sexta-feira fria

excitação pelo desprezo? desprezo pela excitação? … uma cena tola e rápida de um quotidiano banal …

São quase nove e meia da noite quando ele entra no salão. A academia está vazia na sexta-feira fria. Tem seus trinta anos, é aquele tipo de homem que não chama a atenção pela beleza, nem pela estatura, nem pelo rosto que não é belo, nem pelos olhos profundos, mas por algum mistério que não se explica, apenas excita, intriga, atrai. Não passa sem ser percebido, nunca. Algo nele me dá a certeza que gosta, que é gente que faz (*). Ou eu quero que seja, preciso acreditar. Mas não basta gostar, tem que se interessar. E ele é discreto, quase medroso, não dá mole. Quinze minutos e ele sai, desce ao andar de baixo. Fico na dúvida se vai malhar ou segue direto à sauna. Sei que ele anda por lá; já o vi antes. Não irei agora, não vou me comportar como tiozão desesperado. Antes quero terminar de ver o GloboNews Literatura sobre a FLIP. Não acrescenta grande coisa, mas sempre dá algumas referências pra buscar depois. TV, definitivamente, não me encanta, e não é preconceito, é dificuldade com o veículo em si, onde as coisas são muito rápidas, tudo escoa como veio, pouco me fica. É o melhor que posso fazer para passar o tempo e aguentar corrida e caminhada alternadas, num lugar vazio, sem beldades para admirar, frio, e com aquele tuncstunc repetitivo e sem sentido que confunde academia com boate improvisada.

Alguns minutos mais e entro na sauna. Ele, claro, ainda está lá. Pena que, antes de mim, entra o rapaz da limpeza, que passa por ali todos os dias a essa hora, final de expediente, antes de pegar o busão. Este é mais jovem, usa a cabeça raspada. Nada contra, mas não gosto do tipo, insinuante demais. Mas o primeiro presta atenção no careca. Sento entre os dois e encaro o primeiro, que já estava lá antes da gente. Desta vez não espero muito para observar atentamente seus sinais. Finjo displicência no olhar, mas fulmino o que quero ver. Ele cruza as pernas, põe a canela de uma sobre a coxa da outra, deixando o campo livre para observação. Vejo claramente a alternância do volume, que acontece rápida, em segundos. Ele se excita, não totalmente, mas é inegável o aumento. Tenta esconder e não me fica claro se é pela situação ou pelo cabeça-raspada. Meu batimento cardíaco se acelera, começo a perder o controle, respiração curta. Algumas apalpadas, ele nada, apenas descruza as pernas e deixa à mostra o enchimento, numa linha lateral e quase reta na sunga. Finge uma naturalidade e displicência que só passaria ao largo se não fôssemos, ambos, do ramo. Faz cara de incômodo. Ou será de moço pego com a boca na botija? O cabeça-raspada finalmente sai, mas é tarde. Um minuto depois, ele também sai. Ao contrário do outro dia em que o vi, não se expõe no chuveiro. Sai, espera o cabeça-raspada, um indiferente ao outro.

Ele retira a toalha. Eu o contemplo lá de dentro pelo vidro embaçado. Finjo que não vejo, ele finge que não mostra. Eu sei que ele exibe, orgulhoso; ele sabe que eu estou atento. Agora, longe, ele pode representar que tudo não passa de uma situação muito natural, que não há nada intencional. Quer que eu veja aquilo tudo, muito rápido, num recado claro: é bom, é bonito, mas não é pra você! Te excito e te deixo! O cabeça-raspada vai embora. Ele ainda fica secando os cabelos. Eu continuo na sauna. Assisto à cena. Ele se vai. Eu fico.

Palpitações, vontade, frustração. Vou embora com um misto de excitação (a descarga de adrenalina… ufa!) e sentimento de rejeição. Não me lembrava de uma sobreposição tão clara das duas coisas, tão serenamente excitante e desconcertante, mas hoje foi assim. A rejeição, suave e discreta, embora certa, não foi suficiente para apagar o lado bom da experiência breve. [ok, se você, leitor, é um daqueles chatos que ganha todas, já deve estar perguntando: experiência? qual? dê você mesmo a resposta; a percepção do que é real e do que é imaginário, às vezes é algo muito pessoal] Alguma coisa me remete à infância. O dia começou com essa sensação, falando sobre a infância, primeiros encantamentos, antes mesmo de saber que sexo existia, e termina com algo muito parecido. Procuro identificar que pensamentos estão comandando a situação, determinando os sentimentos. Excitação. Queria. Rejeição. Não deu. Frustração. Não dará. Bola pra frente! Só me resta escrever, pra não deixar passar o momento sem registro. Sei que nos encontraremos outra vez. E, rejeição ou excitação, uma das duas prevalecerá, fortemente, mas as duas… suaves e sobrepostas, não mais! Não com ele, por ele.

(*) “Gente que faz” era o slogan de uma campanha publicitária institucional do antigo Banco Bamerindus (comprado pelo HSBC em 1997). Apresentada aos sábados antes do Jornal Nacional, mostrava pessoas socialmente empreendedoras, autênticos líderes comunitários, associando-as à imagem do banco. Expressão que acabou incorporada à fala comum, usada para designar um homem que, apesar dos disfarces, gosta de fazer sexo com outros homens. Um homem que faz!

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7 respostas para sexta-feira fria

  1. e quem nunca passou por isto né? este sentimento duplo de excitação e rejeição é extremamente incômodo … mas, como vc, aprendi a lidar com isto. é assim mesmo … olhar pelo lado bom e curtir … sim … curtir uma única vez com aquela pessoa … de outra vez ele é q vai se frustrar … ficará lá com seu sentimento de exibição pois receberá meu olhar de egípcia e meu ar de desdém … mesmo q a excitação me aguce …

  2. Sábio comportamento. Quem quer, quer; se não quer, outros querem, a começar por mim mesmo! Jovens, queremos tudo muito rápido, sem tempo para a contemplação do belo, nem para se permitir ser contemplado. Confunde-se o prazer da simples fruição visual, adrenalínica, com o querer concreto, tangível, fundo!
    Enfim, comigo também, é uma vez só. Liberdade para não gostar, liberdade para não querer ser visto, liberdade para desconsiderar. De todos!
    Abração, Paulo!

  3. que texto maravilhoso, amigo, que texto magnifíco, gostaria de tê-lo escrito, muita inveja.

  4. fred disse:

    Mazááááá… agora tá funcionando! E daê? Escutou o Father Tiger ou não? Bjs e boa quarta!

  5. Gera Souza disse:

    Adorei o texto muito bem colocado!! Lembrei-me perfeitamente do “Gente que faz!”..hehehehehehe……Cansei de passar por situações desse tipo, em saunas e fora delas…já me adaptei. Principalmente porque descobri com o passar do tempo que, esse é o lado negro do nosso mundinho! Existe mundo normal lá fora. O que me faz acreditar que o mundo real é diferente? O fato de que fui muito mais aceito, mais desejado do que rejeitado! Então, sabe o que fazer nessas horas? Sacudir a poeira dos pés, ajeitar a peruca e ir tomar um belo milk shake! Não desista você é the best! Beijão

    • Verdade, Gera. A gente não pode se prender ao eventual desprezo ou indiferença de alguém que julgamos “interessante”. Bem ali fora, no mundo real, poderá ter alguém ainda muito mais interessante esperando por nós.
      Na cidade onde moro, as pessoas desse mundinho adoram dar carão. Em cidades como Florianópolis, por exemplo, eu me sentia muito mais observado e desejado… Vai entender!!
      Bjos

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