Sobre paixões e a paixão por Ivan – II (fim)

um texto meio sem sentido, pra encerrar a memória de uma paixão não vivida.

Alguns dizem escrever sob inspiração. A maioria dos profissionais da escrita, porém, diz que utiliza a técnica. Não acredito neles. Certamente, ambas, inspiração e técnica, são necessárias. Quando você não é um profissional da escrita, espera que lhe chegue um momento, um motivo especial, bom ou ruim. Eu, sem conhecimento de técnicas, fico sempre à espera de um desequilíbrio qualquer, esperando um santo que nunca baixa, um momento de alteração para poder escrever. Às vezes esse momento não vem, mas a necessidade pede.

Hoje o meu momento nem é bom, nem é ruim. É só consumido por uma simples vontade de passar a limpo, jogar fora alguns papéis velhos, espanar a poeira da memória, tentar passar a régua, encerrar um capítulo, dar destinação a um desses volumes que, sem sabermos, ocupa espaço na estante e não permite que aproveitemos o jantar que já está na mesa há muito tempo nos esperando ou, mais logicamente, nos impede de guardar novos livros, novas experiências, em nosso arquivo infindável … .Ainda que se trate de um capítulo imaginário. [esses são os mais difíceis] Quando rascunhei o primeiro texto sobre paixões e Ivan, há mais de ano, ainda imaginava que uma paixão não vivida seria eterna, mais eterna do que as vividas, que acabam se esboroando na realidade de nossos deuses despidos, descidos do Olimpo. Talvez sim, talvez não. Eu prefiro a segunda hipótese e, para colaborar, resolvo falar sobre ele, Ivan, uma última vez.

(**)

bernini_proserpina3

Ao contrário de outras paixões, infantis, esta foi uma das grandes, talvez a maior delas, uma paixão adulta. Desde o primeiro instante que o vi, sentado no minhocão (*), até nosso último encontro casual na entrada de uma agência bancária, nunca pude ficar indiferente. Se consegui fingir desinteresses outros, nunca saberei. Talvez muitos vissem em mim vontades que nem eu mesmo admitia. Era pessoa educada. Se não era do ramo, também não era homofóbico, atitudes que nos permitiram, sempre, conversas civilizadas. E foram poucas. Em nenhuma daquelas ocasiões, ao longo de quase três anos, meus olhares conseguiram fingir tenção para outra coisa além de seus grandes olhos negros, seu rosto com sobrancelhas densas, a barba cerrada de mediterrâneo quase recém chegado, suas costas, suas pernas fortes, viris, quase sempre descobertas pelas bermudas curtas com que frequentava as aulas na faculdade. Era bem mais novo… e como era lindo!
Nessa época, como talvez até hoje, não conseguia associar interesse sexual e arrebatamento. Vinham dissociados. Jamais tive ou me permiti uma fantasia sexual com ele, apesar do coração quase sair pela boca, numa taquicardia inexplicada, apesar de me sentir sempre quase bêbado com sua presença, feliz ao ouvir sua voz, curioso ao ouvir alguém pronunciar seu nome…

Tínhamos destinos muito diferentes. Ele seguiu sua vocação. Eu nunca descobri em mim vocação alguma e fui arrastado pelas circunstâncias de uma vida meio besta, meio sem sentido algum, pra mim e pros que me cercam. Uma existência que foi construindo um homem seco e agressivo. Talvez, se tivesse vivido minhas paixões, em especial a paixão por Ivan, seria outro homem. Certamente seria; mas não sou. E, hoje, quero apenas a memória do amanhã possível. Chega do ontem. Ivan não viu a uva. Alex não conheceu o mel. Nunca gozaram juntos o prazer de suas existências, de seu encontro. Ficaram ambos em algum lugar incerto e não sabido.

Fecho a cortina dessa peça! Que venham outras. Saberei, agora, apreciar melhor a paisagem!

(*) minhocão, pra quem não sabe, é o nome pelo qual é mais conhecido o edifício do Instituto Central de Ciências da UnB. Tem quase 700 metros de comprimento. No início, e até bem depois, praticamente todas as faculdades e departamentos se alojavam ali.

