A revolta improdutiva que habita em mim

Carta ao amigo A., de 1ºde maio último.

//

Caro A.,

Ontem estava assistindo a uma entrevista na Cultura. A fala do entrevistado me calou fundo. Escancarou em mim algo que sempre soube, mas nunca quis contar nem pra mim mesmo.

Guardo em mim uma revolta insanável. Sentimento que me afasta das melhores pessoas, que me afasta das piores pessoas, que me afasta das pessoas que me querem, das pessoas que não me querem, das pessoas que nunca me quiseram.

Em algum ponto do passado, talvez ancestral, talvez em outra vida, talvez num ponto do universo onde se formaram esses átomos que hoje compõe meu corpo, em algum ponto que não sei onde, que sei lá, faltou alguma coisa que não sei o que é. E esse ponto faltante atua como se me impedisse de sentir o amor das pessoas. Nunca senti o amor das pessoas. Sério mesmo! Absurdo isso, né! Sou um cara nervosinho, mas aparentemente pacato, manso, cão-que-ladra-apenas. Nunca me senti amado, não me sinto amado, não me sinto querido, mesmo sabendo que isso não é verdade. Não admito ser querido ou amado, não posso admitir que o tenha sido sempre por alguém. Mesmo sabendo que as coisas não são assim. Não são, mas as sinto assim. Sinto o mundo assim.

Sabe, A., acho que uso isso como desculpa para o meu fracasso, o meu insucesso como ser humano, como ser pensante, como ser generoso que nunca fui, como homem, como amante, como amado desalmado, como alma desamada. Sem sentir o amor das pessoas, toda a revolta que brota em mim encontra terreno fértil. Talvez seja a desculpa para dar uma cara de coisa compreensível a algo absolutamente injustificável que insisto em deixar habitando em mim. Pra quê? Até quando, A.?, vou deixar aqui dentro essa revolta sem causa?, essa rebeldia sem conteúdo?, esse desgosto sem rumo, essa desmotivação que finge acalmar minha tristeza? Revolta que, se não me destruiu (será?), que me afastou dos melhores momentos que minha alma talvez quisesse, talvez pudesse, viver.

Sei que não estou só nesse sentimento. E, no entanto, muita gente assim foi adiante, transformou o não amor em amor. Eu? Consegui, aos poucos, com muito custo, sentir amor pelos outros, por bem poucos outros, verdade. Mas a revolta destruidora aqui está. Sem rumo, sem destino, sem causa. Até quando?

Não tenho respostas. Não sei se terei tempo para encontrá-las.

Não, A. Não vou desistir, ainda. Talvez meu processo de desistência seja a longo prazo. Não vai acontecer assim, de sopetão. Vai aos poucos, ao longo da vida.

E só tive coragem pra te escrever esta carta, me abrir um pouquinho, porque sei que você jamais a lerá.Porque jamais a enviarei, meu caro A.

Sim: caro, querido, amigo. Gosto de você, A. Mas você jamais gostará de mim. E mesmo que goste, mesmo que tenha gostado, eu nunca fui capaz de sentir. E por isso talvez o tenha perdido, ou deixado de conquistar um amor possível.

Tanto desamor… Bastava o seu próprio, não é mesmo?

Mas, olha… Você pode não acreditar, mas sou capaz de te amar. Um pouquinho que seja, mas sou.

Ouço declarações, mas meu coração não ouve. A pior surdez que há!

Um abraço afetuoso, A.

//

Anúncios
Esse post foi publicado em Biografia, Desabafo. Bookmark o link permanente.

6 respostas para A revolta improdutiva que habita em mim

  1. M. disse:

    Sem a revolta mas com a desistência…… essa pessoa sou eu.
    Beijos…. leitor de almas.

    • M.,
      Mas é preciso insistir, até o fim, pensar que jamais desistiremos, mesmo que, inconscientemente, já tenhamos desistido há muito, ou desde sempre.
      Lutemos! É preciso reagir!
      Devagar, que seja, mas reagir!
      Beijos, M.

  2. nossa, eu podia facilmente assinar esse texto
    me descreveu de um jeito q nem eu conseguiria
    obrigado pela experiência extra-corporea
    pq super pareceu q eu estava me vendo de fora do meu corpo.

  3. Somos todos muito parecidos em muitas coisas. Uns mais, outros menos. Uns disfarçam ou escondem melhor, outros nem tanto.
    Isso que dizer que eu não acredite no amor e na felicidade?
    Absolutamente.

  4. Cesinha disse:

    Fatalismo? Será que existe algo de determinista nesse seu texto? Sempre penso que vivemos justamente pelas instabilidades. Do ponto de vista fisiológico, nosso organismo vive em constante reação às instabilidades, numa busca incessante pela ordem, jamais alcançada. Acredito que em nossa alma se dá o mesmo. São as instabilidades que nos fazem pensar. Isso assusta?

    Que revolta destruidora mora aí no seu peito? E por que não só destruidora, mas também a que consegue superar todos os momentos instáveis? M diz: “Sem a revolta, mas com a desistência…” Eu diria: Com a revolta que nos faz jamais desistir…

    Beijão, meu amigo.

    • É preciso, eu preciso, urgentemente, aprender a usar essa força em meu benefício.
      Mudar, avançar. Ao invés de deixar destruir, usá-la para, como vc bem diz, superar os momentos instáveis.

      Não. Não creio na fatalidade. Tudo é transformação.

      Beijão

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s