E agora, tio – IV

Há dias Rodrigo não dava notícias, mas isso não me preocupava. Eu é que estava em falta. Silêncio deliberado. Não nos falávamos desde antes do Natal, quando ele se despediu. Estaria fora até o ano-novo. Intimamente, torcia para que não me chamasse mais. Que me esquecesse! Que deletasse meu número, meu msn, como tantos antes dele, como muitas vezes eu mesmo já havia feito, sempre que uma faísca intrusa começava a provocar aquela coceira que tanto pode virar gozo permanente como ferida mal curada. Fugia de mim. Tentava negar a facada que recebera, mas aquela coisa estranha, mista de dor e prazer, gozo e tristeza, já se instalara no peito, no estômago. Amolecia as pernas, derretia tudo, congelando o fígado, dando fisgadas na espinha. E pior: inevitável, sem pedir licença, sem dizer quando iria embora. Sentimento, paixão. É disso que já se tratava. Não podia nem dizer que tivesse sido sem aviso prévio. Com tantos anos de caminhada, com infância já esquecida, não tinha nem mesmo como alegar inocência. Enganar a quem? Sabia desde sempre o que me esperava, para o bem ou para o mal. Os fatos que nos aguardam, é verdade, a gente nunca sabe, mas os bons sentimentos que alguém nos causa são quase instantâneos. A gente pressente, quer evitar, mas quando vê já está atolado até o pescoço, sentindo o cheiro do barro que, quanto mais doce, mais nos sufoca. Você sente, pressente, antevê. Mas não foge. E nem poderia. Então, tolice tentar evitar. Desde o primeiro olhar a gente sabe se vai nos acompanhar um bom tempo pela estrada. Como e por quanto tempo é que são elas! Real ou platonicamente, a sorte nos diz aos poucos… É sempre impossível descobrir. Só a própria caminhada irá nos dizendo. Na maioria das vezes, não vai além de uma lembrança rápida, que desaparece com a primeira madrugada. Outras, serão de sentimento prolongado. Estas, trazidas por anjos ou demônios, são como pneu estourado numa estrada esburacada e deserta. Temos que parar, esperar o socorro. Mais uma vez, já estava no meio de uma dessas. Brincara com fogo. Agora, só me restaria fechar os olhos e viver. Nadava pra não me afogar. No meio do rio, teria que ir até à outra margem. Contra ou a favor da correnteza, isso não saberia tão cedo. O silêncio, nosso silêncio, por enquanto, ajudava a colocar as idéias no lugar. Ou, a embaralhar todos os sentimentos cada vez mais.

Bloqueei todos os contatos por onde pudesse ouvir Rodrigo. Deixei disponível apenas o e-mail. E foi por aí que ele novamente me atacou. Um ataque astuto. Mostrou-se mais prostrado do que eu estava. Ele sabia que isso queimaria meu falso distanciamento. O garoto não estava pra brincadeira! No primeiro sábado do ano, me mandou uma mensagem curta, definitiva. Pegar ou largar. “Sumido. Sei que está me evitando. Se não quiser mais me ver, é só dizer. Nem pense em fugir. Isso seria a última coisa que esperaria de você. Diga não e desapareço. Diga sim, e vamos nos ver. Não agüento mais. Não queria, cara, mas não consigo mais fugir. Quero te ver. O quanto antes.”

Ah… Minha resposta foi dez minutos depois. “Quando e onde?”

Um minuto depois: “Na minha casa. Estou só aqui hoje. Venha lá pelas quatro. Endereço tal. Era meio-dia. Teria tempo de almoçar e me preparar. Mas a ansiedade foi tanta que nem comer direito eu consegui. Tomei um banho demorado, fiquei esperando, olhei não sei quantas vezes o relógio, ansioso.

Vinte minutos antes dsa quatro, peguei o carro e fui. Primeira semana do ano, cidade deserta, todos na praia, no Rio, sei lá onde. Paisagem ideal para viver um segredo. Segredo? Até o céu azul com cara de meio-dia já anunciava que não havia mais nenhum segredo. Cheguei à casa de Rodrigo. Primeira surpresa. Embora o endereço já indicasse, não imaginava o que me esperava: uma casa imponente. Algo que me intimidou um pouco. Dei meia-volta, passei novamente com o carro em frente, conferi o número, o conjunto, a quadra. Era ali mesmo. Estacionei em frente à guarita, onde um vigilante, jovem e atento, me recebeu com uma cortezia um tanto efusiva. Achei estranho. Confirmei o endereço. Ele nem esperou. “Seu Rodrigo está esperando o senhor. Pode entrar.” Nem achei estranho ele sublinhar o “senhor”. Percebi algo de malícia no tom com que falou. Empregados que trabaham em casa costumam saber mais sobre seus empregadores do que estes gostariam… Pra bom entendedor… Nem me deu tempo de perguntar ou confirmar mais nada. Quando vi, já tinha fechado o portão às minhas costas e eu me vi preso numa casa desconhecida, no meio de um jardim que mais parecia uma floresta. Pelo interfone, o rapaz falava com alguém dentro da casa. Antes que eu me situasse, Rodrigo apareceu vindo de uma das laterais do jardim. Sorrindo, nos cumprimentamos discretamente. Acenou ao vigia, como se confirmasse que estava tudo em ordem.

