Carta do João que tem medo da morte.

Meu estimado Alex,

Hoje estou meio assustado, com medo. Ia publicar esses comentários lá no meu blog mesmo, mas você sabe que ando um tanto desanimado dessa coisa de escrever , muito por estar sem assunto que possa interessar a quem quer que seja. Resolvi botar num e-mail, pra você, claro . (Você vê, se a gente tivesse continuado juntos, talvez eu não tivesse a quem escrever agora!) Se o blog serviu pralguma coisa foi pra baixar minha bola e mostrar que meus adversários tinham razão. Eu não tenho conteúdo pra sustentar nem mesmo uma coisa assim sem compromisso. E isso não é um lamento. É uma constatação simples. Coisa que aliás eu sempre soube, mas nunca aceitei. (Aliás, nunca aceitei nada negativo a meu respeito, características, acontecimentos, atos e fatos). Brinquei quando deveria ter estudado, picareteei quando deveria ter lido mais, fugi quando deveria ter enfrentado, me escondi quando deveria ter tido a dignidade de botar a cara a tapa. Deu nisso, né!

E depois, meus textos, por essa falta de conteúdo informativo que pudesse acrescentar algo às pessoas foram ficando muito confessionais, cansativos. Afinal, esse negócio de diário, confissão, pra interessar alguém tem que ser escrito por pessoa que ultrapasse em muito as próprias vicissitudes e idiossincrasias relatadas, de forma que todo mundo as tome como verdadeiras. Não é o caso das pessoas comuns. E eu sou uma delas, embora ainda relute em aceitar. No fundo, nunca me importei em escrever coisas muito pessoais lá, você sabe, mas desde que fui identificado como o autor do blog por aquele coleguinha fdp, desde que aquele pentelho me pegou escrevendo um post lá na empresa, nunca mais me senti à vontade pra escrever nada pessoal. Ando, desde então, sob os olhos atentos de alguns colegas de trabalho – sei que meu chefe também me vigia por lá –, eternos competidores que não se bastam em suas competências, que não se comprazem somente com o próprio sucesso, mas que necessitam complementá-lo com o insucesso alheio, se possível a desgraça mesmo … Resolvi que não vou mais me expor lá. Como já conversamos antes, vou aceitar sua sugestão. Vi que você também anda meio sem assunto ultimamente, né não? Então, se quiser, pode publicar minhas cartas no seu blog. Peço apenas que mude o nome, claro. Bote João. Nome comum, e muito diferente do meu. Adapte à sua linguagem e se achar que deve, bota lá.

O bom de ser criança é não ter ideia do que pode nos esperar. (João)

Mas o que eu queria te contar hoje é que aquele medão da morte voltou a me rondar. Engraçado: encaro a morte dos outros com tanta naturalidade, mas a minha mesmo, não consigo entender, aceitar. Vou te confessar uma coisa. Duas coisas me assustam mais quando penso que posso morrer logo. Uma é imaginar que as coisas não acabem com o último suspiro, o que me leva a indagar o que me esperaria do outro lado. Desconfio, se for pelo que fiz aqui, coisa muito boa não será! A outra é que eu, sinceramente, gostaria muito de continuar mais tempo por aqui, sabe! Não que o mundo seja lá essas coisas, mas justo agora que eu finalmente andava conseguindo me libertar de um monte de medos e pesos que me atrapalharam a vida toda… Aceitar minhas deficiências, conviver com o ser comum que sou, e aprender a ver o extraordinário sob o engano daquilo que parece a mesmisse alheia. Enfim, quando eu tava aprendendo finalmente a ver e a sentir as pessoas de um jeito tão diferente! Enfim, melhor não pensar nisso. Se ela tiver que vir, que me pegue de surpresa, meio difícil… pior é que sabemos que, no meu caso, dificilmente ela não se fará anunciar em altos decibéis muito tempo antes. Acho que mais ainda do que de morrer, tenho medo de sofrer.

Ah, estou enrolando, né! Sim, pra te contar que hoje fui buscar aquele exame que fiz na semana passada. E deu uma coisa que, se não vai me matar amanhã, acho que vai começar a complicar minha vida. O fêmur, o encaixe no quadril, tá tudo começando a ficar com problemas, pelo que entendi. Necrose da cabeça do fêmur. O médico disse que não era (pra me adoçar por mais uma semana?) mas é! Talvez eu não possa mais nem fazer aquele trote, aquelas corridinhas fracas. E sem exercícios você já sabe pra onde vai meu colesterol, triglicérides, osteopenia e o escambal … Agora o diabo do bichinho ( ou será de algum dos remédios?, não sei , andei lendo algo na Positive Nation e parece que ninguém sabe). E, seja lá como for, na melhor das hipóteses, o bichinho vai continuar ali, mesmo que fique quietinho, sempre me avisando “olha, tô aqui, sua hora pode não demorar”. Se for um dos remédios, também acho que não posso parar. Nessa briga, em matéria de tratamentos, tudo é uma questão de relação benefício/custo. E meu médico já me adiantou que, por enquanto, os benefícios superam. Aliás, sempre superarão. A outra alternativa você já sabe qual é, e me assusta.

