Sonho na casa nova

Relato de um sonho que talvez só importe ao próprio sonhador

Sonhar talvez seja uma das coisas mais igualmente distribuídas entre os homens. Sonha o analfabeto, sonha o letrado, sonham os psicanalistas, os crédulos, os ateus. … Generalizada também é a atitude de esconder sonhos mais comprometedores, ou esclarecedores de aspectos que nós mesmos preferimos manter em segredo, ou então que simplesmente pertencem à nossa mais recôndita intimidade. Escondo do outro o sonho que pode mostrar uma face que comprometa minha autoimagem positiva, seja lá o que isso signifique para cada um. Mas uma coisa é certa: feliz o homem que pode se conhecer através de seus sonhos, ou que os reconhece como reveladores antes que se apaguem com o sol do meio-dia, e os mantém na memória até que produza na vida real as obras a que vieram! É um caminho, talvez dos mais fáceis para o autoconhecimento, pois mesmo que você não entenda os mistérios da psicologia, não conheça nada de filosofia, mitologia, ocultismo etc, sempre algum ensinamento se pode assimilar dos próprios sonhos.

João não era um sujeito que costumava lembrar muito de seus sonhos. E, quando lembrava, não os analisava com a profundidade que exigiam. Talvez porque sempre desconfiasse que eram mais ou menos óbvios, claros, rasos até, carecendo de maiores explicações. Vez ou outra lhe ocorriam alguns sonhos que lhe pareciam chegar próximos aos seus conflitos mais desconhecidos, sufocados, escondidos. Alguns que pareciam ter vindo para revelar-lhe um aspecto de seu eu que nem ele mesmo conhecia, do qual nunca suspeitara. Nesses sonhos, sempre sentia ter chegado perto de alguma verdade para a qual, infelizmente, ainda não estava preparado… (como aquele sobre o qual comentamos aqui, há um ano). Eram tsunâmis que chegavam a ser anunciados, mas que nunca chegavam à própria costa para desmoronar suas verdades falsamente construídas, insustentáveis sob qualquer vendaval.

caleidos

Na segunda noite em sua nova casa, começou a perceber que lhe haviam sido tirados muitas, se não todas as referências espaciais que o mantinham, até então, numa confortável redoma. Essa liberdade lhe causava algum medo, mas ao mesmo tempo muito prazer, uma espécie de alforria conquistada, como aquele que experimentara um dia ao ganhar uma tão esperada bicicleta, prometida pelo pai e aguardada por anos. E foi assim, meio criança, que começou a vivenciar sonhos com imagens algo surreais, inéditas para ele. Na primeira noite, imaginou que seu novo quarto era um misto de cabana e palácio, com alto pé-direito, onde se projetavam imagens de um caleidoscópio, em preto e branco. Pela primeira vez na vida, via algo como aquelas imagens que se supõe vejam os usuários de drogas alucinógenas, como só vira em algum filme já esquecido lá dos anos 1970… Gostou do que via e se permitiu continuar o sonho, mesmo depois de acordar, conscientizar-se, por alguns segundos, de que aquilo era apenas um sonho, e conseguir voltar ao sono e ao sonho tão gratificante.

Emendou aquele com outro, ainda mais surreal, daqueles que, embora não tendo qualquer verossimilhança, sempre indicam algum conflito do sonhador. João estava no mesmo salão — agora não mais na barraca ou palácio do primeiro sonho. O ambiente era escuro, noite, como em todos os seus sonhos desde sempre (nunca sonhara nada que acontecesse sob a luz do dia, e isso o assustava um pouco). Nesse salão, ouvia a voz de familiares, provavelmente a mãe e irmãos, não podia identificar com segurança. Apenas sentia que lhe era vergonhoso presenciar aquela estranha instalação com falos similares aos humanos — quase todos vermelho-cereja intenso. Eram de cera ou algum material plástico, disso lembrava bem. Sentiu vergonha, e não chegou a desejar os objetos, que de resto também não seriam desejados na vida real, onde gostava mesmo de ver os reais, de carne, sangue e veias. Antes que pudesse reagir, lhe aparece um líder religioso que até então conhecia como personalidade. Ao vê-lo, identificou nele, imediatamente, um velho amigo da infância. Como não pudera perceber antes, pensou! Ele entra no salão e logo causa um certo burburinho, e pede a todos que se acalmem. Reconhece João diante dos falos de cera, dirige-se a ele com um sorriso, estende-lhe a mão e diz apenas: — meu caro amigo, não tema, você é um homem de bem! Acordou!

