Ricardo e suas insignificâncias

Uma história sem graça que insistiu em ser contada; casualidade reveladora

A primeira vez que Ricardo viu André, casualmente passando pela rua, saindo da quitanda próxima à sua casa, achou-o interessante. Jovem, corpo bem torneado, nem especialmente bonito, nem dono de qualquer feiúra. Passou, se olharam, reconheceu, mas não deu muita importância. Esqueceu.

Algumas semanas depois, estava Ricardo na farmácia da mesma rua, ia já pagando sua compra quando entrou André. A troca de olhares agora foi decidida. Aguardou na calçada. Conversaram. Ricardo, receoso de mais algum daqueles insistentes incidentes que sempre atrapalhavam coisas que lhe prometiam ser boas, avisou logo que iria ao trabalho ainda pela manhã, não teria muito tempo. Não foi argumento sólido para que nenhum dos dois desistisse. Seguiram até a casa de André, a poucos metros do comércio local.

Arte-Escultura-Itália-MICHELANGELO-DAVID-TORSO

Mal fechada a porta, as roupas foram sendo largadas entre beijos e carícias, até muito carinhosas para dois seres que praticamente não se conheciam. Ricardo sentiu, pela segurança de André, que era real seu desejo, que sua confessada preferência por maduros não parecia mentirosa. Despiu-se logo, assim André poderia arranjar desculpa e encerrar a peça antes da primeira campainha. Não desistiu, gostou, sorriu. Enquanto atendia uma ligação ao celular — que pareceu ser de alguém da família — foi tirando a pouca roupa que restava, já pronto para o assalto.

Quando finalmente pode contemplar aquela obra de arte em músculos bem definidos e pele lisa, cheirosa, com respiração curta, contornos macios, entendeu que estava diante do corpo mais próximo à perfeição que já vira ao vivo. Ficou atônito. Tentou a todo custo excitar-se, mas o ânimo que lhe ia no peito não chegou aonde deveria. André não desistia, tentou, mas Ricardo precisou dizer que estava realmente atrasado para o trabalho. Beijaram-se e Ricardo se foi, com promessas de ambos de se encontrarem com mais calma numa outra hora. Não sabia se voltaria.

Naquele dia, compreendeu que talvez já tivesse passado seu tempo do sexo sem amor, sem sentido, por puro e quase sempre insaciável desejo. Imaginou que talvez o tesão, sem avisar, tivesse passado a ser mais seletivo — coisa que nunca fora –, exigente, com nuances tão indefinidas que nem mesmo aquele jovem, o mais belo homem que já pudera ver e tocar, conseguiu coloca-lo na posição de franco atirador. Tentou novamente no dia seguinte alguém menos exuberante que André, com nova decepção. Desta vez, chegou ao fim, para não decepcionar o parceiro, mas foi um gozo que já nasceu apagado.

Precisaria de algum tempo para entender o que se passava com ele. Para aceitar a mudança, teria ainda que descobrir se estava diante de algo novo, se era de fato uma evolução exigente, querendo que doravante sexo só tivesse sentido com envolvimento, ou se continuava o mesmo indeciso e vacilão, que não se acreditava digno de um jovem de corpo monumental, carinhoso e que manifestava claramente desejo por ele.

Não sabia, ainda, se era já um velho ou se continuava o mesmo adolescente amedrontado e inseguro de sempre. Não encontrou a resposta. Decidiu não ver mais André, que ainda ligou algumas vezes, insistiu e poderá ter se sentido rejeitado. Não acreditava ser possuidor da exuberância mencionada por Ricardo, que continuava não se achando merecedor de “tudo aquilo”.

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34 respostas para Ricardo e suas insignificâncias

  1. Bruno Garcia disse:

    De minha parte posso dizer que reconhecer em nós mesmos as mudanças quando nos deparamos diante de uma situação deste tipo ou mesmo fora desse contexto é um mérito! Esta maturidade emocional pode se manifestar independente de idade física. Até o sexo : Fazer “Amor”…
    Beijos

    • Só gostaria, meu caro, de ter descoberto e feito essa mudança há mais tempo!
      Beijos

      • Bruno Garcia disse:

        Tudo tem seu tempo; Só quando estamos prontos é que podemos “enxergar” além do que nossa limitada visão nos permite! Ainda estamos presos aos instintos naturais e que fazem parte de nossa busca por um sentido mais profundo dos atos praticados, mesmo que estes não sejam totalmente revestidos de sentimentos puros e isto é normal! Mas como se diz : “A fruta só cai quando amadurece”, é preciso que madura exale o perfume de tal condição, para que possa atrair quem de fato deseja saborear o gosto desta, em total plenitude e sabendo que o amor só acrescenta! O sexo em si é a concretização, a parte material de um sentimento entre duas pessoas que se amam, se refazem e trocam esta energia…é movimento positivo e sempre equilibra! Quando se chega ao ponto de não encontrar prazer em praticá-lo somente para satisfazer os desejos físicos é que acontece o desgaste emocional e a sensação de vazio se estabelece e aí nos questionamos a respeito! E quando percebemos isso é que estamos valorizando ainda mais nossa própria pessoa e a do outro, enriquecendo nosso caráter e passando a usar vestimentas uniformes, deixando antigas práticas lá atrás onde não cabem mais no momento presente e futuro!
        Beijos

