Finados, dia dos vivos…

Hoje em dia, não vejo mais muito sentido em se comemorar, ou rememorar, o dia dos finados. Mas respeito o dia e o sentimento de todos. Eu próprio, como esclareço ao final, sempre gostei da data. Desta e de todas as oportunidades que tinha para ir ao cemitério.
E porque passei a não dar tanta importância ao dia dos finados? Antes de mais nada, porque para mim todos os dias passaram a ser dia de finados. Não passa um dia em que eu não me lembre de um daqueles que me foram importantes, caros. E, também, porque, 1) se eles continuam em outro lugar, outro plano, não são finados, mas vivos, como eu, como você! 2) Se tudo se acabar com suas cinzas, terão ficado apenas em nossos corações, nossas lembranças, enquanto nós ainda existirmos. Eu acredito na primeira hipótese, mas reconheço que é uma crença de que necessito para viver.

Mas, vá lá, é uma data, como Natal e tantas outras, e não dá pra fugir do coletivo. Lembrei da data hoje, ao ver um senhor pagando vasos e vasos de crisântemos e margaridas … Aí, meio guiado por mãos invisíveis, vim buscar alguma coisa que me levasse novamente a ouvir as Matinas do José Maurício. Música destinada aos finados, mas para mim sempre um celebração do espírito vivo, de quem está vivo, bem vivo. Já ouvi muito, e nunca associei a música aos… finados.

Mas, ok, vamos respeitá-los. Longe de mim esquecer os que amei, amo, e já se foram. Eu também tenho cá os meus finados. E não são poucos. Amigos, parentes, colegas, amores, paixões que nunca nem mesmo me souberam… Lembro deles, de cada um, de cada uma, com muita saudade, com vontade de que o tempo pudesse voltar e eu novamente estar com muitos deles, para que pudesse, essencialmente, ser diferente com eles, diferente do que fui, melhor e mais agradável do que consegui ser então. Que eu pudesse compreendê-los melhor do que compreendi enquanto estavam cá comigo. Que eu pudesse aceitá-los mais em suas dificuldades, reconhecê-los melhor em suas grandezas, todas elas, agora, apenas cinzas na minha memória…

Entristece? Sim. Mas também alegra. Por saber que, apesar de tudo, eu ainda os amo! Amarei sempre! Porque, finados ou não, eles fazem parte de mim. Pelo menos enquanto eu próprio não for, também, mais um… finado!

Bom feriado a todos nós, vivos e finados!

P.S. Em homenagem ao primeiro e ilustre comentárista, voltei pra registrar. Eu sempre gostei, gosto e vou a cemitérios. É um dos poucos lugares onde, geralmente, ainda de pode ter algum sossego pra pensar na vida, minha e de todos os que comigo viveram, refletir. Desde criança, sempre gostei.

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Palavras serão, ainda, sempre necessárias?

Essa pergunta me ocorre quando começo a divagar pela Internet. Hoje as imagens ganham um lugar que, outrora, só a palavra escrita podia ocupar.

Assim é com a palavra amor, desgastada para muitos, ainda sonhada para outros tantos, incompreendida pela maioria, inaceitável para não poucos, perfeita para quem acredita em perfeição, imperfeita para quem é realista, piegas para os descrentes, verdadeira para os crentes, tola para os que se julgam espertos, dolorida para os feridos, gostosa para os inocentes, tesuda para os fogosos, dispensável para os pragmáticos, inexistente para os psicopatas, eterno e incondicional para quem, além de usar o substantivo, aprendeu também a conjugar o verbo…

Na falta de assunto, na ausência de palavras, deixo aqui dois arquivos. Um curta e o trailler de um longa. Amor é a palavra que se aplica a ambos. Cada um deles poderá ser piegas, inacreditável, surreal, verdadeiro, desejável, incrível…

Escolha seu próprio adjetivo.
As palavras continuarão sendo necessárias… Se não para entender o mundo, pelo prazer que nos trazem na fruição do mesmo mundo, do nosso mundo!

Aliás, só agora me dei conta do jogo que as palavras fizeram: Durán e Dolan!!!

O curta, Sígueme, de Alejandro Durán:

O trailler, do longa Laurence Anyways, de X. Dolan.

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laranjeiras, bananeiras, jabuticabeiras…

Logo que me mudei para meu novo bairro, nos limites da zona urbana do então distrito de Pombal do Norte, para a nova casa — aberta, arejada, depois de anos de confinamento em um apartamento exíguo –, a primeira coisa que procurei fazer foi me sentar à varanda e assistir aos passantes, numa mal disfarçada busca da liberdade, uma liberdade imaginada, sonhada, mas nunca sentida de fato. Sabia-me um elemento estranho ali naquelas redondezas e, embora fizesse tudo para parecer um local, estava claro para todos que eu era um forasteiro. Essas coisas não se disfarçam nunca. Sentava-me ali na frente da casinha sempre que conseguia chegar mais cedo do trabalho, uma ou duas vezes na semana. No início, não conseguia distinguir quem era vizinho daqueles que apenas passavam rumo a pontos mais distantes na cidade imensa. Aos poucos, os rostos, assustados alguns, curiosos outros tantos, indiferentes a maioria, foram se acostumando com aquele senhor desocupado numa varanda perdida do velho bairro novo. As fisionomias começaram a se repetir, me ficaram familiares; alguns olhos foram encontrando os meus, e lá pela terceira ou quarta semana já conseguira alguns boas-tardes e outros tantos boas-noites daqueles transeuntes, quase todos carrancudos, apressados. Minha timidez também foi ficando menos temerosa e aos poucos fui me levantando da velha cadeira de vime, quase em farrapos, que herdara de meu avô.