(**) O que tem a ver colocar essa figura, parte dO Rapto de Proserpina? Bem, é uma coisa muito pessoal. Quando, muitos anos depois, vi, ao acaso (fui à Galleria Borghese sem saber o que lá veria), essa escultura de Bernini, não me lembrei de Ivan. Mas vivi ali uma espécie de êxtase, um gozo da alma que me remetia às paixões não vividas, ou melhor, vividas, em mim. Portanto, pensando bem, reais!

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22 respostas para Sobre paixões e a paixão por Ivan – II (fim)

  1. ptolomeu1965 disse:

    Sem sentido???

    Tem todo o sentido para quem já viveu esse arrebatamento da carne e da alma!

    • Pois é, amigo, terá sentido pra todo mundo que já tenha vivido algo parecido…
      Ouso arriscar que muitos de nós todos…

      Obrigado pela visita!

      • ptolomeu1965 disse:

        Senhor, doce poeta!
        Discordo!….infelizmente poucos conhecem esse arrebatamento ou você não teria colocado O Rapto de Prosérpina de Berrini!
        Esse arrebatamento é para poucos!
        Afrodite, reina absoluta nos dias de hoje…..Eros foi reprimido desde o século XIX e arrebatamentos de alma e corpo é do mundo de Eros, muito esquecido e pouco entendido!
        bjs

        • Ok, meu caro, como hoje é sexta, e eu estabeleci um compromisso em minha terapia, uma tarefa pra semana, de aceitar uma vida mais agradável, vou me permitir tomar suas palavras!
          E como é bom receber uma mensagem como a sua!
          Grande abraço
          bjos

  2. Para mim faz todo sentido pois vivi isto por 4 anos e tb na faculdade … acho q em outro post seu eu falei isto … ou foi em outro blog?

    Sim, página virada! Agora fico com a sabedoria q o viver nos impõe … as palavras são suas … eu sigo minha vida assim … penso q vc tb já segue a sua tb assim … “E, hoje, quero apenas a memória do amanhã possível.”

    beijo grande Alex

  3. Adriano disse:

    Sabe uma coisa que eu tenho notado? Parece que seus textos estão sempre envoltos em névoa! E você como que tenta revelar as coisas, ao mesmo tempo que sempre joga um véu por sobre elas. Será que é só minha impressão, ou é assim mesmo?

    Você faz um jogo com as palavras, as imagens, que é lindíssimo, mas que no fim eu fico com a mesma sensação de neblina. Sabe aqueles quadros impressionistas? Que parecem que, a qualquer momento, as imagens irão se diluir apenas como cores que se evaporam? É lindo, realmente. Mas hoje tem esse detalhe da escultura do Bernini… forte! Real, concreta, táctil. Gostei demais!

    Abração.

    • Caro Adriano,

      nunca tinha pensado nisso! Interessante ver como o outro (você) percebe o texto. Você tem razão. No texto, ao contrário da vida, onde sou ríspido e direto, acabo jogando um véu. Me escondendo? Nunca me expus. Colocar-me como pessoa ainda é difícil, apesar de não ser mais criança. Meio que ainda não acredito que posso botar/escrever/ser e ser aceito!
      O jogo de palavras, a névoa, talvez sejam apenas tentativa de tornar mais palatável e interessante do que seria eu nu e cru! Mas apesar do véu, sou eu ali atrás!
      Porque, afinal, se ninguém ler, ok!, tá bem!, a gente escreve porque precisa, mas é muito gratificante ver como nossa mensagem chega ao outro. Se alguém como você vem, lê e gosta, me oferece um espelho novo, que faz toda a diferença entre escrever e ser ignorado e escrever e saber que poder ser legal!
      Isso torna minha vida melhor!, mais feliz!
      Apesar de toda névoa, espero que continue aparecendo! Me dá muito prazer! Aos poucos, que sabe, vou abrindo mais as cortinas…
      Obrigado!!
      Forte abraço.