“Não fiz perguntas. Ele não falou nada. Apenas nos olhávamos, sorrindo, doido pra agarra-lo e não mais largar, sentir seu cheiro, seu corpo durinho. Finalmente sós. Estava mais bonito que antes. Sentamos na varanda, receosos de quebrar um gelo que não existia mais entre a gente. Cautela, vontade de saborear e sentir o momento, o cheiro do outro. Ficamos assim, olhos nos olhos, sorrisos, dois adolescentes tímidos. Até que ele se levantou. “Toma um suco, uma água?”. “Água”. Voltou, me serviu. Ficamos mais meia hora assim, olhares, sorrisos, perguntas sem sentido, respostas evasivas. Ele finalmente fala: “senti saudadesm não devia dizer, mas senti!”. “Eu também”. Não nos seguramos mais. Ele vem, e nos beijamos, num beijo profundo que me pareceu durar a eternidade. Nos desgrudamos depois de alguns minutos. “Tá muito quente. Vamos entrar na piscina?”. Eu digo que não trouxe roupa de banho. Ele sorri, já quase nu, pergunta: “Roupa pra quê?” Ri, gostoso. “Cara, estamos só nós dois aqui! Ninguém vai chegar, não! Relaxa!” Pulou.

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4 respostas para E agora, tio – IV

  1. Junnior disse:

    Ah, fala sério que acabou a postagem bem na melhor parte (não desmerecendo nada do que li antes). Alex, vc demora tanto pra escrever que quase tive que reler as postagens antigas para relembrar os detalhes, mas não foi necessário. Fui lembrando aos poucos.
    Esperarei o desfecho deste encontro que promete.
    Olha, mudando o assunto, tem novidades lá no IG: uma entrevista que foi feita comigo e adoraria saber a sua opinião. Você é uma das pessoas que me deram muita força, então o seu depoimento é importante, ok?
    Beijos. Viva a sua paixão real com fervor, mas não esqueça os amigos virtuais, ok?

    • Junnior,

      li e gostei da entrevista no Abapha, que marcou ponto positivo! A atenção que seu Identidade G merece e recebe dispensa qualquer comentário. Fala por si.
      Parabéns pelo trabalho.

      Sobre o texto. De fato, tenho estado ausente. Não tenho a mesma habilidade pra lidar com algumas agressões que recebi pela divulgação de alguns textos, e isso, confesso, me reprimiu durante um tempo. Além do que, com tanta coisa boa pra ler, escrever vai ficando pra depois. Preciso dar uma repaginada, uma reorganizada nos textos.

      Valeu!

      Abração.

      • Junnior disse:

        Alex, se você imaginasse a quantidade de comentários agressivos que recebo quase diariamente de anônimos vc não pensaria dessa forma. Os que não levam pro lado pessoal e não são tão baixos eu publico, mas 90% deles não são e já nem ligo mais. Basta eu ler as duas primeiras palavras pra exclui-los. Você não devia parar. O seu blog já teria alcançado um número gigante de leitores.
        Enfim, escrevendo ou não, sempre passarei por aqui pra conferir o que vc tem a dizer porq aprendo e o conheço mais.
        Obrigaduuuu de verdade pelo seu depoimento lá no IG e no Abapha. Como sempre, foi de uma gentileza e bondade ímpares. Vc faz parte da história do blog/site (eu considero um blog pq a ‘vibe’ continua sendo) e acredite: muitas vezes a motivação para continuar se deu por causa dos seus comentários.
        Beijos e adoro você.

        • Junnior,
          obrigado pelo apoio, pelo incentivo.
          Vou continuar a escrever. Os leitores, serão sempre poucos, não importa muito.
          Conquistei dois ou três, e você sempre foi o mais fiel e incentivador.

          P.S. Meu comentário sobre sua entrevista [sobre seu blog] é o óbvio, mas sincero, e não tem nada de generosidade. É verdadeiro, apenas. Acho que muitos [quase todos os comentaristas lá] compartilham da mesma opinião.

          Te admiro muito!
          Abraço

Comentários

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