laranjeiras, bananeiras, jabuticabeiras…

Logo que me mudei para meu novo bairro, nos limites da zona urbana do então distrito de Pombal do Norte, para a nova casa — aberta, arejada, depois de anos de confinamento em um apartamento exíguo –, a primeira coisa que procurei fazer foi me sentar à varanda e assistir aos passantes, numa mal disfarçada busca da liberdade, uma liberdade imaginada, sonhada, mas nunca sentida de fato. Sabia-me um elemento estranho ali naquelas redondezas e, embora fizesse tudo para parecer um local, estava claro para todos que eu era um forasteiro. Essas coisas não se disfarçam nunca. Sentava-me ali na frente da casinha sempre que conseguia chegar mais cedo do trabalho, uma ou duas vezes na semana. No início, não conseguia distinguir quem era vizinho daqueles que apenas passavam rumo a pontos mais distantes na cidade imensa. Aos poucos, os rostos, assustados alguns, curiosos outros tantos, indiferentes a maioria, foram se acostumando com aquele senhor desocupado numa varanda perdida do velho bairro novo. As fisionomias começaram a se repetir, me ficaram familiares; alguns olhos foram encontrando os meus, e lá pela terceira ou quarta semana já conseguira alguns boas-tardes e outros tantos boas-noites daqueles transeuntes, quase todos carrancudos, apressados. Minha timidez também foi ficando menos temerosa e aos poucos fui me levantando da velha cadeira de vime, quase em farrapos, que herdara de meu avô.

minha casa

Passei a me sentar na soleira de meu portão, aberto, num quase convite a que entrassem e viessem conhecer meu pomar, os pássaros que andavam ciscando no gramado dos fundos, os livros em minha pequena garagem transformada em biblioteca e, quem sabe, até mesmo tomar um café. Não demorou muito e alguns transeuntes mais freqüentes começaram a parar e jogar um pouco de conversa fora, ainda receosos, como buscando, antes do primeiro passo, saber se havia alguma mina escondida no terreno, assuntando. Entre eles, um senhor muito simpático, seu Benedito. Pela fisionomia, tinha idade para ser meu irmão mais novo, mas sempre me tratava por filho. Um dia perguntei a ele sua idade; poderia mesmo ser meu pai, mas sua constituição forte me enganara. Gentilmente recusou meu café, condicionando-o primeiro a uma visita a sua casa, na rua seguinte. Não me fiz de rogado e perguntei quando poderia ir. “Agora mesmo, uai”. E lá fomos. Conheci sua mulher, dona Rita. Viviam os dois sozinhos numa casa tão simples como a minha, de madeira, num dos recantos mais pacíficos e bucólicos que já conheci. Ficamos amigos. Seu Benedito foi uma espécie de salvo-conduto naquele bairro. Se ele conversava comigo, então eu devia ser boa gente.. E assim fui me aproximando dos outros vizinhos e de outros trabalhadores que utilizavam a rua movimentada apenas como passagem para suas casas…

Alguns meses depois, parado no portão à espera do seu “Dito”, me chegou Pedro. Um rapaz desses que nos impressionam logo à primeira vista. E, antes que o leitor logo imagine que eu já estivesse pensando em bolinagens, adianto que desta vez não foi assim. Ele me causou excelente impressão desde o primeiro boa-tarde, desde o primeiro sorriso. Parou, elogiou meu pomar, perguntei-lhe “como assim?”. Ele já conhecia todas as árvores e plantas de meu quintal. Não lhe perguntei como, mas era claro que já estivera ali. Talvez conhecesse o antigo morador, mas nunca fiz perguntas, nunca me expus além do necessário, num quase medo de perder o amigo que se anunciava. Pedro foi se acostumando a parar, conversar, e quando menos me dei conta, já estava eu lá à sua espera, sentado no portão, quase como fazia esperando marquito, quando eu era apenas um quase bebê. Não tardou, estávamos eu, ele e seu Benedito tomando nosso café ao final das tardes. Uma garotada estranha por vezes se posicionava do outro lado da rua, indagando o que tanto conversavam aqueles dois estranhos com o velho amigo de todos, mas seu Dito estava lá, deviam ser gente boa.

Pedro parecia um anjo. Se anjos existem, é certo que alguém lá dos céus o terá mandado para assoprar minha vela já meio apagada, mas ainda sedenta de reacender e aquecer minha própria alma e me trazer o calor e a confiança que nunca conhecera antes. Entrou, reconheceu minhas bananeiras, laranjeiras, jabuticabeiras. Provou e aprovou.

Neste exato instante em que lhes escrevo, ainda não tenho final para essa história. Aliás, nem quero que tenha final. Porque anjos, afinal, não têm fim. E, sim!!, Pedro é um anjo em minha vida!

