um menino que gostava de meninos – 3

Entrado na adolescência, vivi uma breve porém marcante história de bullying. Falar sobre isso é como jogar uma pedra fora, no lago. Pois bem… Passando à quinta série, tive que me mudar para uma escola pública. Não, nenhum preconceito. Ao contrário, o ensino lá era bem melhor do no colégio privado em que fui alfabetizado e onde cursei as primeiras séries. Os tempos eram outros. Agora eu sofreria o incômodo de colegas que, na média, eram bem mais velhos. Eu entre dez e onde, muitos deles já passados dos quatorze, bem mais definidos sexualmente e entendidos em mistérios que eu só sabia pelo primo, naquelas preleções que me havia feito durante as brincadeiras sobre as quais comentei no início. Sabia que aconteciam, mas até então não imaginava que fossem práticas e comportamentos generalizados. Pra mim era exceções de alguns que se atreviam por estradas secretas. Praquele menino assustadinho que eu era, fazer sexo era exceção, depravação, coisa errada, mas nem por isso pouco atraente, confesso. As pessoas certinhas não faziam nada daquilo… Hoje acho que não daria pra imaginar alguém assim.
A convivência com gente mais velha é coisa complicada, ainda mais na adolescência. Se você é menor ou mais fraco, passa a ser vítima daqueles que, desde muito cedo, têm necessidade de exercitar possibilidades ditatoriais. E o fazem com os únicos recursos de que dispõem: o tamanho, a força, já que inteligência verdadeira, inclusive emocional, costuma ditar comportamentos bem diferentes, ações em outro sentido que não o da agressão física ou o terror psicológico. E isso vale também para crianças, adolescentes, adultos.

Entre doze e treze anos,

Henry Scott Tuke - Boys bathing on Rocks

havia um colega na turma, Tadeu, que resolveu me “pegar pra cristo”. Nunca soube o motivo. Acho que não era nada pessoal. Ia pegar a primeira presa que estivesse ao seu alcance. Tentou e quase conseguiu fazer de mim seu saco de pancadas, objeto de piadinhas, como autoafirmação diante dos demais. Era só um ano mais velho, mas fisicamente bem mais desenvolvido. Do nada, vendo minha aparente debilidade psicológica, resolveu me tachar “veado e broxa”. – Broxa, fulano é broxa! Bem, “veadinho” eu já tinha aprendido o que era, embora ainda tivesse idéias um tanto equivocadas a respeito, mas essa agora: — Broxa? Que diabos seria aquilo? Coisa boa eu sentia que não era, claro. Pois esse colega resolveu dizer pra escola toda que eu era broxa. Demorei algumas semanas para entender o que significava. E fui ficando cada vez mais intimidado do que já era. Ele tentava provar, publicamente, diante de todos, se esfregando em mim, que eu era um broxa. E, como eu, de fato, não reagia às suas investidas, comprovava cada vez mais suas afirmações. Até que uma boa alma me explicou o que significava aquela palavra e concluí que ele tinha mesmo razão. Afinal, o normal… seria endurecer o bilau, mesmo naquelas condições. Homem nunca nega fogo, diziam aqueles escrotos…
E assim, esse garoto quase rapaz, que algum tempo depois vi, no vestiário da escola, nem pelos tinha ainda, me torturou pelo resto do ano, meses intermináveis. Não podia me ver e já vinha com aquela sacanagem. No recreio, voltando da escola em plena rua… coisa pra humilhar mesmo… E eu cada dia mais encolhido… mais amedrontado. Fosse eu mais velho, mais violento e tivesse acesso a armas (Elefante, o filme…, Columbine… dá pra entender?), talvez tivesse dado um tiro na cara dele… não duvido nada. Mas não tinha como reagir. Reagir nunca foi minha praia. Pensar em matar muito menos, nem uma cobra. Só baratas. – Um broxa! A coisa chegou ao ponto de ele, numa aula de educação física, todos sentados na quadra fazendo um alongamento, arrastar-se sentado, de costas, em minha direção, até insistentemente esfregar seu traseiro entre minhas pernas e gritar: — Olha como ele é broxa! Não reage, não faz nada. – Me come, fulano… ahahaha.
Meus conhecimentos rudes de então diziam que “veado” era o sujeito passivo na brincadeira, não o outro. Então, nesse lógica de então, “veado” era ele, não eu, que não reagia a alguém tão disponível… Mas por que diabos a patotinha caçoava de mim e não dele? Porque apoiavam Tadeu e ajudavam a me ridicularizar? Seria só porque ele era maior e filho de gente importante na cidade? Por ódio à minha pessoinha? Nada disso fazia sentido. Eu era inofensivo, irrelevante … Nunca vou entender. Talvez nem Tadeu saiba por que fazia aquilo. Há tempos que vejo isso podia ser atitude de um típico enrustido… Mas, no caso, um exótico enrustido, que assume vontades passivas para ridicularizar quem ele tentava comprovar ser broxa. Estratégia, no mínimo, arriscada…
Mistério maior ainda é saber por que eu era incapaz de reagir. Admito: era mesmo incapaz; em sentido figurado, porém um broxa, como ele dizia e apregoava cada vez pra mais gente. O fato de já ser um punheteiro, e portanto conhecer um pouco de minha fisiologia na vida privada, não atenuava aquela sensação, aquela certeza absoluta: eu era um verdadeiro, um acabado, definitivo, broxa!
Essa tortura levou meses. Nas férias de final de ano, que duravam três meses, minha preocupação se transformou numa tortura solitária,

