E agora, tio? – I

Os dois estão à frente na fila que promete longa espera. Para minha sorte — ou azar?, ainda não sei –, caio na mesa ao lado deles. Procuro dar toda a atenção ao casal de amigos que me acompanha, mas já sinto que eles ficarão inevitavelmente em segundo plano. Precisarei fazer malabarismos, num esforço enorme, para tentar disfarçar meu distanciamento, o quase desinteresse em nossa conversa. Meus olhos querem mesmo é ver o outro casal, ouvir o que falam, entender o motivo de tanta alegria.

O rapaz, aos poucos, despertou em mim uma quase coceira no peito, o coração entrou a disparar sem motivo, sem que eu entenda e menos ainda que possa admitir ser ele a causa. Entrei a salivar, para não dizer que já estava um babão, antes mesmo que pudesse tocar o prato escolhido que felizmente demora a chegar. Nessa altura, já queria que a noite não terminasse. O casal fala, fala, eu resmungo, longe, já perdido …

Ele não é especialmente belo, mas é troncudinho, mais baixo do que alto. Anuncia, pelo olhar, uma beleza mal disfarçada e estonteantemente bela. Tem sorriso tímido, de uma timidez sem razão. Beleza suave e decidida que desce pelo peitoral duro mas sem exageros, segue aos braços fortes, bem torneados mas ainda suaves, desce à cintura, depois glúteos que vejo quando ele se levanta para ir ao toalete, traseira dura e bem delineada, nem murcha nem estufada, na medida certa do prolongamento abaulado das pernas, grossinhas e também belas. Anda feito homem, decidido. Não fosse pelo sorriso de menino, diria que já e um homem experiente e seguro de si, mas vejo mesmo que é um jovem em suas primeiras conquistas, ainda inocente do poder que tem. Se é que existe inocência ainda hoje…

Ela, ao contrário, aparentemente mais novinha do que ele, demonstra, pelos gestos, pela atitude, que sabe bem o que tem nas mãos, o troféu que poderá exibir às amigas, matando quase todas de inveja… Uma menina já mulher. Sabe que aqueles sorrisos se desmancham por ela, que é dela que aquelas mãos fortes e doces não sabem como se esconder; que o olhar do menino homem tenta ir mais baixo e se esconde ao meio do caminho sempre que ela diz algo, sorri e toca suas mãos. Vejo que ela sabe dosar os elogios até o limite da intimidação, sem avançar demais. Nessas horas, imagino — porque não consigo ouvir o que dizem — que a menina destaca a beleza do que está à sua frente. Não falam explicitamente sobre desejos, pois se vê, pela alegria e pela curiosidade de ambos, que ainda estarão em seus primeiros encontros, ainda sondando, antes de invadirem vitoriosos um a área do outro. Por enquanto, ele, desejoso de se mostrar, ainda se intimida, numa indecisão típica dos adolescentes que ainda não se firmaram nessas artes. Um menino homem que ainda se envergonha da própria beleza, que ainda não se acostumou à ideia de ser tão flagrantemente desejado.

Em nossa mesa, a refeição segue lenta, calma, mais conversas que garfadas e goles. Na deles, tudo é devorado, numa aparente contradição com os gestos pensados de conquista. Claro está que eles transferem à pobre comida toda a sofreguidão que gostariam de estar partilhando do corpo dele, dela, quase se lambuzando na calda da sobremesa que já vai ao fim, saciados. Pouco antes da sobremesa, ela sai de seu banco e vai sentar-se ao lado dele, quase no colo. Ele não sabe o que fazer, me olha quase suplicando por ajuda… – E agora, tio?, o que eu faço?

Terminada a refeição, ele novamente se levanta para ir ao banheiro. Agora não tenho como fingir que não vejo. Ele, já longe, fora do alcance do olhar dela, se vira. Meu coração dispara. Não pode ser. Será? Na primeira, fiz que não vi, mas agora? Ainda em dúvida, ganho coragem e vou, abro a porta. Em lados opostos do espaço que quase nos espreme um conta o outro, sozinhos, nos olhamos sem medo, fingindo lavar as mãos, temerosos, quase nos esbarrando. Ele sorri. Antes de sair, seca as mãos e deixa ao meu lado um guardanapo dobrado. Entro no toalete, receoso da reação que poderei ter ao abrir o guardanapo. Um choro ou um sorriso? uma gargalhada ou um lamento?, alegria ou tristeza?, em qualquer caso, algo intenso, é certo. Pode ser um tremendo fora escrito, ou um elogio, um convite… Nunca sei o que vai pela cabeça desses meninos… Seja lá o que for, quero ler resguardado de qualquer súbito, indiscreto e curioso olhar para poder reagir e, se necessário, me recompor antes de voltar à cena real. Quero poder rir ou chorar à vontade, em silêncio, quando abrir o papelzinho… Cheiro antes de abrir… e leio: “parei no teu olhar e fiquei; gostaria de te conhecer, junto com minha namorada”. Mal acredito nas últimas palavras… Então é isso!… Eles querem diversão!

Demoro um pouco. Ao voltar à mesa, eles já se foram. Volto pra casa e, antes de deitar, decido baixar um pouco aquela ansiedade toda. Despido na cama, minhas mãos seguem, me tocam. O corpo, desejoso que as mãos fossem outras, arde. As imagens vão assumindo o controle. Desde aquele domingo, imagino os dois, juntos, comigo, em todos os momentos em que, solitário, me liberto… Ainda não decidi, se ligo, se vou. Se pago pra ver. Tenho medo do que possa acontecer. Adolescente, nunca fiz isso. E agora, tio? Você, que tanto imagina, que tanto fala, diante do real, paraliza-se e cala!

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2 respostas para E agora, tio? – I

  1. Junior disse:

    E agora titio, pergunto eu!
    “Parei no teu olhar e fiquei…”
    Essa parte conquistou e, por ela, não resistiria à tentação de conversar com esse cara. Depois dessa conversa, por telefone ou pessoalmente, não importa, eu decidiria.
    Claro, estou levando em conta a sua disponibilidade e a flagrante atração física – ousada e escancaradamentemente descrita.
    Boa sorte (rs).
    Boa sorte e abraços.
    Junior.
    Junior.

  2. Dudu Elado disse:

    Cheguei aqui através do comentário que você deixou em meu blog.

    Parabéns, nem sei o que comentar sobre essa publicação!

    Sei que foi provocante e me deixou constrangido por alguns momentos (deve ser minha heterossexualidade).

    O mais importante é que despertou a curiosidade de ler até o fim e conhecer os outros textos.

    Parabéns.

Comentários

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