        • Sim, tudo tem seu tempo!
          E é preciso que sejamos capazes de fazer com que esse tempo chegue,
          para que possamos ser mais merecedores da verdadeira vida.
          Essas coisas que a que só se chega mesmo superando algumas pedras,
          essas pedras que colocamos em nossos caminhos,
          imaginando trampolins o que são apenas obstáculos.

          P.S. Agrada-me ver que uma história, mesmo banal e sem importância, possa despertar
          tão nobres comentários!

          Obrigado!

          Forte abraço!

  2. d4rif6t disse:

    Sabe-se de André, não muito mais do que diz Ricardo. Talvez, quase por intuição, possa perceber-se um pouco mais nas entrelinhas de um retrato apressado. Seja como for, nada de muito significativo!…

    André é jovem – suponho que bem mais jovem!… Impaciente, se calhar. Pouco interessado em construir um puzzle quando lhe é oferecida a possibilidade de adquirir a obra por outras mãos executadas. Para quê folhear – saboreando-as – as páginas de um livro, quando é tão fácil ir até à derradeira?!…

    Ricardo é um sujeito maduro. Aparentemente duvidando de si mesmo, dos seus próprios méritos. Que méritos?!… Ora, alguns deve possuir! Optou, contudo, por outro parceiro, sem chama e, ao que parece, sem talento. Cinzento apenas!…

    Um e outro parecem ter esquecido – talvez nunca o tenham sabido – que o amor é um nó tão lindo que cega. Ata a vida e ata a morte. E desatamo-lo como se fosse a fita de uma prenda: os dedos depressa, mas devagar os olhos que vêem.

    …E depois, e depois, olá!…

    • Contundente e verdadeira reflexão!
      O amor, esse amor a que te referes, o verdadeiro, talvez nem mesmo Ricardo, o maduro, ainda o conheça.
      Mas não desiste. Terá, terão, sim, alguns méritos,
      mas talvez ainda permaneçam, se não cegos, desconfiados dos próprios méritos.
      Um dia a fita será desatada…
      E então os olhos verão o que o coração, bem fundo, já sente!

      E depois dirá, olá! Por que demoraste tanto tempo a chegar?

      Obrigado!

      Forte abraço, Driftin’

  3. Adriano disse:

    Sabe, meu amigo, ontem eu vi um filme (na verdade comecei a ver ontem e só terminei hoje) que deve ter resvalado nesse problema. O nome é “Yossi”, uma continuação, 10 anos depois, de um outro filme muito bom (Delicada Relação – “Yossi & Jagger”). Não vou me deter no filme, mas um dos temas era justamente o encontro entre um homem mais velho e outro mais jovem. Enfim, eu sou um pouco refratário a esse tipo de encontro/relacionamento. Pode ser preconceito meu (deve ser) mas eu penso que em geral isso não dá certo.

    Falando pro “Ricardo”: por caminhos opostos eu penso que chegamos a um mesmo ponto. Eu, por já ter vivido uma relação absolutamente verdadeira e grandiosa e você por ter, até hoje, essa mesma ânsia, no entanto não realizada. Penso que esses dois caminhos acabam conduzindo a um mesmo fim, o de sermos efetivamente mais exigentes. Com o tempo os interesses ficam mais condensados, mais necessitados de concretude. E isso, eu penso, não se encontra (a não ser por um enorme lance de sorte) num relacionamento que se inicia pelo sexo, como você mesmo disse, não precedido por amor.

    Abração

    PS: o endereço de email que você me passou uma vez não existe mais?

    • Fiquei curioso. O diretor é ótimo e se você indica… está na lista! Verei logo!