Henry Scott Tuke. Nude on the rocks.

constante. Vivia torturado: — Será que vou ter que enfrentar esse cara de novo? Meu Deus, dá um jeito dele mudar de colégio, morrer, ir embora daqui, sei lá… Passei a evitar até a rua, para não encontrá-lo, para não ser visto, por ele ou por algum de seus cínicos comparsas. Mas e quando a escola voltasse? Deixar de ir à escola eu não poderia… E como falar pros meus pais? O que contar a eles?
Comecei a sofrer uma puta dor nos olhos por causa do nervosismo, da tensão que enfrentava em silêncio. Sobre essa dor, tive coragem de conversar com meus pais, sem dar motivo algum. Sem dizer o que de fato rolava na minha cabeça. O medo que eu estava vivendo. Mesmo com tanta falta de recursos, meu pai me levou a um oftalmologista, numa cidade próxima, pra fazer um exame e ver se havia algum problema nos olhos… O médico me examinou, olhou, perguntou… revirou. Não detectou nenhum problema. Nos olhos. Mas era homem, pai, e deve ter percebido que alguma coisa estava me pegando… Dispensou-me da sala e pediu que meu pai entrasse, sozinho. Conversaram. Eu, lá fora, esperando, fiquei intrigado… — O que será que ele terá descoberto nos meus olhos? Não era nada. Esse médico, um santo cujo nome nunca soube, que nem deve mais estar entre nós, disse ao meu pai que meu problema era tensão. Que eu estava vivendo pressões e apreensões normais do início da adolescência, e que ele deveria me colocar pra praticar algum esporte, que isso aliviaria a cabeça e o corpo responderia… e naturalmente aquela dor desapareceria. Tava certo. Mas não foi a prática desportiva, e sim o afastamento de Tadeu que toruxe alívio.
No ano seguinte, colocados em turmas diferentes, meu torturador resolveu me esquecer, certamente preocupado com coisas mais agradáveis, ou tendo descoberto uma nova e mais interessante vítima… Pelo menos esse tinha passado. Pela segunda vez, eu poderia voltar às ruas, mas não muito tranquilo. Nunca mais andaria sossegado pela minha cidade… Sempre veria um fantasma à espreita. Sentia vergonha até dos desconhecidos. Uma verdadeira paranóia… Antes, fugi de meu primo e seus asseclas. Era o veadinho. Depois, de Tadeu e seus cúmplices. Era o broxa . — Puxa vida! Quando isso vai acabar? Acho que só o dia em que eu fugir dessa aldeia!
Quem leu até aqui, talvez queira perguntar: — O que você faria se encontrasse, hoje, esse Tadeu?
Sinceramente? Gostaria de conversar com ele. Trocar idéias, como dois homens adultos, um gay, o outro não sei, sobre o passado. Entender porque ele fez aquilo. Dar boas risadas juntos, provavelmente, se ele me aceitasse como sou, sem novos deboches, resgatando um respeito que não houve quando adolescentes.
Sim. É isso que eu faria. Poucas coisas são tão libertadoras quanto você poder rir, sinceramente aliviado, de um passado que já foi motivo de tortura. Poder falar das coisas sem mágoas, raiva ou desejo de vingança. Saber que aconteceu e ponto final. Sentir que hoje eu conto com um homem pra me defender: eu mesmo! E que essas coisas não mais acontecem… Outras coisas, sim, mas aquelas, nunca mais…
Talvez esse episódio tenha contribuído pra me transformar num sujeito muito defensivo, medroso… Afinal, ninguém passa incólume pela vida que levou… Vamos aprendendo a transformar feridas em cicatrizes. E, com o tempo… vamos fazendo uma plástica…