minha casa

Passei a me sentar na soleira de meu portão, aberto, num quase convite a que entrassem e viessem conhecer meu pomar, os pássaros que andavam ciscando no gramado dos fundos, os livros em minha pequena garagem transformada em biblioteca e, quem sabe, até mesmo tomar um café. Não demorou muito e alguns transeuntes mais freqüentes começaram a parar e jogar um pouco de conversa fora, ainda receosos, como buscando, antes do primeiro passo, saber se havia alguma mina escondida no terreno, assuntando. Entre eles, um senhor muito simpático, seu Benedito. Pela fisionomia, tinha idade para ser meu irmão mais novo, mas sempre me tratava por filho. Um dia perguntei a ele sua idade; poderia mesmo ser meu pai, mas sua constituição forte me enganara. Gentilmente recusou meu café, condicionando-o primeiro a uma visita a sua casa, na rua seguinte. Não me fiz de rogado e perguntei quando poderia ir. “Agora mesmo, uai”. E lá fomos. Conheci sua mulher, dona Rita. Viviam os dois sozinhos numa casa tão simples como a minha, de madeira, num dos recantos mais pacíficos e bucólicos que já conheci. Ficamos amigos. Seu Benedito foi uma espécie de salvo-conduto naquele bairro. Se ele conversava comigo, então eu devia ser boa gente.. E assim fui me aproximando dos outros vizinhos e de outros trabalhadores que utilizavam a rua movimentada apenas como passagem para suas casas…

Alguns meses depois, parado no portão à espera do seu “Dito”, me chegou Pedro. Um rapaz desses que nos impressionam logo à primeira vista. E, antes que o leitor logo imagine que eu já estivesse pensando em bolinagens, adianto que desta vez não foi assim. Ele me causou excelente impressão desde o primeiro boa-tarde, desde o primeiro sorriso. Parou, elogiou meu pomar, perguntei-lhe “como assim?”. Ele já conhecia todas as árvores e plantas de meu quintal. Não lhe perguntei como, mas era claro que já estivera ali. Talvez conhecesse o antigo morador, mas nunca fiz perguntas, nunca me expus além do necessário, num quase medo de perder o amigo que se anunciava. Pedro foi se acostumando a parar, conversar, e quando menos me dei conta, já estava eu lá à sua espera, sentado no portão, quase como fazia esperando marquito, quando eu era apenas um quase bebê. Não tardou, estávamos eu, ele e seu Benedito tomando nosso café ao final das tardes. Uma garotada estranha por vezes se posicionava do outro lado da rua, indagando o que tanto conversavam aqueles dois estranhos com o velho amigo de todos, mas seu Dito estava lá, deviam ser gente boa.

Pedro parecia um anjo. Se anjos existem, é certo que alguém lá dos céus o terá mandado para assoprar minha vela já meio apagada, mas ainda sedenta de reacender e aquecer minha própria alma e me trazer o calor e a confiança que nunca conhecera antes. Entrou, reconheceu minhas bananeiras, laranjeiras, jabuticabeiras. Provou e aprovou.

Neste exato instante em que lhes escrevo, ainda não tenho final para essa história. Aliás, nem quero que tenha final. Porque anjos, afinal, não têm fim. E, sim!!, Pedro é um anjo em minha vida!

A foto, acima, foi a mais próxima que encontrei de minha rua, da bucólica rua de meu sonho. A música, ouvi ao acaso das rádios, enquanto lhes contava …

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Apenas um post de “bom dia!” …

Aqui sentando em minha cadeira, com os dedos inquietos, num dia de vagabundagem forçada, mas não por isso indesejada nem rejeitada, navego.
Penso como era terrível não poder navegar… como ainda é em tantos ambientes ditos laborais…
ok, ok, seria possível a leitura! bem sei…
Mas, confesso, pra mim, leitura é como tesão de verdade. Só consigo entre quatro paredes, no recôndito do meu lar, ou em qualquer lugar que eu entenda como meu lar momentâneo.
Nessa viagem, encontrei um anúncio no Face (de uma rádio), que me levou a um short vídeo no Utube, que me lembrou alguém…
Felizes esses tempos em que vivemos.
Apesar de tudo…

Um ótimo dia a todos!

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Simples assim

De como hoje um amigo deixou meu dia [ainda] melhor!

