Independência sem morte (Lembranças de uma fuga)

Num dia de dezembro, de um ano já distante – que hoje lhe pareceu ontem –, num final de tarde, pegou o ônibus com a tia, que ainda não era velha, e o irmão, que ainda não era adolescente. Quarenta quilômetros e alguma espera depois, novos sacolejos por mais quinhentos quilômetros de estradas, muitas paradas, entra e sai de cidadezinhas dormidas na madrugada abafada que parecia eterna, o ônibus se esforçando para virar esquinas de ruas estreitas, espremidas, quase arranhando paredes das antigas casas daquelas antigas cidades do interior de São Paulo. Se é que se poderia chamá-las, então, de antigas. Seu corpo mal dormido grudando de suor na napa dos bancos estreitos. Nova parada, nova baldeação, espera de uma manhã inteira naquela cidade grande, quente e movimentada, com direito a sentar na praça na manhã de quase verão e ver o movimento, sonhar. Outro ônibus, mais setecentos quilômetros e, vinte e sete horas depois de ter deixado o berço, finalmente ia estacionando na nova cidade que já amava há algum tempo, que seria, talvez, o fim, mas que naquele momento só lhe parecia o sonho de um renascimento que não desistia de esperar que um dia acontecesse, mesmo sem saber, então, que poucos são capazes de renascer. Um sonho que ainda imaginava distante, e de fato sempre seria inatingível. Daqueles sonhos que, quando chegam, se mostram mesmo pesadelos.
Pelas janelas do ônibus ainda quase parado, por entre cortinas mal cheirosas de cigarro, poeira e suor, espiou a grande parede com anúncios luminosos … Sinais da cidade que o adolescente sentia como grande, mas que, descobriria rapidamente, nem era grande, nem cidade… Mas seria seu esconderijo.

Partiu pensando que seria apenas um mês de férias num outro mundo, distante e distinto da aldeia natal. Não planejou, não sabia, mas não voltaria mais, como alguém que sai de casa e, na ausência, fica sabendo que um incêndio destruiu tudo e apenas ouve dizerem que fique por onde está, porque não tem mais pra onde voltar. Sabia, desde muito, que a cidade de onde viera não tinha mais espaço para ele. E o incêndio que destruiu sua casa foi a súbita percepção de que voltar pra lá seria sofrimento, dor, jogo de esconde-esconde, fuga de si mesmo, esconder o que agora, já aos quinze anos, estaria cada dia mais difícil esconder. Já tinha se ausentado de tudo que podia: das pessoas, dos colegas, de todos que de alguma forma lhe serviram como referência do que não era, do que nunca seria. De nada havia adiantado a solidão. Não sabia lidar com a coisa. Não sabia o que sentia, quem era, o que seria, mas sabia que não podia e não queria mais voltar para si mesmo, porque lá, no berço, seria desmascarado, confrontado em breve com algo de que ainda queria fugir, cobrado a cumprir um papel que sabia não era capaz de desempenhar. E fugiu: ao primeiro aceno, aceitou o convite para ficar, de vez.
Como toda fuga, especialmente tentando escapar de si, coisa impossível, não viveu nem a redenção, nem o renascimento, nem foi capaz de vislumbrar dias felizes, mas apenas horas cada vez mais tristes, mais sufocantes, cada dia mais solitário no meio de um deserto florido para muitos e cada vez mais seco para ele. Pelo menos, agora estava a salvo das línguas maledicentes, dos olhares que o condenavam sem direito ao contraditório, à defesa pela voz do coração. Também, eram tempos de ditadura, e direito era coisa que não havia para ninguém. Valia, apenas, a verdade dos donos do pedaço. E ele não era nem dono, nem empregado, não era ninguém. Não era menino, nunca seria homem. Era um ser estranho. Bonito por fora, sofrido por dentro. Foi levando, foi sobrevivendo, conquistando o pouco que sua baixa autoestima não conseguia evitar que conquistasse, embora se esforçasse, jogando tudo sempre pro alto, para que o deixassem quieto consigo, abandonado.
Fugiu de todos, mas não conseguiu, ninguém consegue, fugir de si. A cidade natal ficou, ele também não foi.

Entregou-me o texto, pediu minha opinião.

— Gostoso de ler, mas triste. Você anda muito melancólico. Coincide um pouco com a sua história, se não me engano. A minha também não é muito melhor, você sabe…
— Não coincide. É minha história, meu caro. Ou melhor, um fragmento que conta o dia em que saí do berço.
— E por que isso agora?
— Por nada. Lembranças que me vieram ao ouvir os erres fortes, puxados, que ouvi ao sintonizar, meio num acaso buscado, a TV da minha (minha?) cidade, o sotaque que um dia também foi meu, os sons e a mesquinharia das pessoas que faziam parte da minha cultura mais primitiva. Sete de setembro sempre me traz melancolia, uma vontade de fugir de tudo, aquela tortura de ter que marchar pela avenida, sendo observado, me sentindo ridículo num papel sem sentido. E meus dedos buscaram a TV na Internet, e ouvi, e vi, e lembrei, e me revi.

Sabia que, ali, naqueles sons da fala forte do locutor da partida de futebol da Série D, no sotaque daquela gente que era sua, estava uma parte dele mesmo. E como era bom se sentir parte de uma gente, mesmo que ninguém soubesse, embora nunca ninguém jamais viesse a saber que um dia estivera por lá, se um dia amou ou foi amado, se sofreu ou foi desprezado, se deixou lembrança ou só esquecimento…
Fugiu, e nunca mais se encontrou. Porque, agora sabia, não havia, nunca houvera nada a ser encontrado.
E esse foi seu grande encontro. Independência! Sem morte. Finalmente!

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8 respostas para Independência sem morte (Lembranças de uma fuga)

  1. teve momentos que parecia que vc estava falando de mim…

  2. As pessoas têm muito mais em comum do que podem supor…

  3. Cesinha disse:

    É, amigo… você demora, mas quando escreve consegue arrebatar. É muito sentimento condensado num texto, muita dor, muita angústia. E, de tão concentrada, acaba se tornando lírica, como num passe de mágica. Em menor proporção, eu já senti isso, algumas vezes, sozinho em São Paulo, lembrando de BH, de quando eu sai de lá. A diferença é que eu sempre voltei, sempre volto… embora saiba que já não pertenço mais a aquele lugar, nem aquele lugar me pertence mais também…

    Beijos.

  4. Lucas disse:

    Querido, que texto emocional! Águas aparentemente calmas que escondem tanta tristeza. Penso que não conseguimos nos desfazer de nossas experiências. Elas são carregadas por nossas almas e onde quer que vamos, elas sempre estão lá conosco. Mas isso você sabe, pois consegue transformar essas lembranças amargas em doces palavras para nossos olhos. Ao final da leitura a única vontade que senti era te dar um grande abraço, daqueles bem apertados e que tem o poder de passar algum tipo de boa energia… de verdade!

    Beijos.

  5. De alguma forma, superamos, né?!
    Talvez, à distância,a todas as experiências acabem sendo um pouco doces. Um pouco mais, pelo menos, do que eram quando experiências, e não apenas, mas intensas, lembranças…
    Me senti abraçado! Recebi sua boa energia! Retribuo, com carinho!

    Beijos

  6. Anônimo disse:

    Alex….. tudo bem?…. Volte logo…. esta demorando, sumiu.
    Beijos querido

  7. margot disse:

    não é anonimo;;… sou eu. Margot

Comentários

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