E agora, tio? – III

Como, apesar da censura de um amigo e da minha própria autocrítica, finalmente nos encontramos. Nada demais. Nada de menos.

Dias se passaram sem novo contato. Pra mim, ou isso ocorreria livre e naturalmente, ou não aconteceria nada. Já me questionara muito se aquela história meio sem começo tinha algum sentido. Até ali, admito, só havia mesmo alimentado um pouco meu ego. Depois dos comentários de um amigo, reticente quanto a relações com alguma diferença de idade, um pouco de água esfriara em mim o que já ia morno. Eu, passando dos quarenta e uns, procurando aventuras? Não! As aventuras é que estavam me procurando. Não tinha mais disposição ou vontade de ir até elas, que sempre se esconderam um pouco ao notarem minha aproximação.

Um sábado, estava na Internet e esqueci o msn aberto. Pela primeira vez, Rodrigo entra e me chama para teclar. Depois dos olá-como-vai-tudo-bem-o-que-tá-fazendo, ele me diz: “Estou aqui com a Ana, na casa dela. Ela quer te ver”. Fiquei meio intrigado, relutei um pouco, mas pensei com os meus botões, ah, até quando vou ficar nessa enrolação? Nem respondi. Abri. Do outro lado, o casal, sentado, cara de gente alegre. Teriam bebido?

“Não, não bebemos nadinha. Saímos pra lanchar e viemos praqui, pra casa da Ana, ela tá sozinha esse fim de semana”. Papo vai, papo vem, noto que estamos todos naquela enrolação típica de quem espera e quer ir além, mas não tem coragem de propor. Eu avanço: “tá calor aqui”, tiro a camisa. Ana, do outro lado, sorri, e diz: “quero ver tudo”. “Assim, não!” Rodrigo, sempre ele, se adianta, joga a roupa longe e, sem falar nada, fica à frente da cam, mostra-se. Em alguns segundos, estávamos os três adultos parecendo adolescentes numa descoberta de algo que nunca tinham visto. Pra mim, daquele jeito, com aquela composição, era mesmo novidade. Meu coração quase saía pela boca. Acabei convidado a ir me juntar a eles. Eu decido que está na hora de arriscar e acabar com aquilo de uma vez. Pego o endereço e saio. Quase meia-noite, me vejo pelas ruas em direção a uma casa desconhecida. Um friozinho corre pela barriga.

Cheguei à casa dela, eles me recebem amigavelmente, compostos, na sala. Tomamos um vinho e a surpresa vem de onde eu menos poderia esperar. Rodrigo se levanta, me beija suavemente, e diz que precisa ir tomar um banho. Ana vai até a cozinha. Silêncio. A demora de Ana é a senha pra eu levantar e ir em direção ao barulho do chuveiro, que não vem de longe, no mesmo andar. Encontro, claro, as portas abertas. Chego na entrada, ele está de costas, se vira, sorri. No silêncio, troca de olhares, ele acaba tendo que tentar esconder uma ereção inescondível, que, me parece, ele preferia evitar naquele momento. Constrangido, acaba se enrolando na toalha.

Volto à sala. Aguardo, observo, desejo. Ele chega, toalha quase caindo, calmo. Definitivamente, não é nem um pouco inocente… Afasta minha mão boba e, agora, sou eu quem não consegue esconder a excitação. Fica em pé, finge terminar de se enxugar e rapidamente esconde tudo novamente, numa cena que parecia ensaiada, para que eu o observasse. Vamos até a cozinha. Entramos, ela ainda finge arrumar algo na pia. Ele chega por trás, abraça-a, encosta-se em suas pernas. Ela se vira, se beijam, ele me puxa, e selamos um beijo. Agora parece uma decisão de todos. Não dá mais pra esperar.

Ela nos toma pelas mãos e seguimos a um dos quartos da casa, ao lado da sala. Percebo que deve ser uma suíte reservada a hóspedes. Tudo muito certinho, arrumadinho, quase um quarto de hotel. Rodrigo tira a toalha. Sorri, maliciosamente pra nós dois. Jeito de moleque, dependura a toalha. Ana me beija, e vamos nos desnudando. Já havia me esquecido de mãos tão macias… Ela parece entender meu corpo mais do que seu olhar falsamente inocente pretende mostrar. Delicadamente vai provocando arrepios mudos, incontidos. “Agora você, digo”. Ela se afasta, se exibe, tudo ali é certo, suave, ousado. Poucas vezes tinha me deparado com um corpo assim tão belo, tão perfeito. Confundo tudo. Já não sei se a excitação vem da visão de Ana, dos dois ou da situação. Acho que de tudo!

Ficamos naquelas brincadeiras um tempo que me pareceu curto. Tudo muito gostoso, três crianças sem palavras, sem pedidos, sem muitas ousadias que pudessem ter um não como resposta. Cada um de nós alternadamente centraliza a atenção e as carícias dos outros dois. Entre mim e Rodrigo há mais cautela que ousadia, acordo tácito de não ir além de um roteiro bem comportado, convencional de dois homens na companhia de uma mulher. Ela, sem saber, dirige a ação, experimenta o que quer, de ambos, desinibida. Esgotada, após conclusões contidas e silenciosas, encerra a peça num uivo rouco, com Rodrigo no papel principal e eu, coadjuvante, mais voyeur do que participante. Beijamo-nos. Deixo sua boca macia e termino sentindo outros lábios, firmes …

Eu e Rodrigo ainda queremos mais, mas intuitivamente parecemos já haver decidido que ainda não é hora, que não haverá, pelo menos não hoje, o show a que Ana insinuava querer assistir desde o início. Algo em nós nos diz que sim, sem problemas, mas primeiro devemos nos conhecer, sem um terceiro olhar, para que cada um possa se posicionar com maior liberdade. Também não dá pra segurar a vontade. Ousamos avançar um pouco, numa espécie de prêmio por termos chegado até ali incólumes, quase virgens um do outro. Ajoelhados na cama, prolongamos nosso beijo. Por alguns minutos, só nossos. Chegamos juntos ao final, mãos sentindo o calor que sai do outro, se tocam. O beijo não termina, nos abraçamos firmemente. Nossas mãos acariciando a nuca, o peito… Nos afastamos. Instantes que nos pareceram uma eternidade com vontade de estarmos sós. Ela sorri, e simula um aplauso inaudível. Nos sentimos, eu e ele, meio ridículos. Nos olhamos, cúmplices, sem palavras, certos de que não foi nosso último encontro. Ele não precisa, nem eu, dizer que o novo script prevê só dois atores no palco, sem platéia. Assim, nossos leões ficariam menos contidos… Será preciso deixá-los livres um dia.

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4 respostas para E agora, tio? – III

  1. Junior disse:

    Waw, estou bege e admirado.
    Que encontro marcante [em todos os sentidos]. Que narrativa sublime!
    A sua experiência foi muito sedutora, sem dúvida, mas a leitura que fiz, espetacular.
    Eu, de cá, consegui ver tudinho como que estivesse presente em forma de um inseto sobrevoando o teto. Sem perder um ângulo sequer desse trio arrojado.
    Abraços.

  2. FOXX disse:

    gente
    onde essa estória vai chegar, hein?
    e essa escultura de prosérpina, hein? é incrível como Bernini consegue passar a textura da carne dela através da pedra. um dos meus escultores barrocos favoritos.

Comentários

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