  4. Bruno Garcia disse:

    Escrevo com sentimentos as vezes conturbados, mas que demonstram minha condição de um sincero sentimentalista, alguém que tenta entender o motivo de se buscar sempre um sentido mais profundo para a vida, apesar das névoas e dos embaraços! Também não uso técnicas…erro muito mas busco aprender, afinal tanto para escrever quanto para viver de uma forma mais humana é preciso sentir o que nos toca no íntimo! Abraços;

  5. fred disse:

    Daí neguinho vem e me diz que não sabe escrever, que não é bom com as palavras e mimimi… #façameofavor… hahahaha! Arrasou, meu filho! E que imagem caliente… ui! Bom finde! Bjs!

  6. como me identifiquei fácil com esse texto, vc deve imaginar como é fácil pra mim me colocar na sua pele ai né?

    • Estou certo disso, Foxx. Acho que todos nós passamos por experiências muito parecidas. A maneira de encarar e resolver pode variar um pouco, mas a motivação e os medos são muito mais comuns do que se pode pensar…

  7. fred disse:

    Tá falando dos atributos do Batman e Robin dos cartoons só pq ainda não viu eu e meu príncipe batatinha vestindo nossos trajes da dupla dinâmica… hahahaha! Bjs e boa semana! PS: Braccini recebeu nosso “mimo”… que bom, nzé?

  8. fred disse:

    Toda vez que senhor comenta sobre “excessos de tatuagens” eu – e minhas vááááárias tattoos – choramos lágrimas de puro sal… hahahahaha! Bjos! E a Fanta é Uva?!? Vc e Braccinão sabem tudo… hehe!

    • Eu ainda não vi as suas… tatoos, então, elas devem ser bem mais discretas. Nada tenho contra tatoos, só não acho interessante quando as tatoos cobrem quase toda a área livre do corpo… Mas se o cara curte e se sente bem, tem mais é que fazer, uai!
      E jamais deixaria de amar alguém por causa de uma coisa tão boba assim!
      Portanto, pode ir mostrando… hehe!
      Abração

  9. Latinha disse:

    Acredito que todos nós temos “um Ivan” por ai… ou quem sabe até mais… eu sempre brinco que não adianta ser vidente do passado, por isso, apesar de adorar os futuros possíveis, eu prefiro acreditar que você fez o melhor que podia na época.

    É duro mexer nessas lembranças, lidar com essas possibilidades não vividas…

    Um grande abraço!

    • Tenho muitas lembranças, mas hoje em dia nenhum machucando mais…
      Com o tempo, todos se foram. Apenas a lembrança. Escrever sobre eles, de alguma forma, leva ao encerramento dessas lembranças.
      Duro mexer, mas necessário, para entender, agora com a distância e o tempo…

      Grande abraço.

  10. Gera Souza disse:

    Descobri um tesouro, navegando pelas águas da web…. e que tesouro!
    Faço minhas as palavras do Adriano: “Você faz um jogo com as palavras, as imagens, que é lindíssimo, mas que no fim eu fico com a mesma sensação de neblina… como quadros impressionistas…” adorei e é claro viajei milhas e milhas….rsrsrsrsrs…beijão e continue!!

  11. margot disse:

    Alex…

    Ivan’s são como nuvens no ceu…. vemos, gostamos, apreciamos mas infelizmente (ou não), não estão ao nosso alcance…. São de substancia diferente da nossa, e toda a alegria que pode nos proporcionar é só visual, quando muito..olfativa e auditiva. Ivan’s existem para nos ensinar… como disse um amigo um dia…. São anjos que vem, nos ensinam e vão embora. Simples assim.

    Estranhei uma frase com a qual vc se desccreveu:
    “Uma existência que foi construindo um homem seco e agressivo.” …. No no no… vc está passando para o mundo real uma imagem falsa. Vc não é nada disso… sia logo dessa armadura e coloque esse homem maravihoso a vista. Rsrrsr

    Beijos

  12. dora disse:

    Se essa paixão não foi correspondida, porque vc escreveu sobre esse assunto agora? não entendí???????????

Comentários

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