posso chorar, porque não choro mais desde os dezessete anos, porque minhas lágrimas foram gastas todas na infância, sem motivos, pela emoção fácil e fútil, tola e boba, findando o estoque que seria pra toda a vida, e porque ainda não redescobri a minha mina de lágrimas, pra chorar sozinho, baixinho. Porque, há tempos, aprendi a chorar a seco! Porque chorar, todos sempre choramos, choraremos. De alegria ou sei lá por quê! Hoje, quase aprendi a ser seco!

Mas chega, vou ali umedecer a alma e volto logo!

Até!

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7 respostas para Noites que me assustam!

  1. eu tive uma fase assim tb, mas na última noite eu acordei surpreendido com meu sonho. hehehe

  2. Cesinha disse:

    E você ainda pergunta por que escreveu tudo isso? Ontem você pediu para eu explicar melhor o que eu havia afirmado que eu gostava quando você escrevia de “uma certa maneira”… hoje você mesmo já respondeu! Meu amigo… sério: esse é um dos mais (se não o mais) lindos textos que eu já li por esse mundo blogosférico!

    Triste, angustiado, tudo bem… mas de uma profundidade! Eu tive que ler 3 vezes pra me deixar entrar e sair dessas suas vivências. Você não é, nem nunca foi, nem nunca será alguém “seco”! Você é uma das pessoas mais sensíveis, mais adoráveis… me perco nos adjetivos.

    Vou ousar dizer uma coisa, mas, não entre nessa de “remédios” anti isso, anti aquilo… anti vida! Se você quiser, podemos conversar, podemos trocar ideias. Sempre existem soluções menos prejudiciais. Querendo, me dê um toque e a gente conversa… tudo bem?

    Espero que esse texto tenha aliviado um pouco que seja as suas tristezas e temores!

    Beijo, no fundo do seu coração.

    • Cesinha,
      obrigado!
      Não vou entrar nessa, não. Já tomei, há anos, não quero mais. E não é tão grave assim.
      Com a maturidade, conseguimos superar.
      Encontrar você aqui é um presente! Você é um mensageiro do bem na blogosfera.
      Sinto-me orgulhoso em tê-lo aqui.
      Beijo, no fundo do seu coração.
      Um afago na sua alma!

  3. Lucas disse:

    Amigo… PQP… que texto magnífico! É emoção pura, escorrendo nas palavras! O último (grande… só podia ser grande) bloco, é uma enxurrada, uma avalanche. E me levou junto… quem já não se sentiu assim? A diferença é poder se expressar dessa forma que você fez. Objetivo, claro, limpo… e intrincado e amordaçante… nenhuma palavra que se pudesse inventar conseguiria aproximar-se o mínimo que fosse de tudo o que você nos transmitiu.

    Amei, de paixão!

  4. Margot disse:

    Alex…. ao ler suas descrições de sonhos ou pesadelos, foi como se me sentisse outra vez criança. Outro dia ate comentei no blog do lobo. As noites na minha infância, ate 12/13 anos foi recheada de pesadelos como os seus. As coisas em volta se transformavam em monstros…. coisas ínfimas, como uma caixa de fósforos. E pior, eu não acordava fácil, e se acordasse, não podia voltar a dormir. Era como se eu mergulhasse lentamente de volta ao pesadelo. Coisa horrorosa.
    Depois da adolescência, raras vezes voltei a tê-los, graças a Deus. Em adulta, nunca mais.
    Agora Alex, quanto ao medo… quem de nós não o tem? De uma coisa, de outra…o medo é constante e dizem ser necessário para que possamos ser temerários e não impulsivos. Escrever é importante. As vezes escrevo tanto….. que acho que ninguém lê…. abobrinhas… abobrinhas. Mas elas me aliviam e fazem com que eu me sinta um tanto quanto melhor.
    Você escreve com uma delicadeza e clareza impressionantes. Cada post que leio, gosto mais. Fique bem Alex….
    abraços.

    • Olha, Margot,
      do jeito que escrevi ontem, acho que dei a impressão de que é um estado permantente, depressivo.
      De fato, ele era presente naquele momento. Eu só consigo escrever sob o calor e a verdade do que estou sentindo. E isso tem me acompanhado, é tudo verdade, mas também é verdade que isso não tem me impedido de continuar respirando, navegando…
      E, sem dúvida, escrever, principalmente depois dos conselhos que recebi nos últimos dias, tem me ajudado muito.
      Beijo e bom fim de semana.

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