      Também não acredito em relacionamentos em que as diferenças sejam muito acentuadas. E não apenas quanto à idade.
      Há exceções, sim, o que mostra que não são impossíveis, mas como toda exceção, só confirma a regra…
      O breve relato do encontro de Ricardo e André, embora tenha partido de uma situação real, serviu mais para reflexão, minha, sobretudo. Por isso aquela anotação ao início (Uma história sem graça que insistiu em ser contada).
      E, para minha surpresa, embora seja um texto simples, quase tolo de minha parte, suscitou belas reflexões sobre o tema, às quais você adicionou a sua, para nosso contentamento, enriquecendo ainda mais, pelo testemunho, pela experiência vivida!
      Sobre relações iniciadas com sexo? Realmente é muitíssimo pouco provável que deem certo. Mas existem exceções que só aparentemente começam com sexo. Algumas em que ambos são levados às vezes pela circunstância, numa quase tentativa de não deixar que o outro se vá, mas num ato que foi precedido, ainda que breve e quase imperceptivelmente, pela atração das almas. São raras, mas prefiro, por enquanto, pensar que possam existir.
      E mesmo nesses raros casos não se poderia falar que a relação tenha começado com sexo apenas!, confirmando o que você bem disse!
      Enfim, temos um denominador comum: o amor é o que vale na vida, numa relação!
      Aliás, sem amor, uma relação deve ter outro nome!

      Abração!

  4. Foxx disse:

    eu quero um texto sobre mim… faz? conta uma história em que eu seja o personagem?

  5. ptolomeu1965 disse:

    Lindamente escrito, como sempre!
    Sempre acaba-se por chegar na hora da degustação.
    Essa hora pode ser sublime se houver o que degustar depois de tantos pratos engolidos.
    É a hora de um Pantagruel as avessas!
    bjs

    • Começo a ver que a beleza de um texto não está nele propriamente (no caso dos meus escritos), mas na beleza que o outro nele vê. Essa beleza que na verdade é a beleza daquele que lê, do que lhe vai na alma e que veria a beleza sempre, pois tudo é belo para aquele que vive a beleza na e da vida!
      Depois de tantas refeições pantagruélicas, nos enfadamos dos exageros, e passamos à fase gourmet, em que aprendemos a beleza e o profundo sabor das refeições simples e verdadeiras!
      Grande abraço!

  6. fred disse:

    Esses Ricardos… tsc, tsc, tsc…
    Caro amigo: gracias pelo teu carinhoso comment por conta do Dia dos Pais… gostei muito! Valeu! Boa semana pra ti! Bjs!

  7. Ro Fers disse:

    Bacana a história…
    Muitos perdem oportunidades e depois reclamam que nada ocorre em suas vidas…

  8. Gera Souza disse:

    Sabe de uma coisa… essa história tem tudo a ver comigo…rsrsrsrsrs…lembro que já passei vários perrengues, me envolvendo com caras tipos “deus grego” e que na hora aga, “deu chabu” !!! hehehehehe… hoje em dia, pelos acontecimentos daqui do interior, vejo claramente que o fator “idade” ou “tipo físico” não importa muito…espero criar coragem e escrever sobre tudo isso! Grande abraço

  9. fred disse:

    Banco do carono é um lugar que permite tanta coisa, nzé? Hahahahaha! Bjs, queridôncio!

  10. fred disse:

    Em tempo: do caronA

  11. só para avisar q voltei … saudades daqui …

    beijão

  12. fred disse:

    Rindo litros com teu lance sobre “a entrada da caverna” do Hulk… hahahaha! Tunumpresta! Adoro! Bjos!

  13. fred disse:

    Bom de argola?!? Tb sou! Hahahaha! Bjos olimpicos pra ti!

  14. fred disse:

    Como já dizia a vovó: tudo que abunda não prejudica, nzé? Hahahaha! Mega-power findi pra ti, caro mio!

  15. margot disse:

    Existe um Ricardo em cada um de nós..só esperando a época certa de aflorar. E essa época virá.. mais cedo ou mais tarde.

    Uma estória não tão sem-graça…. me chamou atenção a tag: autoficção.

    Beijos Alex

  16. fred disse:

    Ser “bom de retaguarda” é obrigação de todo príncipe que se preza… hahahaha! Bjos!

  17. fred disse:

    Hummmmmmmmmmmm… mas então mostra essa retaguarda aí, tio… hahahaha! Bjocas!

  18. fred disse:

    Titto de cuequinha?!? #ONDETEM?!? 😉
    Bjs!

  19. fred disse:

    #boasférias! #sungaazulteam #bjs

  20. Na vida real sempre preferi os Ricardos com a avidez dos Andrés … Gosto e sempre gostei da maturidade mas a volúpia dos mais jovens me encanta …Gosto de admirar a beleza física dos Andrés mas me apetece muito o calor e a experiência dos Ricardos …
    Penso q o ideal seria a mescla plena dos dois … mas deixa quieto … que venham Ricardos e Andrés pois o Bratz já há algum tempo tem por mote o lema: “enfim! é o que tem pra hoje … rs

    • Ricardos com a avidez dos Andrés, ou Andrés com a experiência dos Ricardos… Se existissem… Sim, seriam ideiais. O bom, em todo caso, é curtir o que se tem, e não apenas sonhar com o que nunca se tera! A vida é aqui e agora, hoje!!

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