Anúncios
Esse post foi publicado em Autoficcção, Sexualidade. Bookmark o link permanente.

12 respostas para um menino que gostava de meninos – 3

  1. Já havia lido esse texto antes e agora o fiz novamente…

  2. fred disse:

    Publica, publica, publica!!!
    Show de bola… como já disse – e repito sempre – vc é “bom de ler”… 😉
    Bjs!

  3. Alex, que texto! Quase pulei para a tela para dar a mão ao menino assustado. Mas não seria preciso, não é? A vida nos põe à prova, nos intimida, nos fere, mas também nos ensina e fortalece. Um presente ler um texto assim.
    Ana

  4. Sou deligada… só agora vi que tem o 1 e o 2. Comecei pelo 3 e nem percebi. Depois que ler os outros, comento. 🙂

  5. Margot disse:

    Ainda inocente…rsrrs. Algumas crianças e adolescentes tem uma caracteristica latente, a crueldade, Parece que vc se encontrou com varios do tipo…. e continuou inocente.
    Tive vontade de ver esse caramada hoje também……ia me arriscar a levar uns tabefes…mas ele ia escutar um sonoro: “BICHA ENRUSTIDO”…rsrrs… Sem paciencia para quem esconde o que é, e maltrata os outros por serem exatamente o que são, e não tem coragem de assumir.
    Beijos Alex….

  6. Margot, quando uma criança, ainda antes da adolescência, já dá sinais de maldade, algo muito ruim está por vir, principalmente se nada for feito. Meu algoz de então, creio, nem foi tão algoz. Continua lá, na minha ex-aldeia, hoje cidade média.
    Sem dúvida, foi mau, mas nem foi o mais mau de todos.

    Há histórias cruéis, todos conhecemos, que nos marcam para toda a vida… E não só de coleguinhas, mas também de professores, pais, irmãos etc, etc….

    Claro que a pergunta que sempre me vem é: e se tivesse sido um amigo, e não um algoz? Que homem seria eu hoje? Claro, nunca saberei. E como dizia o poeta… tudo vale a pena…
    Eu, hoje, tento enlarguecer a alma e minimizar tudo isso.
    Sobrevivência!

    E como é ruim, a gente guardar a memória dos maus…
    Pelo menos, já me livrei da raiva.
    Um dia me lembrarei dele com carinho.
    Pois me ajudou a ser um homem melhor do que eu seria.
    Será?

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s