Um pesadelo, realidades e identidade

Acordou, mas o aperto vivido no sonho não diminuía, insistia pretender-se real. Forte sufoco, desolação, algum medo sem origem, numa mistura que embaçava as idéias. Embora a razão lhe dissesse que não passara de um sonho, que finalmente conseguira acordar de um quase pesadelo, todos os sentidos insistiam em lhe dizer o contrário. Ganhou coragem, levantou-se, começou o dia, dando fé à razão e esperando que a agonia se esfumasse aos poucos, como sempre acontecia depois daquelas visitas noturnas ao desconhecido. A névoa foi aos poucos diminuindo, o dia clareou, mas lá pelas seis da tarde ainda sentia que, dessa vez, a tragédia noturna lhe deixara uma tatuagem na alma, ou naquilo que imaginava ser sua alma, embora não acreditasse em almas e apenas tivesse ao longo da vida se apegado à necessidade, mais do que apenas se acostumado à idéia, de ter um espírito.

Se assim fosse, que significado teria aquela experiência noturna? E se não existisse alma alguma? e o espírito fosse apenas uma abstração? A razão lhe dizia que ambos os caminhos levariam ao mesmo resultado. Não havia saída: insistir nesse desvio seria uma discussão tola, uma desde sempre fracassada tentativa de fuga. Não tinha mais como escapar de si mesmo. Talvez, esse confronto fosse, sim, real, mais do que qualquer sonho, alucinação ou pesadelo anterior (que dessem o nome que quisessem dar àquelas suas vivências, que sabia ser provocadas por uma daquelas pílulas que tomava ao deitar, mas seriam impotentes para criar imagens, obstáculos ou situações puramente abstratas, do nada, ao invés de baseadas sempre em alguma semente preexistente no próprio substrato em que eram diariamente lançadas).
Algumas horas novamente obrigado à realidade e começou a desconfiar que se tratava, e se trataria sempre e em qualquer circunstância, de um confronto com uma parte de sua identidade. Uma parte que talvez não tivesse a menor importância, mas que, em sua ignorância existencial, sempre reputara essencial. Ponto. Sentira naquela noite algo muito próximo de seu infinito momentâneo, que apenas se insinuara, mas deixando o aviso de que voltaria com suas dúvidas, seus medos, seus desejos profundos e desconhecidos.
Tudo aquilo que gostaria de ter visto e resolvido passou rápido e lhe escapou antes que pudesse ser arrastado naquele tsunâmi até onde finalmente encontrasse, perdida, o que imaginava ser a sua essência. Ao invés disso, viu-se arrastado à praia da vida real, mais uma manhã que o obrigaria a continuar naquela luta interminável buscando saber qual seria sua posição relativa naquela humanidade que jamais compreenderia e da qual, a muito custo, e nunca sem alguma dúvida, se sentia parte.

Se você chegou até aqui, poderá estar se perguntando que monstros teria ele visto naquela noite, capazes de assustá-lo até àquelas horas do dia. O pedaço da história que lhe ficou era simples. Estava diante de um tribunal, presidido por um médico, não por um juiz, que laconicamente lhe transmitia o diagnóstico: carcinoma, exigida a extirpação imediata de seus órgãos genitais, internos e externos. (Sim, o médico era antiquado; ele preferia algo mais prosaico e direto, poderia ter dito que perderia o bilau simplesmente, mas era um pesadelo, e não tinha controle sobre suas personagens) Ele, atônito, horrorizado, perguntava, como seria depois? Tentava dissuadir o juiz de solução tão radical. “Reconstitui-se um simulacro de novos órgãos, femininos por suposto, e levará uma vida natural.” E repetia, “a vida é adpatação, meu caro senhor”. Isso que lhe será tirado não lhe fará falta, verá!
Recusou-se a acreditar em tudo aquilo, no diagnóstico, na solução apontada, na possibilidade de viver com outro corpo que não aquele ao qual, bem ou mal, e a duras penas, tão duras que só ele sabia quanto… Aquele médico quase monstro parecia não querer entender que não se tratava de sexo, mas de sua própria identidade, consigo mesmo. Como? Então passara a vida iludido, buscando uma identidade a partir de algo que poderia ser assim arrancado, substituído e por outra coisa? Quer dizer que nada daquilo em que depositara sua identidade tinha valor? Ok, há tempos já sabia que tudo aquilo passaria um dia, mas tinha sido pego de surpresa. Sua estupidez, subitamente revelada, assustava. Jogou pra debaixo do tapete. Era muito para pensar, por agora.

Felizmente era um pesadelo. Acordou, mas a dúvida permaneceu. Sabia que ali, no meio daquela tempestade, havia um conflito essencial cuja solução teria que procurar sozinho, ao vivo, em cores, não em meio à névoa dos sonhos, reais ou imaginários. A parte mais dura começava agora. Daí, talvez, o sufoco, o quase desespero que ainda o acompanhava às oito da noite…
Precisava chorar. Como não mais conseguia sozinho, buscou a ajuda de uma auxiliar sempre presente naqueles dias.
Voltaria ao problema, sabia que a dor não passaria logo, se é que passaria um dia. Dor nova, desconhecida. Mas por aquele dia, bastava!

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5 respostas para Um pesadelo, realidades e identidade

  1. caralho!
    q texto incrível!
    tow aqui sem palavras! nossa!

  2. Lucas disse:

    Meu amigo, sério, esse foi um dos textos mais terríveis que li nesses últimos tempos! A cada linha eu ia me encolhendo na cadeira. Ainda estou meio zonzo…

    Eu preciso entender melhor tudo isso, é um pesadelo muito horrível… e esses marcadores de post… assustado aqui. Não sei o que comentar. A única coisa que eu espero, de coração, sei lá… melhor eu não falar mais nada… vou me perder.

    Beijos.

    • Lucas, caríssimo, a consideração de sua leitura diz tudo. Desculpa se causou algum mal. A experiência descrita, real, não deve assustar ninguém. Exatamente por ser real, verdadeira. Quando aprendemos a encarar como naturais as coisas que fogem ao nosso controle, meio que começamos a tomar consciência delas e, a partir daí, trabalhar e compreendê-las um pouco… E, então, elas vão nos assustando menos, menos… até que um dia serão uma pálida lembrança do que foram um dia.

  3. Margot disse:

    O interior desse ser, como direi, parece estar em conflito extremo. ….
    Alex…. entendi o texto, as correlações…. mas não sei como comentar. Só posso te dizer, que entendi…. o texto e as entrelinhas dele.
    Fique em paz querido…
    Beijos

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