um menino que gostava de meninos – 5

No inverno, nosso chuveiro mal esquentava a água. São cinco da tarde, o dia frio, vou logo ao banho, antes que o sacrifício fique maior ainda. Fecho a porta, sozinho, não fosse pelas imagens impressas na memória recente, quase fantasmas que resolveram me acompanhar pra todo lado. São sombras que me trazem prazer, decepção e medo. Prazer pelo que vi. Decepção pelo que ainda não sou. Medo de nunca ser igual aos outros. Tiro a roupa, e as revelações trazidas pelos corpos nus que vi secretamente maravilhado ainda me contorcem. Descobertas que procuro digerir sozinho; não tenho com que dividir nada, a quem perguntar. Quem poderia me esclarecer, provavelmente, penso então, ou me censuraria, ou me ridicularizaria.
A lembrança dos colegas mais velhos, e mesmo de alguns mais novos um tanto precoces, me levam a pensar que a minha hora também chegaria, a hora de me tornar homem, fisicamente, deixar o corpo de menino. Se eles têm, eu terei um dia… Se é assim, então, meu dia também chegará! Mas onde estão meus pelos? Por que tardam tanto? Você, leitor, estará pensando: — Que guri idiota! Mas cada um é um. Pra mim, naquele momento, e ao longo da vida, a questão da identidade, começando pela física, seria determinante de muita coisa. Dei a isso uma importância maior do que tinha, você está certo. Talvez esse seja o cerne dessa quase autobiografia, dessa visitação ao passado para compreender um pouco mais o mesmo passado, já que o presente, bem, agora já sou adulto, quase velho, isso já não importa mais. Naquele momento, porém, era assim que as coisas andavam. Só, com muitas dúvidas, muitos medos, que foram se cristalizando.

Fico imaginando como seria se estivesse não no banheiro rústico de nossa casa, mas lá no vestiário tosco do colégio, no meio daqueles fantasmas. Imagino meus colegas me olhando. Como será que me veem? Vamos ver! Subo no vaso sanitário para alcançar o espelho e poder espiar meu corpo. Pela primeira vez, de frente, de lado. Eles me olham. Nada dizem, apenas olham, sem expressao, em silêncio e nem tão secretamente. Volto à realidade. Um corpo branco, pouco mais do que um anjo barroco. Decepção. Esse anjinho não caberia nem num afresco, penso … Excitação. Sei que não é de frio. Olho meu corpo, desejando que tenha pelos, de uma vez por todas, pelos! Que eu me torne um homem como os outros; que eu possa também ousar coletivamente a nudez, sem medo. Se não ridicularizado, já estaria muito bom. Desço. Termino o banho.

Nos dias seguintes, novamente o mesmo ritual, que vai ficando cada dia mais frustante, quanto mais insistentes se tornam as repetidas visões no vestiário do colégio. Definitivamente sou diferente! Nessas visões, começo a sentir prazer em me ver no espelho. O prazer que me proíbem ter com a imagem dos mais velhos no banho depois da aula, sinto agora me olhando sozinho… Falta algo, claro, mas é o que tenho. Um prazer que rompe algo proibido, que vai me tomando, sem nenhum outro pensamento, a imaginação solta, só a vontade de ser mais um, apenas igual. Começo a brincar com ele, a fazer aqueles movimentos de vaivém que já vira tantos insinuando… E que até já chegaram a me perguntar se eu também fazia, quantas vezes ao dia, e eu sempre mentindo: — duas ou três! Mentira: não fazia, nunca fizera. Mentirinha para não se mostrar um ser de outro planeta, que era o sentimento que me perseguia. Comecei a gostar. Nunca tinham me dito que aquilo era tão bom! Nas primeiras vezes, a mão não mostra a que veio. Insisto, e lá pelo terceiro ou quarto dia já sinto um calor estranho, muito bom, que se espalha pelo corpo desde o meio das pernas, tomando conta de tudo. – Ah, então esse é o segredo!

Vou ficando cada vez mais angustiado e insaciável com a descoberta, cada dia mais viciado naquela brincadeira boa de não acabar mais. Solitário de fato, mas coletivo na minha imaginação. Pensamentos nada puros, penso. Pecador. Vou pro inferno. Não posso. Tenho que parar com isso. Idéias do verdadeiro falso anjo que se vê no vestiário, podendo mostrar, ver, sendo visto, numa catarse coletiva, sem medo, sem deboches, sem piadas. Respeitado. Um entre os iguais.

Um novo hábito, uma nova conquista, que segue, interminável. Semanas, meses, sem que nada de extraordinário aconteça. Nem precisava. Pra mim, aquele ritual seria sagrado desde então. Diário, repetidas vezes. Sempre com minha figura no espelho. O que sentia pra mim era bom e bastava. Tinha aprendido a sentir tesão por mim mesmo. Prazer na solidão.

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4 respostas para um menino que gostava de meninos – 5

  1. fred disse:

    Prazer na solidão?!? Taí uma coisa rara e que poucos conseguem ter. Mas eu tenho… às vezes!
    Café de sunga tomo só no verão… mas de cueca tomo todo dia… hahaha!
    Beijos!

  2. é, prazer na solidão era o q eu devia ter descoberto há anos…

  3. Margot disse:

    Incrível como se faz a relação entre prazer e pecado. Incrível e pavoroso. Porque?, me diga porque Alex, nosso corpo seria fonte de prazer e de pecado aos 12/15 anos. Somos ensinados e doutrinados desde muito cedo. Doutrinados para relacionar o bom, o prazer……ao inferno, ao castigo.
    Poderiamos ser tão mais felizes, mesmo na solidão, se nossa mente mente soubesse do amor e não da dor, se pudessemos ser claros como a agua e não turvos…. Nossos pensamentos se tornam turvos…e consequentemente… nossa vida.
    Quando aprendemos a “clarear” a vida, o estrago ja esta praticamente feito. A juventude e impeto…ja se foram.

    Beijos

    • Repressão, medo, medo, autorrepressão…
      Escrevendo essas minhas histórias, que são parte da minha verdadeira história, começo a ver que o medo sempre me dominou, paralizou…
      Mais do que o pecado, o medo da felicidade…

      Beijos

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