E agora, tio? – II

A água brota, você deseja, mas, diante do pote, não demonstra toda a sede que sabe …

Duas semanas se passam desde aquele esbarrão suficiente apenas para uma quase tímida declaração de intenções, letra registrada num bilhete acanhado mas capaz despertar desejos inconfessáveis e ainda não aceitos. Não liguei, ainda, mas tampouco tentei esquecer. A forma como tudo aconteceu, a sutileza e o inesperado da situação me sugeriam que algo ainda poderia vir. A razão afastava qualquer expectativa, mas razão nenhuma é capaz de afastar desejos. Esses continuavam me acompanhando, vagos, indefinidos.

Numa sexta-feira, já noite alta, ainda fingindo negar em mim a vontade, pensei um pouco e decidi: nada tenho a perder! Mando uma mensagem: “Olá, tá lembrado de mim? Lá no Outback… Queria conversar … Pode ser?” Esperei algumas horas, mas não fiquei sem resposta. “Nunca esqueço pessoas simpáticas e educadas. Conversar com uma dessas será sempre um prazer. Você marca. Abç. Rodrigo.”

A demora poderia indicar cautela, indiferença é que não era, permitiu imaginar que estaríamos os dois naquele jogo do quero-mas-não-declaro. Pra ele, me parecia ser um pouco mais complicado tomar qualquer iniciativa. Mais jovem e, inclusive pelas circunstâncias, sabe-se lá carregando quantos medos e preconceitos… Pra mim, até por não ser ação costumeira, toda cautela era recomendável. Primeiro, por respeito mesmo. Depois, pra não criar expectativas inúteis, sofrimento tolo que sempre vem com decepção do que não deveria ser esperado nem desejado. Em terceiro, porque, embora fosse claro que havia um interesse no ar, nunca se sabe o que nos espera numa situação dessas. Pode ser a ante-sala do inferno ou do paraíso. Não que eu pense que um jovem não pudesse se interessar por um cara mais velho. Longe disso! É que a vida já me ensinou que tudo que me vem muito fácil pode esconder complicações sempre desnecessárias, evitáveis. Aprendemos a medir sempre a relação custo/benefício. Ficamos cautelosos, esse nome com que tentamos dourar o medo. Resolvi relaxar e dar asas ao acaso.

No dia seguinte, ele me liga ao final da tarde.

— Oi, como vai? E aí? Podemos conversar?

— Claro. Pessoalmente?

Marcamos pro início da noite. Chego antes. Rodrigo já me pega no segundo copo. Chegou tímido, bem diferente de quando o vi pela primeira vez. Naquele dia, estava na companhia da namorada – até então, supunha que fosse mesmo –, sentindo-se certamente mais protegido de um ataque direto de minha parte, permitindo-se trocar olhares quase confessos, e finalmente um encontro e um bilhete. Estava, hoje, bem mais reservado. Mas algo me dizia que ainda mais decidido.

— Saí da academia e passei em casa. Por isso demorei um pouco…

Sem perguntas, mantendo apenas olhares cúmplices, alguns sorrisos acanhados, entremeados por breves comentários sobre a tarde seca, o atraso das chuvas, os ipês floridos, ambos travados. Com medo de dizer qualquer coisa mais contundente, direta, objetiva, como dois colegas de trabalho. Na verdade, ali estavam dois animais indefesos fingindo-se caçadores perspicazes. Resolvo ir adiante:

— Pra quem escreveu aquele bilhete, você parece tímido… Coloco o guardanapo sobre a mesa. Ele sorri.

— O bilhete… você guardou! Desculpa… eu sou assim. Naquele dia, nem sei como tive coragem…

— Seja lá o que for que estiver passando pela sua cabeça, tudo tem sempre uma primeira vez, não é mesmo? Nada te compromete. Fica tranqüilo. Não vai acontecer nada. Tomamos a cerveja e vamos embora…

Ele sorri.

— E o que você acha que está passando pela minha cabeça?

— Seria um risco fazer qualquer suposição, mas já não somos mais crianças… então…

— É! Mas em alguns assuntos eu ainda sou meio criança … É uma situação completamente nova pra mim.

— Hummmm. Então, vou sugerir que você conduza a conversa, pergunte, fale…

Silêncio. Vejo que ele, se pudesse, trocaria a situação face a face pelo contato virtual. Seria muito mais fácil. Mas agora já não era mais possível recuar. Tanto ele quanto eu sabíamos que não havia mais espaço para que pudéssemos fazer de conta que estávamos ali apenas para tomar uma cerveja.

— Rodrigo, eu entendo, ou posso imaginar. Não sei o que pretende, nem sei direito porque estamos aqui. Pra facilitar, diante de nossa aparente assimetria, você bem mais jovem e eu aparentemente, só aparentemente viu?, mais seguro, vamos combinar umas coisas desde já… Ninguém fala o que não quiser, ninguém responde o que não quiser. Vamos definir só uma coisa: respeito. Só isso.

Silêncio, alguns goles mais, muitos olhares depois, ele suspira.

— Eu sei, cara! Quer dizer, não sei bem, mas sei que quero alguma coisa, estranha ainda, mas forte, muito forte.

Silêncio, mais alguns segundos que parecem uma eternidade. Eu fico aguardando.

— Aliás, o que a gente quer: não sou só eu que quero…

— Claro! Eu também quero! Mas, ao contrário de você, acho que estou mais perto da resposta…

— Eu não queria dizer você. Minha amiga também quer! Aquela! Que você viu comigo.

— Ué, não é sua namorada?

— Ah, todo mundo pensa, mas achamos que não conseguiríamos manter um namoro. Ela viajou um tempo, nos afastamos. Hoje a gente se encontra, se fala, se dá bem, mas nenhum dos dois quer definir a relação. Ficamos, entende? Todos pensam que somos namorados, mas não …

— E não tem ciúmes um do outro, suponho…

— Não, até hoje, pelo menos, não rolou, não. Ou escondemos bem…

— Olha, tenho uma certa dificuldade para entender esse jeito de vocês. Quando eu tinha sua idade, e não faz tanto tempo assim, as coisas eram mais claras, mais definidas, ou era ou não era. Tudo era muito limitado, menos livres. A gente sempre acha que as gerações que vêm depois da gente são mais livres…

— Também não é assim como você pode pensar…

— Eu não estou pensando nada. Só estou ouvindo…

Terminamos a cerveja. Comento que estou atrasado e tenho que ir.

Ele termina o copo, estende a mão, sorri, se levanta.

— Posso te ligar amanhã?

— Sempre que quiser. Se eu estiver ocupado, eu retorno, ok?

— Então tá. Valeu! Te ligo.

Saímos juntos até o estacionamento. Nos despedimos. O mistério, pra mim, continua. Não mais se ele quer, mas como quer. E se vamos ultrapassar a barreira que, até aqui, me parece, ele ainda não dissipou totalmente. Começo a pensar onde estou me metendo… Mas indecisão não existe mais. Fugir é ideia riscada.

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Uma resposta para E agora, tio? – II

  1. Junior disse:

    Olá, Alex! Saudades de seus textos. Li ou reli o post? Um encontro novo? Já começo a achar que vai rolar algo mais do que aventura.
    Abraços.
    Junior.

Comentários

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