Bom, tava aqui ouvindo uma música que tinha baixado ontem (peguei no programa de agosto da smitf), e resolvi que tinha que contar a você. Precisava desabafar. Eu aqui tentando ganhar coragem para ir pra academia… Pelo menos os braços poderei exercitar normalmente, sem medo. As pernas talvez eu tenha que partir pra natação. Aprender a nadar, você bem sabe…

Cara, sei que você não se assusta com nada. E vai me responder falando um monte de coisas pra me animar, como sempre faz. E é disso que eu preciso. Eu também aprendi com você a nunca me assustar com a morte. Por enquanto eu só consegui em relação à alheia. A minha, cara, ainda me assusta muito.

Sábado vou ao médico pra ele dar o veredito sobre a degeneração em curso. Depois falo com você. Ah, sim, você vai pra Sampa neste fim de semana, né! Então, na segunda…

Um beijo, meu irmão!

P.S. Cara, se eu pudesse nascer de novo… ou pelo menos voltar uns seis ou sete anos na minha vida… ia mudar a estação por completo. Agora, tenho que ouvir o que o rádio tá tocando e ir levando a estrada assim mesmo!

P.S. 2 Acho que hoje vou rever aquele documentário argentino que você achou um tanto discutível, Mundo Alas. Mais do que nunca, estou precisando ver que tem gente com problemas muito maiores e que lutam com muito mais coragem do que este seu m de amigo aqui!

Outro beijo.

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8 respostas para Carta do João que tem medo da morte.

  1. Margot disse:

    Alex.. estou esperando vc postar a um tempão… e confesso rapaz, não sei o que comentar agora. Li, reli… mas parece que estou lendo uma carta que não me pertence… e escondido. Já me senti assim em outros blogs. Ainda mais que isso esta no marcador de Biografia e Vida real. Me calar…. acho que é isso.

    Beijos Alex

    • Margot, interessante esse ponto de vista.
      A carta, se fosse pra ficar escondida, não estaria aqui. Biografia e vida real daquele que escreveu (a carta).
      Não se cale, não. Quem escreve, e/ou publica o que escrevem, sempre quer ler comentários de pessoas sensíveis como você.
      Até, talvez, pra não publicar mais cartas indevidas e deixar as pessoas com essa sensação.

      Beijos

  2. junnior disse:

    Oi Alex. Quanto tempo eu não conseguia postar aqui. Hoje, resolvi enfrentar o WordPress, fiz senha, login e o escambau e problema resolvido.
    Menino, quantas confidências nessa carta. O seu amigo é nitroglicerina pura. O ‘diacho’ é que o menino escreve bem, tem muito o que contar, mas e se coloca numa posição tão fragilizada… Diga pra ele sair um pouco da bolha e olhar mais o mundo mais de dentro pra fora (se excluindo dele). Ele escreve muito bem.

  3. Cesinha disse:

    Vamos lá: primeiro avise o seu amigo João que ele pode ser tudo, menos uma pessoa comum. Ao contrário ele transborda bons sentimentos. E justamente por não ser um cara comum ele tem esse medo, sem razão a meu ver, da morte. E medo de sofrer todos temos, é da natureza humana.

    Em segundo lugar, falando agora como médico, avise seu amigo que a osteonecrose não é um bicho de sete cabeças. E que apesar de não sabermos certamente a origem desse problema, como da maioria das doenças (mesmo porque nunca se constitui de apenas um fator… nada em medicina é tão linear assim) existem várias formas de tratamento.

    Beijos.

    • Cesinha,
      recado lido e devidamente registrado. Gratíssimo pelo seu carinho e atenção!
      No caso dele, embora a causa não seja identificada com segurança, poderá ser a medicação para controle do HIV (Tenofovir) ou a ação do próprio virus, segundo o médico lhe informou. Mas o principal é sua notícia tranquilizadora, e isenta, de que não é um bicho de sete cabeças.
      Beijos!

  4. lenincampos disse:

    ah, ele tem HIV? isso muda tudo que eu ia falar. agora eu entendo essa presença da morte na vida dele, é uma sombra que o persegue, agora eu entendo…
    mas se eu fosse dar um conselho para ele por este texto eu não diria, de forma alguma, que ele é uma pessoa comum, muito pelo contrário, acho que é alguém extremamente especial que deveria começar a perceber isso voltando a escrever o blog dele. Talvez o blog seja um bom exercício, na verdade, cada texto, mesmo pessoal como ele fala que faz (e como eu faço também), pode ser um exercício para ele demonstrar a si mesmo o que tem de especial na vida dele. afinal, o olhar dele é único e esta perspectiva é o que torna os blogs pessoais tão interessantes.

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