E agora, tio? – IX

Sentado no restaurante, eu estava feliz, mas inibido. Sensação estranha. Uma felicidade enorme, um tesão desconhecido pela vida, e ao mesmo tempo constrangido por sei-lá-o-quê. Talvez ainda não tivesse me desvencilhado de algumas vergonhas que carregava desde os tempos de armário… Ou talvez fosse pelo ambiente, um tanto sofisticado pros meus costumes. De qualquer forma, não me lembrava mais de ter começado uma relação assim, com tanta intimidade e cumplicidade logo nos primeiros encontros, os dois aos sorrisos e quase beijos em público. A inibição foi cedendo… O vinho deve ter ajudado. Não nos demoramos muito ali: cerca de hora e meia depois já estávamos na rua, desejando instintivamente ir pra qualquer lugar onde que pudéssemos continuar naquele sonho. Cúmplices na mesma experiência, em que a diferença das idades se diluía no espírito da novidade e surpresa que tudo era pros dois.

No caminho até o restaurante, mesmo durante parte do almoço, e agora, no banco do carona, eu percebia que minha excitação ia além da alma. Não apenas meus bem-te-vis internos cantavam, mas, caramba, não amolecia de jeito nenhum. Não estava pensando em sexo, imaginando cenas, nada disso. Mas o bicho não descia, e eu não queria parecer um coroa tarado. Chato isso, né! Procurava esconder com a camiseta improvisada que ele me emprestara. Lá pelas tantas, ele me coloca as mãos carinhosamente nas coxas, e vai subindo, sem malícia, e se depara com minha excitação. Apenas sorri, toma minha mão e leva ao joelho. Retribuí a subida, e me tranqüilizei vendo que se aquilo era taradisse, éramos, então, tarados os dois. Nenhuma palavra, nenhum olhar de malícia. Apenas sorrimos, beijamos um a mão do outro, e continuamos a viagem, em silêncio.

Meu espanto? explico. Nunca havia experimentado assim ereção não provocada por contato direto, nem tão prolongada, mesmo nos raros períodos de abstinência. Nunca, tinha ficado de pau duro só de ver mulher ou homem, nu ou em cena imaginadamente erótica. Dessas coisas que eu via outros homens contarem, coisas de terem de esconder os volumes nas areias ou na água do mar só por contemplar um belo corpo. Não, comigo, nunca! No início, a falta de automatismo com as mulheres me levou à explicação um tanto lógica de que minha praia seria outra. Com um cara seria diferente. Mas era engano. Mesmo depois, com os homens, vi que era a mesma coisa: nada sem a ajuda de mãos ou boca. Fiquei preocupado. Comecei a imaginar que a mim seria reservado apenas um papel passivo nas relações. Na cama ou numa pegação qualquer a dureza só chegava com manipulação e toques. A experiência aos poucos fui me tranqüilizando. O que era trauma gerador de estresse foi cedendo lugar à certeza de que, de alguma forma, responderia. Agora, porém, aquela sensação. E era gostosa! Como era!

Ruas quase desertas com o sol ainda a pino às duas da tarde do horário de verão, passávamos por um shopping no caminho de volta à casa de Rodrigo. Ele me pergunta o que achava da gente passar pelo cinema. Como ele não manifestou preferência, escolhi o único que despertou minha atenção: “As melhores coisas do mundo”. Sugestão aceita, lá fomos nós. Não imaginava que pudéssemos nos identificar no filme. Não tinha lido nada a respeito. Ele sorriu com o título e eu não tinha a menor idéia do que viria, do que veríamos. Sala vazia, pela primeira vez na vida soube o que era estar no escurinho do cinema com um namorado, última fila, mãos dadas e algumas ousadias mais. Ousadias, pequenas, que nada teriam de ousadas fôssemos um casal de menino e menina. Mas éramos dois homens e, infelizmente, numa situação dessas, nós ainda não nos sentimos com os mesmos direitos à livre manifestação de afeto em locais públicos… A sorte foi encontrar a sala vazia àquela hora.

Saindo do filme, paramos pra tomar um sorvete. Estávamos sentados quando passou um rapaz. Andava rápido, só, mas ao ver Rodrigo, ainda longe, acenou, sorriu e se aproximou. Abraçaram-se, foi convidado a sentar em nossa mesa. Conversaram um pouco, até que o amigo reclamou, e me olhou nos olhos:

— Prazer, Rafa.

— Prazer, Alex.

Indiscreto, reclamou:

— Você não apresenta os amigos, Rodrigo?

Rodrigo estufou o peito, respirou fundo, e, pra minha surpresa, declarou:

— Rafa, o Alex não é só amigo, apenas. É meu namorado!

Rafa ficou visivelmente constrangido, mas não perdeu o rebolado.

— Pô, legal! Devia ter falado logo!

A conversa não rendeu muito.

— Por essa eu não esperava!

— Ah, o Rafa é meu melhor amigo. Ou era. Riu. Não esquenta. E eu já tinha conversado com ele sobre minhas dúvidas, antes de conhecer você.

Pra quem tinha saído de casa no sábado á tarde, as últimas vinte e tantas horas estavam, de certa forma, fazendo uma revolução na minha cabeça. E uma deliciosa pacificação do espírito.

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6 respostas para E agora, tio? – IX

  1. FOXX disse:

    ê, namorar faz tão bem! pelo menos eu acho.

  2. junnior disse:

    Não há o que dizer, mas muito pra imaginar. Que dia delicioso!

  3. FOXX disse:

    bem, Alex, respondendo a seus comentário lá no blog. Eu contei as estórias do carnaval na ordem cronológica, então, primeiro vieram os idiotas até eu conhecer aquela pessoa fofa, pena q só tivemos uma noite juntos, mas será para sempre uma lembrança maravilhosa.

    ah, sobre esse seu post, eu achava q vc era bem mais jovem, com no máximo 22 anos, mas parece que não. me enganei?

  4. Ro Fers disse:

    Momentos com amigos não tem preço.
    Abraços

Comentários

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