leitura indiscreta

O dia era claro, apesar da neblina densa. Tínhamos tido uma noite chuvosa, tempo fresco, mas o frio já tinha ido embora. O quase coquetel tinha me tirado de órbita e acordei próximo ao meio-dia. Na varanda cercada de vidro, cheguei com o café numa as mãos, um pãozinho amanhecido e meio murcho na outra. Sentei na poltrona ao lado dele, estranhei. Estava lá, com o laptop nas pernas, lendo. Ele sabia que eu rascunhava alguma coisa, publicava em algum lugar na Internet, coisas que ele sempre preferiu não ler, talvez por aquele discreto medo de invadir a privacidade do outro, talvez medo de não poder mais fazer de conta que não sabe o que preferia nunca saber. Ver o que o outro talvez nunca quisesse contar, mas que sabe inevitável mostrar, cedo ou tarde, quando a vida os mantém juntos. Em mim, o medo da insignificância revelada. Nele, não faço ideia!
Fechou a tela, encostou o computador, foi buscar um café. Voltou, sentou, me olhou fundo.
– Interessante. Fui lendo e vi em cada frase uma verdade sua, os caos de cerâmica do teu próprio piso, que eu sempre senti, mas nunca tinha visto com tanta nitidez. Muito verdadeiro tudo isso, que sempre esteve, que ainda está em você! Nem precisa me dizer que não é invenção. Simples e verdadeiro.
— Não ia inventar. Não tenho imaginação pra isso. Faz parte da minha história, só isso! Da formação, explica a parede que construí e que está aí, como cheguei até aqui. Muitas vezes olho e não gosto, mas não posso mais fugir de meu próprio olhar. Definitivamente, preciso olhar e conseguir ver algo além da neblina, um vulto que seja. Ainda tenho muito o que cavocar.
— Não sei por que você escreve… mas se faz bem…
— Faz bem, isso faz, demorei a entender isso. Comecei pensando que fosse brincadeira, e acabei entendo que estava redesenhando o bordado já vivido. Ajuda a lavar o chão, juntar os cacos, pra usar a mesma figura, chão talvez sujo, que talvez ainda possa ser limpo, pra eu talvez não mais escorregar tanto. Ou talvez para levar um tombo de vez e não levantar mais. Sorrio, como se realmente desse pouca importância a tudo. Pode não ter, e acho que não tem mesmo valor pros outros, nem faz sentido, mas tem pra mim. Ok, poderia escrever e deixar no meu computador, mas colocar ali no blog é como se eu soltasse as folhas ao vento, que podem ir parar no lixo, na sarjeta, no córrego, serem molhadas pela chuva, apagadas pelas águas, talvez até lidas por algum desavisado, mas fico com a sensação de que não escondi de mim. Não sei se faz sentido pra alguém, pros outros. Faz pra mim. É como abrir a janela e saber que quem passa lá fora não me vê, nem mesmo vai olhar pra cá, mas eu estou aqui, visível! E é isso que importa. Parei muitos meses, tinha largado tudo isso pra lá, mas agora quero ir adiante, ir deixando os dedos desenharem o que bem entenderem, que me mostrem o que me vai dentro e nem eu mesmo sei. Uma autoterapia. No momento, é o que me ocorre. Escrevo pra mim mesmo. Depois que comecei ando voltando no tempo, revisitando minha aldeia, vendo a hoje cidade alheia à minha passagem, o eu que poderia lá ter sido, compreender que o que fui, o que sou, se deve apenas aos meus próprios cacos. Gosto de ver isso. Outras possibilidades que lá se realizaram, que lá permaneceram; as possibilidades alheias tão distintas e tão indiferentes ao que eu lá teria sido. Encarar a verdade definitiva que o que sou não é culpa do lugar, nem das pessoas, mas da minha história, apenas. Ou do que fiz com ela.
— Melancólico isso…
— Um pouco. Eu exagero, sempre! Você sabe que limpar o piso é possível, mas não haverá, espero, o tombo. Só o final. Que não sabemos nunca quando virá. Sei lá se não sabemos mesmo…
Acabei meu café, já era quase uma da tarde. Fomos ao cinema.

Anúncios
Esse post foi publicado em Autoficcção. Bookmark o link permanente.

10 respostas para leitura indiscreta

  1. Não sei o dizer aqui e agora … vc invadiu toda a minha existência e, com suas palavras me deixou nu … uma total insegurança me invade aqui e agora … mas vai passar … sim vai passar … tenho q ler, reler. mais uma vez e mais outra … refazer o meu chão … um novo chão … o velho você me roubou com suas palavras …

    Alex! Não sei o q dizer aqui e agora …

    bjão

  2. Margot disse:

    Preciso ler de novo…. diz mais do que diz.
    Beijos Alex

  3. Não, Margot, acho que é só isso aí mesmo!
    Falar sobre a gente mesmo, cavocar a alma que pede pra ver o dia!
    Beijos

  4. valei-me quanto paradoxo em um texto. adorei.

  5. fred disse:

    Acho que levo um tempo pra absorver tudo isso… até pq sou como a Margot: gosto das entrelinhas! Hehehehe! Intenso, mon ami… intenso! Bjos!

  6. fred disse:

    Um homem criado a paçoquinha tem o seu valor, hein? Hehehehe! Caríssimo, adorei tua dica sobre um post com marcas de roupa… vai render… aguarde… hehe! Bjos e boa semana!

  7. fred disse:

    Paçoquinha é de amendoim… logo, dá vigor! E combinado: sem calcinhas. A não ser que peçam, claro… hahahahahaha! Bjs!

  8. driftin' disse:

    «– Não sei por que você escreve… mas se faz bem…»

    Pensava que, ao escrever, estaria mais perto dos outros. Depois deixei-me disso!… Foi quando me apercebi de que as minhas palavras não significavam, para eles, aquilo que elas próprias “gritavam”. Acabei por me habituar a escrever para mim – a utilizar as palavras como quem abre uma janela e se surpreende com o verde dos salgueiros quando chega a primavera ou, então, quando o sol caminha para o ocaso e as ruas estão cobertas com as folhas da cor do cobre. Da cor do mel…!

    Escrever, se calhar, é caminho mais curto para exercitar a construção dos monólogos. Não são necessários os atalhos para nos aproximarmos da solidão!…

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s