A responsabilidade das [minhas] palavras

Há muito tempo descobri que as palavras me perseguem, pedem para sair a esmo, que eu lhes dê liberdade. Não palavras especiais, nem especialmente arranjadas. Essas ainda não me chegaram. Alguns diriam que isso é viagem, bobagem. Ok, pode ser, mas deixa eu continuar.

Descobri, desde criança, que algumas vezes as palavras erradas buscavam as situações certas em minha boca. Queria me expressar de uma forma e a comunicação ia no sentido oposto. Já tive confusões persistentes por causa disso. Uma delas, talvez a mais marcante, tenha sido a quase eterna antipatia de uma avó. Incompetência lingüística?, alguma dislexia? Ou simples precipitação?

Talvez devesse ficar calado, mas ao invés disso acabei me animando a entrar nesse mundo dos blogs, numa ânsia de me conhecer melhor, de avaliar como veriam essa minha confusão. E, confesso, de buscar no mundo virtual a coragem para falar aquilo que no dia-a-dia real me é impossível. Como não dispunha e não disponho de nenhum conhecimento aprofundado em nada (história, filosofia, literatura, medicina, direito, nada), comecei com histórias meio sem compromisso (tolas, que alguns até entenderam como pobres contos eróticos, ou tentativa), mas sempre sinceras. Aos poucos, meio sem entender e sem acreditar, acabei tendo a atenção de vocês, meus três ou quatro leitores, sem preceber que isso passava a exigir mais responsabilidade em relação ao que escrevia. Quando pisei mais fundo, assustei. Mesmo tentando mal disfarçar a autoria de quem falava, acabei me desnudando em praça pública. E isso, creiam, não é coisa que eu goste de fazer. Mais uma vez as palavras acabam me levando a estradas que preferia não ver trilhadas.

Escrevo esta nota para dizer que tudo o que escrevo sai da minha cabeça, oca mesmo. E que os últimos posts enegrecidos são sinceros, verdadeiros e muito pessoais, embora mal disfarçados como ficção alheia, mas não devem preocupar ninguém. Fazem parte de conflitos desde sempre existentes aqui dentro, talvez só exacerbados por experiências noturnas proporcionadas, auxiliadas, por uma das pílulas que tomo ao dormir (não para dormir). O nome do meu último post poderia, talvez, ser “efeitos Efavirenz”. Mas não devo dar essa responsabilidade ao santo remédio. Nada é capaz de mudar nosso espírito assim. Já fiz uso de um antidepressivo por três anos e sei bem que os remédios ajudam, no limite (que não conheci, felizmente), nos ressuscitam, mas alimentos e substâncias químicas, acredito, apenas realçam o que nos vai tatuado no espírito. Aos poucos, a própria pessoa, por seus mecanismos naturais, precisa encontrar o próprio caminho da sobrevivência. E, de um jeito ou outro, sempre é possível encontrá-lo.

Sou um otimista, acreditem. No sentido de que fico triste com a noite, não gosto mais da escuridão, mas sei que é inevitável. Então, espero quietinho o dia clarear, momento em que, sempre espero, as idéias mais negras desaparecerão, dando lugar a uma outra dimensão do ser que habita em mim, e que luto e lutarei até o último dia para que seja cada dia mais duradouro.

Perseguirei, sempre, o verão do hemisfério Norte. No caminho, inevitavelmente, acabarei passando pelo inverno antártico.

A reflexão sobre a identidade e seus conflitos, não esquecerei, mas talvez seja um assunto muito particular para sobre ele discorrer aqui.

Deixo um trecho de uma música de que gosto muito. Nada novo ou desconhecido, que isso não tenho a mostrar. Sinto nela a melancolia que sempre carreguei, mas em algum ponto aparece a luz, a mudança, a alegria. Achei esta interpretação do sempre genial Nelson Freire. Bem curtinho, pra não tomar mais o tempo de quem chegou até aqui.

Desculpem-me, meus anjos. Uma ótima semana a vocês.

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12 respostas para A responsabilidade das [minhas] palavras

  1. Lucas disse:

    Querido, você não tem que pedir desculpas! Nada disso! Eu fui um dos que se “assustou” com seu último post. Não que o que você escreveu fosse agressivo ou “mal dito”… de forma alguma. Foram palavras tão veementes e tristes e densas que imprimiram, ao menos em mim, uma sensação de desespero em não poder fazer nada pra aliviar um pouco toda aquela dor. Isso não desmerece… ao contrário… engrandece a visão que eu tenho da sua alma, do seu modo de ser, do seu jeito humano de falar e escrever. Portanto, bola pra frente! Entendo os mistérios que toda essa iatrogenia triste, mas necessária, pode causar a nós, pobres seres humanos.

    Beijos.

  2. olha, se eu fosse vc eu segurava essas palavras, pq elas são sempre um perigo. veja o meu caso, fui deixando as palavras sairem e só criei uma imagem que todo mundo tem pena de mim. só pq falei a verdade.

  3. Cesinha disse:

    Como disse o Lucas… fique frio! Nada de pedir desculpas. É que você escreve de uma maneira tão pungente e emocionante que, para nós que te acompanhamos, conseguimos viver e sentir as suas experiências. Não acho que você deva “segurar” palavras. Eu penso que, quanto mais soltas elas estiverem, mais leve fica o seu espírito. E mais forte pra enfrentar todos os obstáculos da vida.

    Abração, amigo… lindo vídeo, amei!

  4. Margot disse:

    Nunca em momento algum, venho aqui para te ler, sem ter certeza de que vou encontrar um texto denso e verdadeiro. Você é assim Alex e isso é só uma das características admiráveis em você. Não ser especialista em nada, assim como eu, não nos torna diferentes de ninguém. O fato de se desnudar em praça pública, acontece comigo, a cada post que falo de minhas incertezas, angustias, sonhos irrealizados e mesmo naqueles que começam de alguma maneira e terminam de outra.
    Sempre tenho que ler seus posts mais de uma vez (rs). Quase nunca consigo absorvê-lo na primeira. Você é um mestre com as palavras, elas expressam exatamente o que vai em você, e não o contrário, como vc pensa.
    Gosto das Bachianas…. temos o gosto musical semelhante.
    beijos Alex

  5. Autor disse:

    Eu adoro ler suas palavras.
    Sempre as soube sinceras e, na verdade, nunca me preocupei muito se eram ou não realidade ou delírio com pretensão (ou não) artística.
    A verdade é que gosto de boa escrita e isso você tem.
    Não se desculpe pelo que faz bem.
    Bjo, querido!

  6. fred disse:

    As palavras são poderosas… algumas nos libertam enquanto outras nos condenam e aprisionam… há que se ter cuidado com elas. Mas pelos teus textos podemos entender que tu é um cara que sabe (muito bem) usá-las, nzé? Hehehe! Hugz!

    • Ainda estou aprendendo, caro Fred! Aprendendo o básico, ainda.
      Opiniões como essa, naturalmente, estimulam a seguir tentando, e aprendendo, e tentando…
      Saber distinguir aquelas que nos aprisionam, eis uma coisa difícil!
      Obrigado!

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