E agora, tio? – VII

A noite foi longa. Dormi pouco, olhando aquele garoto-homem-anjo ao lado. Mais o relógio avançava, mais meu peito mais ardia, paixão crescente, num medo adolescente da manhã seguinte. Receio de que, de repente, eu acordasse do sonho. Medo de explodir. Já madrugada, finalmente apaguei. Acordei solitário na cama. Olhos abertos, avisto Rodrigo, lendo numa poltrona.

— Finalmente, dorminhoco! , disse levantando-se em minha direção. Beijou minha testa e foi saindo. [Ainda bem! Temo sempre essas intimidades logo ao acordar!]

— Tome seu banho e te espero pro café. Tá na mesa, my lord!

Alguns minutos depois, desci em direção à copa. Agora, só de cueca. Tinha vindo desprevinido para uma estadia tão prolongada. Sem roupas. Mas estávamos só nós na casa.

Já pronto, beijei seu rosto.

— Bom dia! Ele me respondeu, beijando-me demoradamente. O gosto de geléia que vinha de sua língua estava uma delícia! Adocicado, mas era difícil reconhecer o sabor. Sua boca estava sempre macia, perfumada.

A conversa foi trivial, contida. Eu e ele com medo de quebrar ovos depois da primeira noite juntos. Sabíamos que já havíamos navegado bastante, pouco restava que pudesse surpreender nossa intimidade física, mas em começo de namoro é sempre bom ir com calma, tateando o terreno, jamais assustar o companheiro com uma palavra mal colocada, um gesto mais brusco, deixar o barco navegar em mar calmo. Definitivamente, coisa de namorados. Não era um caso de fim de semana. Sem dúvida alguma.

Da calma aparente, as coisas esquentaram ali mesmo. Dessa vez, nem seu chá quente se mostrou necessário. Despiu-se, jogando pra longe a bermuda folgadona, que permitia aquele visual de barraca armada, espada liberta, atrevida, doida por uma luta. Ajoelhado, tirou carinhosamente minha cueca, aos beijinhos e me fez, ali na cadeira, um longo agrado. Eu avisei: — calma!

Parecia que já tinha programado a cena, porque os acessórios necessários ao que viria estavam estrategicamente guardados numa gavetinha ao lado da mesa.

— Hoje, você me mostra como é. Quero muito!

Com uma habilidade de homem bem mais experiente do que um iniciante costuma fazer no do próximo, encapou-me, besuntou-nos, e se ofereceu.

— Não negue! Faça! Agora, sou teu!

Primeiro, meus dedos abriram estrada d’antes nunca experimentada. E não havia sido mesmo. Túnel comprimido.

Mais relaxado, pude começar o que ele tanto esperava. E começamos, ele em pé, apoiado na mesa.

— Calma!, dizia eu pra mim mesmo o tempo todo.

Fiquei surpreso por ser assim, na copa. Talvez alguma fantasia dele. Tinha todo o direito.

Em silêncio, fomos nos entendendo. Quando tive certeza de que o caminho já poderia ser percorrido mais livremente, interrompi o vai-vém ainda vagaroso, puxei-o pra sala ao lado, e caímos num sofá. Deixei que ele se posicionasse, encontrasse o jeito mais confortável. Estava seguro de que ele observara nossa brincadeira anterior, com ele no comando. De ladinho, acabou sendo assim a primeira viagem até o fim do túnel. Bom aluno!, pensei. Já mais seguro de que tudo correria bem, coloquei-o ajoelhado, debruçado sobre o assento, e me posicionei pro que imaginava seria uma serena batalha. Caprichei, esperando sua reação, manifesta em gemidos ou, melhor ainda, numa ereção, sinal inequívoco de que a festa estaria agradando. Mas excitação, nele, eu não senti. Passei a mão carinhosamente, várias vezes, antes disfarçando por caminhos outros, toques nos mamilos, sempre durinhos com biquinhos empinados, auréolas arrepiadas, nuca, bunda, púbis depilada, bolas lisinhas e, finalmente, pau. Pra conferir. Não reagira: caído. Longo, como não poderia deixar de ser, mas em descanso.

— Acho que você não está gostando.

— Não é isso. É tudo novo pra mim, não para, não! Se eu não aguentar te falo.

Algum tempo depois, ele me surpreende. Interrompe, sai, me põe sentado, e vai se chegando, sentando, olhos nos olhos, aos poucos, cuidadosa e lentamente. Eu, imóvel. Fiquei assustado quando vi, descida completada, algumas lágrimas já indo pelas bochechas. Lágrimas que acabaram pingando no meu peito. Interpretei serem de dor, só podiam ser. Pedi: — Vamos parar um pouco? Ele disse que não, doía pouco, que estava mesmo era emocionado. Acreditei. Deixei. Passou a mão embaixo, como se não acreditasse que tinha sido capaz. Mais lágrimas que, por meus dedos, vieram aos lábios, à língua, gesto que converteu num sorriso de libertação aquilo que, nele, começava a ser um choro contido, intimidado, de homem já cansado de representar uma valentia quase sobre-humana. Relaxou!

— Nunca me vi tão homem, Alex! To me sentindo o cara mais corajoso do mundo! Sensação incrível isso! Putz! Vontade de gritar…

— E é preciso ser mesmo muito homem pra fazer isso, meu lindo. Fica calmo. Você está no comando.

Tranqüilo, olhos fechados, segurando em minhas mãos, tombou a cabeça pra trás e navegou, navegou. O guindaste do navio foi subindo aos poucos, sinal de que as coisas realmente iam melhor do que o esperado. Toquei-o. Ele afastou minha mão, com delicadeza.

— Não, ainda não. Quero ficar mais. Se encostar sinto que termino logo. Deixa mais, quero mais, por favor!

Ficou assim, quietinho, como numa cadeira de balanço, pra frente e pra trás, um tempo que me pareceu longo, uma eternidade pra uma inauguração. A dureza do que via me convidou a tocá-lo. E assim fiz. Acariciei cada parte, e não precisei fazer muitos movimentos para que as lavas escorressem. Não foram jatos. Lavas, abundantes, escorreram até minha barriga. Fim, pra ele, que desembarcou com um sorriso, quase às gargalhadas. Estava feliz. Continuei minha viagem em movimentos solitários, ainda sentado, pernas esticadas, corpo enrijecido. Ele, assistindo a tudo, sorrindo, ao ver minha respiração ofegante, quase gemidos, num anúncio de que eu também chegava ao fim, deitou-se no chão e indicou que desejava tudo terminasse em cima dele.

— Batismo completo!, brincou ele.

E assim foi. Segunda entrega entre nós. Primeira da vida dele. Sujamos o tapete, com as porções que não viraram a cola que secou, unindo nossos corpos por uns longos minutos.

Sol forte, dia claro, quente. Estávamos entregues um ao outro desde o primeiro bilhete, há meses. E agora não era conclusão minha. Ele, ainda sorrindo, confessava.

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4 respostas para E agora, tio? – VII

  1. FOXX disse:

    uau!
    eu preciso saber se isso é uma estória real, gente.
    preciso!

    • Foxx,

      se fosse um filme, nos letreiros iniciais estaria escrito: “baseado em fatos reais”. Com a ressalva de que alguns nomes [até agora, dois] de personagens foram trocados, obviamente. Posso contar o milagre, mas não entregar o santo!

  2. Junnior disse:

    Sim, uma história com “h” (mesmo que hoje em dia não faça diferença) e com dois homens em polvorosa, enlouquecidos de paixão.
    Amei.
    Beijos.

Comentários

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