adão

Guardou o sonho consigo por vários dias, até que pudesse leva-lo à sua sessão semanal com uma psicóloga com quem andava, há meses, em sessões semanais, tentando entender um pouco dos ataques de pânico que vinha sofrendo em suas noites mal dormidas. Contou-o aos pedaços, o que ainda conseguia lembrar. Não lhe seriam necessárias muitas explicações para que compreendesse ali claramente uma relação entre prazer e pecado, desejo e proibição, bem e mal. Ouviu atentamente as observações da psicóloga. Pode então compreender, de modo simples e cristalino, que estava num ponto em que poderia estar prestes a pingar a última gota de fenoftaleína na solução ácida de sua vida, antes da virada. Entendeu o recado: não lhe era proibido ter prazer, que agora viria abonado pela igreja, na figura do líder que lhe dera, sutilmente, permissão. O lado ruim é que precisava, ainda, de permissão, nem que fosse autoconcedida, para sentir prazer. Sentiu que o prazer da vida — a vida com seus prazeres — era não só permitida, mas possível ao homem, a ele. E não deixaria de ser um homem de bem por isso.

Simples assim, primário assim. Confirmando o que sempre pensara: que os sonhos talvez sejam mesmo a voz nem sempre tão secreta pela qual o universo nos mostra caminhos que, pela razão, ainda não conseguimos ver, e muito menos, percorrer!

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6 respostas para Sonho na casa nova

  1. sou do tipo q não se lembra raramente de seus sonhos … normalmente nada bizarros … talvez por não ter muito grilo interno na disputa entre o desejo e a razão … sentimento de pecado e\ou culpa de há muito não os tenho …

    enfim! uma narrativa interessante e q se presta à reflexão … eu,por mim tb prefiro os falos de carne, sangue e veias … prefiro eu disse … mas nada impede q por vezes uma aventura no mundo erótico dos brinquedos possam ser desfrutadas com imenso prazer …

  2. Bruno disse:

    Os sonhos tanto podem ser “banais”, quanto desejos de se conquistar algo ou reflexões do nosso dia-a-dia (como uma situação difícil pela qual passamos ou teremos que passar ainda).
    Já fiz um curso sobre projeciologia e achei muito interessante; Talvez seja um ponto até que não devesse citar, mas o tema é, apesar de aparente simplicidade, muito complexo! Quando dormimos o nosso espírito se desprende da matéria, pois ele não necessita de repouso e pode tanto ficar ao lado do corpo, quanto ir para outras dimensões, adquirir aprendizados para se usar diariamente! A projeciologia é um estudo científico por isso não é ligado a qualquer tipo de religião, embora tenha alguns entrelaçamentos, não tem como evitar! Só que na maioria das vezes quando despertamos, não nos lembramos…raros são os que conseguem lembrar nitidamente de locais onde estiveram e o que aprenderam! Então temos pequenas lembranças que atuam de forma intuitiva para este ou aquele determinado fim! Eu me lembro quase sempre dos sonhos que tenho, inclusive, sonhos praticamente idênticos, em uma mesma situação….rsrs
    Desculpe se abordei um tema (projeção astral), mas existem grandes diferenças entre esta e os sonhos considerados “cotidianos”! Mas sonhar é muito bom….rs
    Grande abraço!

    • Bruno, gostei da informação e do breve relato de sua experiência. Já tinha ouvido falar de projeciologia e creio que existe muito mais coisas invisíveis do que podemos supor… Os meus são mesmo sonhos, banais em si, mas para mim muito complexos, ainda, de compreender, embora, naturalmente, um subtítulo seja plenamente aplicável: o medo do prazer, o medo do inferno, o medo do pecado, e a falta de permissão pra ser feliz… Triste, mas ainda é assim… Sonhos podem ser fantasiosos, mas nunca mentem, porque são de certa forma livres e não controlados…

      Grande abraço!!

  3. ptolomeu1965 disse:

    Incrivelmente seu sonho lembra muito um sonho narrado por Carl Gustav Jung em Memórias, Sonhos e Reflexões!
    Independente da psicologia, cada sonho trás em si o seu significado para o sonhador e assim como a vida, que alguns dizer ser um sonho, é um processo pessoal de aprendizado!
    Seu caminho em sonho e em vida é justo!
    bjs

  4. Gera Souza disse:

    Sempre fico intrigado com meus sonhos. Todos sazonais… Já sonhei de tudo que possa imaginar. Também escondo os mais escabrosos…sei lá por quê! Um que me acompanhou por anos, era um lugar, tipo um shopping, tipo um “cinemão”, cheio de labirintos! Subia, descia, salas escuras e vultos, corpos, “orgias a lá Calígula”… ficava horas e acordava ensopado! Tempos depois deixei de sonhar, desapareceu assim…as vezes tento “um revival”, mas nada! Vai entender…hehehehehe..beijos saudosos!!

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