E agora, tio? – V

A água parecia fria, mas ele não se cansava de entrar, sair, pular, balançando as únicas partes que não eram duras no corpo monumental. Balançavam, não tremiam. Aos meus olhos, pelo menos, nada tremia. O que é longo, quando mole, balança, não treme. Moço convencido do corpo bonito que sabe ter, fazia da exibição parte da cena, numa conquista que ele, numa falsa insegurança, fingia necessária. Um delicioso teatro. Calmamente, nos víamos, tentando um advinhar o que ia na cabeça do outro — como se fosse necessário, agora, sozinhos pela primeira vez, livres de outros olhares, inclusive dos nossos próprios, tão reprimidos por dúvidas e receios que acompanharam o primeiro encontro na presença de Ana. Belisquei meu braço algumas vezes. Não, não estava sonhando. Estávamos livres. Sua nudez liberta, destemida, anunciava ao mundo que se sentia um conquistador em seus domínios. Eu, ao contrário, me sentia intruso em um território em que jamais havia pisado. Olhava o quadro, esperando o momento de subir ao palco. Cansei da dúvida. Calmamente, fui tirando a roupa, esperando, idiotamente, que minha excitação cedesse. Não queria parecer assim tão assanhado, tiozão tarado. Joguei peça a peça sobre a mesa. Ereto quase buscando alcançar meu próprio umbigo, parecia explodir em brasa. Arranquei a última peça, mas nem o vento fresco atenuava nada. Num momento em que ele ficou de costas pra mim, entrei rapidamente na água.

Fingimos naturalidade por alguns minutos. Era a primeira vez que entrava pelado numa piscina, pelo menos na companhia de outro homem. Cada um num canto, trocamos palavras meio sem sentido, buscando afastar medos, dúvidas e exageros que pudessem nos acompanhar e nos invadir. A novidade da experiência estava na nossa cara. Mergulhei e pude ver que agora ele também estava animado. Nadei por baixo d´água até chegar a ele. Acariciei o quanto pude seu corpo. Ele pediu arrego antes que minha falta de ar botasse um fim à brincadeira. Puxou-me pra fora. Fui arrastado à varanda, e rapidamente ao quarto dele, deixando rastros molhados ao longo da casa, escadas, denunciando o óbvio destino. Na cama, os corpos nem chegaram a ficar secos. Nosso suor nos inundou antes que a água se fosse completamente, absorvida pela colcha e pelos lençóis, tudo numa maçaroca só. Não sei quantos minutos durou aquilo. Tudo entre nós parecia eterno, infinito. Não havia antes, não haveria depois. Viajamos, os dois, calmamente enlouquecidos um pelo outro. Quando finalmente consegui que ele se deitasse, braços sob a cabeça, consentindo em apenas receber meus toques malucos, calmamente, com mãos, lábios e língua, beijei seus pés, subi pelas pernas masculinas mais lindas que já havia tocado. Antes de chegar ao centro, à primeira linguada na virilha, ele explodiu, descontroladamente, num silêncio interrompido. Molhamo-nos. Ameaçou um pedido de desculpas, tão protocolar nessas horas. Coloquei meu indicador em seus lábios, levemente, impedindo que continuasse. Abracei-o com minhas pernas e, sentado em sua barriga, sentindo ainda o resultado final, algo escorrendo calmamente pelas coxas, me inclinei, nos beijamos. Não durou muito. Sem que tocasse ou fosse tocado, também explodi. Deitados, grudados, escorregadios, ambos. Loucura.

Deitados um ao lado do outro, silêncio absoluto, maõs entrelaçadas, meladas, felizes. Alguns, muitos minutos, corpos largados, o cheiro de porra e suor invadindo o ar, numa mistura deliciosa a um restinho dos perfumes que ainda exalavam de nossos corpos. Quando saímos do transe, vimos pela janela que a noite começava. Oito horas. Indicou-me o banheiro, trouxe-me uma toalha macia, e ficou observando. Terminei o banho e, enquanto me enxugava, foi minha vez de olhar. Eu estava, definitivamente, perdido por aquele moço. Mas não tinha mais medo.

Descemos. Disse-lhe que precisava ir, mas querendo mesmo é que ele me convidasse a ficar, a entrar em sua vida e nunca mais sair.

— Você primeiro lancha comigo!

Esperei que preparasse o lanche, fui ficando…

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4 respostas para E agora, tio? – V

  1. Junnior disse:

    “Eu estava definitivamente perdido por aquele moço.”
    Faltou uma palavra nesta frase: apaixonado. Ou perdidamente apaixonado, seria mais apropriado.
    Uma narrativa esplêndida como sempre.
    E vem aí o lanche.

    • Eu estava perdido definitivamente, em todos os sentidos, sentidos ou imaginados,
      conhecidos e imprevistos. Paixão eu já havia sentido, mas seria pouco dizer que eu estava apaixonado.
      Eu estava, continuo, perdido mesmo. Sem rumo. Num quase gozo permanente.

Comentários

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