E agora, tio? – VIII

Segundo domingo do ano, segunda e definitiva entrega entre nós. Se por um lado sabia que nada é tão definitivo que só a morte separe, ou talvez nem ela, por outro o abandono de qualquer ilusão quanto à eternidade das relações trouxera um sentimento de liberdade, o que permitiu estar ali, ao lado de Rodrigo, e tudo que estávamos vivendo. Tão bom, tão gostoso! Seria um presente definitivo, enquanto durasse. Parte do prazer que sentia sabia vir dessa segurança, dada pela ausência de expectativas que nos levam a ser tão exigentes conosco e com o outro. Segurança de que não haveria decepções. Liberdade, enfim. Até pouco tempo, eu seria incapaz de viver algo parecido. Jamais me aproximaria de uma pessoa muito mais nova, que praticamente tinha idade pra ser meu filho. E não era por preconceito, ou preferência. Puramente por defesa. Conceito equivocado, agora via bem. Quanta coisa boa já teria perdido antes?, por insistir num pensamento que a vida me colocara sem pedir licença…

É certo que não havia sido de graça. Comecei minhas relações homoafetivas navegando por outras tantas puramente sexuais, com outros caras que também já estavam há anos da adolescência. Tinha muito medo, os tempos eram outros. Quando parti para as novas possibilidades que minhas descobertas de então permitiram, naquela sofreguidão para conhecer, ver, saber, experimentar, mostrar, fazer, descobrir, dar e receber, entregar, percebi que um homem dito maduro, chegado aos trinta e poucos, poderia estar em forma, de bem com a vida, interessante, mas em determinados lugares, junto a determinado público, seria sempre carta fora do baralho. Isso me desanimou um pouco, pra não dizer que quase desisti – não dava mais pra desistir. Atribuía tudo à futilidade reinante na maioria desses lugares. E no mundo. Fui mudando o foco, e aos poucos me dei conta de ser, até certo ponto, uma reação esperada. Talvez, ou certamente, eu, aos vinte e poucos, teria dificuldade em me interessar por um homem próximo dos trinta e cinco. Não tinha mais como saber. Só que agora eu estava do outro lado da escala, sem ter passado pelo primeiro estágio. Fui levando, aprendendo, encontrando brechas no preconceito generalizado, dedicando mais atenção aos meus próximos em idade e interesses. Eventualmente, quando alguma dúvida aparecia – sim dúvidas, elas foram insistentes – e alguma mulher se aproximava, voltava ao passado, que se manteve presente por uns bons anos. Até recentemente, inclusive, com os poucos encontros com Ana, embora estes de agora tenham sido motivados por meu interesse por Rodrigo, mais do que por ela, apenas.

— Tá pensando em quê? Queria poder ler seus pensamentos!

Rodrigo já havia estacionado o carro há alguns segundos e eu continuava com os pensamentos soltos, indo e vindo no tempo. Lembrava de muitas coisas, de medos e coragens desde a infância, em muitas coisas e numa única coisa: a vontade de ser feliz. Eu, viajei, boca fechada, olhares e sorrisos, pensamento em voo livre, durante o trajeto. Ele assistiu, em silêncio. Ah, que o domingo não terminasse nunca!… Agora, já estávamos no restaurante. Reservado, discreto, como convinha ao moço em primeira viagem. Não discuti. Ele havia ligado, reservado, decidido tudo. Saltamos, entramos, ele foi cumprimentado. Devia ser freqüentador assíduo. À mesa, sugeriu um vinho. Concordei. Brindamos. Poucas mesas, poucos clientes. Ainda era relativamente cedo pro almoço de domingo. Como convinha ao moço que, imaginava, teria ainda dificuldade pra assumir publicamente o novo namorado. Afastei esses pensamentos, aquelas nuvenzinhas que sempre insistiam em querer atrapalhar qualquer prazer intenso. De fato, poderia passar por seu pai, ou tio. Mas não era. Isso bastava.

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2 respostas para E agora, tio? – VIII

  1. FOXX disse:

    gente
    eu morro de curiosidade e vc não me diz se isso é ficção ou realidade…

  2. Junnior disse:

    Alex, a sua idade é uma incógnita. Às vezes acho que tem trinta e poucos, outras, quarenta e poucos. Porém, não é a curiosidade que me faz indagá-la, mas o fato de que o casal (vc e Rodrigo) se formou porque ambos se enxergaram como são, com as aparências e demais peculiaridades de cada um. Pensar em números ou diferenças a esta altura é contrariar todos os quesitos que fizeram a mútua aproximação. E, sim, se formou uma relação entre vocês. Não importa o tempo que durar.

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