A foto, acima, foi a mais próxima que encontrei de minha rua, da bucólica rua de meu sonho. A música, ouvi ao acaso das rádios, enquanto lhes contava …

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27 respostas para laranjeiras, bananeiras, jabuticabeiras…

  1. que maravilha … o texto, o contexto, os personagens, o cenário … daqui fiquei com aquela vontade de ser um coadjuvante ,,, provar das maçãs, das jabuticabas e, principalmente do café … folhear os livros na biblioteca enquanto trocava dedos de prosa com o Alex, o Dito e o Pedro … quem sabe um dia né?

  2. Oi, Bratz, nem me toquei do título da música!!! Ouvi enquanto contava a história, e anotei o nome, busquei no Utube… Fantástico isso… No meu tempo, só consulta na Barsa, e só na Biblioteca Pública. Hoje, Google e pronto!! Preferia os tempos do seu Dito e da dona Rita, sabe?!

  3. Bruno disse:

    Que maravilha morar assim, com árvores em volta, sentar na varanda… muito bom!
    Apartamento não adianta, estamos sozinhos aparentemente, pois tem gente em cima, em baixo, dos lados…rs… tenho e não tenho minha liberdade! Adoro casas assim, com pomar, flores, quem sabe cultivar uma horta, ter animais de estimação (que amo)! Inveja branca…rsrsrs
    Beijos.

  4. margot disse:

    Alex, moro numa rua assim. Fim de tarde, calor… a calçada da vizinha de frente(contra o sol) é ponto a bater…. as vezes tem café, as vezes tem fruta ou picolé. Mas uma coisa é certa…conversa fiada não falta! kkk… No meu quintal tem laranja e abacate e muitas flores e folhas secas… nunca consigo mantê-lo limpo…é uma trabalheira. Mas é bom…
    Anjos??? Só crianças e amigos…. nenhum Pedro! Rsrsr

    Beijos

  5. Adriano disse:

    Eu devo ter me perdido no texto. Ouvindo a música (linda!) me perdi no sonho e numa realidade que nunca vivi (um sonho dentro de outro?). Anjos existem? Talvez a grande “sacada” angelical seja viver tão próximo da gente, que nem nos damos conta que por aqui eles estão! Viajei, né?! Quem mandou você escrever bonito…

    Abração

    • Não viajou, não, Adriano, é isso mesmo!
      Você teve, sim, a grande sacada: os anjos existem, e estão entre nós! E você está a um passo de vê-los, porque simplesmente você talvez seja um deles e nem se deu conta, ainda!
      Abração

  6. railer disse:

    bacana isso… coisas que só a gente que viveu (ou vive) no interior consegue aproveitar.

  7. Latinha disse:

    Ah! Esses anjos que andam por ai…. 😉
    Um belo texto! Adorei.

  8. ptolomeu1965 disse:

    Seu Dito e Pedro são anjos…E anjos se aproximam porque são chamados! E anjos permanecem porque sabem o valor de uma prece!
    bjs

  9. Anônimo disse:

    Exatamente isso… anjos existem e estão sempre dando o suporte necessário!!!

    Seu texto nos faz querer encontrar um cantinho simples e aconchegante!

    Adorei o texto!! Beijo.

  10. Gera Souza disse:

    Exatamente isso… anjos existem e estão a todo instante nos protegendo, incentivando, apoiando, ajudando em tudo, independente se os vemos ou não!

    Seu texto nos faz querer se instalar num cantinho simples e aconchegante, como deve ser sua nova casa!

    Adorei! beijão!!

  11. fred disse:

    Noooooossa!!!!!!!!!!! Que maravilha isso!!! Sabe que fiquei com saudade de um tempo que nem sei se vivi. Foto perfect!!! Texto impecável!!! E vc essa Coca-Cola toda!!! Bjocas e boa semana!!!

  12. Foxx disse:

    Vi pelos comentários que só o anjo é real na história, pois quero saber detalhes

  13. fred disse:

    “Tem pra homem” foi MARA! Comentário do mês no TPM… hahahahaha! Bjs!

  14. fred disse:

    De máscara até eu, meu filho… hahahaha! Bjs!

  15. fred disse:

    Digamos que estamos prestes a celebrar uma data bacana… hehehe! Bjos e bom fds!

  16. fred disse:

    Hummmmm… foto de ex-BBB sem cueca tá complicado… agora, se servir foto de blogueiro sem cueca até podemos dar (ui) um jeito… hehehehe! Bjos!

  17. fred disse:

    #Concordo! Quem pode tem mais é que mostrar mesmo! Bjs!

  18. fred disse:

    Upa, upa cavalinho… êita brincadeira boa essa, nzé?! Hahahahaha! Bjs!

  19. fred disse:

    Hummmmmmmmmmmmm… deve estar ocupado aprontando horrores por aêêê, hein? Hahahaha! Aproveitaaaaaaaa! Bjs!

  20. fred disse:

    Que conste nos autos: tb tenho um”molejão”… #querver? Hahahahaha! Bjãosssssss!

  21. Rodrigo disse:

    Bucólico, fresco, agradável texto…quero provar de todas essas frutas e sabores da terra

Comentários

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