Há blogs que [sempre] têm conteúdo próprio. Esses, quando nos agradam, se tornam parte de nosso dia-a-dia.
Há outros que só reproduzem o que se vê por aí, mas com uma pitada, um comentário pessoal. Também são vistos.
Muitos apenas falam de si mesmos. Nesse caso, o interesse vai depender…
E há outros que simplesmente republicam algo que a(a) blogueira(o) viu, gostou e compartilha, à la Facebook.

O post de hoje é só o link para um curta, só pra não deixar morrer o espaço. Está na última categoria [das hipóteses acima]. Mas vale a pena. Eu gostei. Se você ainda não viu… talvez goste também.

The most beautiful thing. Short film

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Sonho na casa nova

Relato de um sonho que talvez só importe ao próprio sonhador

Sonhar talvez seja uma das coisas mais igualmente distribuídas entre os homens. Sonha o analfabeto, sonha o letrado, sonham os psicanalistas, os crédulos, os ateus. … Generalizada também é a atitude de esconder sonhos mais comprometedores, ou esclarecedores de aspectos que nós mesmos preferimos manter em segredo, ou então que simplesmente pertencem à nossa mais recôndita intimidade. Escondo do outro o sonho que pode mostrar uma face que comprometa minha autoimagem positiva, seja lá o que isso signifique para cada um. Mas uma coisa é certa: feliz o homem que pode se conhecer através de seus sonhos, ou que os reconhece como reveladores antes que se apaguem com o sol do meio-dia, e os mantém na memória até que produza na vida real as obras a que vieram! É um caminho, talvez dos mais fáceis para o autoconhecimento, pois mesmo que você não entenda os mistérios da psicologia, não conheça nada de filosofia, mitologia, ocultismo etc, sempre algum ensinamento se pode assimilar dos próprios sonhos.

João não era um sujeito que costumava lembrar muito de seus sonhos. E, quando lembrava, não os analisava com a profundidade que exigiam. Talvez porque sempre desconfiasse que eram mais ou menos óbvios, claros, rasos até, carecendo de maiores explicações. Vez ou outra lhe ocorriam alguns sonhos que lhe pareciam chegar próximos aos seus conflitos mais desconhecidos, sufocados, escondidos. Alguns que pareciam ter vindo para revelar-lhe um aspecto de seu eu que nem ele mesmo conhecia, do qual nunca suspeitara. Nesses sonhos, sempre sentia ter chegado perto de alguma verdade para a qual, infelizmente, ainda não estava preparado… (como aquele sobre o qual comentamos aqui, há um ano). Eram tsunâmis que chegavam a ser anunciados, mas que nunca chegavam à própria costa para desmoronar suas verdades falsamente construídas, insustentáveis sob qualquer vendaval.

caleidos

Na segunda noite em sua nova casa, começou a perceber que lhe haviam sido tirados muitas, se não todas as referências espaciais que o mantinham, até então, numa confortável redoma. Essa liberdade lhe causava algum medo, mas ao mesmo tempo muito prazer, uma espécie de alforria conquistada, como aquele que experimentara um dia ao ganhar uma tão esperada bicicleta, prometida pelo pai e aguardada por anos. E foi assim, meio criança, que começou a vivenciar sonhos com imagens algo surreais, inéditas para ele. Na primeira noite, imaginou que seu novo quarto era um misto de cabana e palácio, com alto pé-direito, onde se projetavam imagens de um caleidoscópio, em preto e branco. Pela primeira vez na vida, via algo como aquelas imagens que se supõe vejam os usuários de drogas alucinógenas, como só vira em algum filme já esquecido lá dos anos 1970… Gostou do que via e se permitiu continuar o sonho, mesmo depois de acordar, conscientizar-se, por alguns segundos, de que aquilo era apenas um sonho, e conseguir voltar ao sono e ao sonho tão gratificante.

Emendou aquele com outro, ainda mais surreal, daqueles que, embora não tendo qualquer verossimilhança, sempre indicam algum conflito do sonhador. João estava no mesmo salão — agora não mais na barraca ou palácio do primeiro sonho. O ambiente era escuro, noite, como em todos os seus sonhos desde sempre (nunca sonhara nada que acontecesse sob a luz do dia, e isso o assustava um pouco). Nesse salão, ouvia a voz de familiares, provavelmente a mãe e irmãos, não podia identificar com segurança. Apenas sentia que lhe era vergonhoso presenciar aquela estranha instalação com falos similares aos humanos — quase todos vermelho-cereja intenso. Eram de cera ou algum material plástico, disso lembrava bem. Sentiu vergonha, e não chegou a desejar os objetos, que de resto também não seriam desejados na vida real, onde gostava mesmo de ver os reais, de carne, sangue e veias. Antes que pudesse reagir, lhe aparece um líder religioso que até então conhecia como personalidade. Ao vê-lo, identificou nele, imediatamente, um velho amigo da infância. Como não pudera perceber antes, pensou! Ele entra no salão e logo causa um certo burburinho, e pede a todos que se acalmem. Reconhece João diante dos falos de cera, dirige-se a ele com um sorriso, estende-lhe a mão e diz apenas: — meu caro amigo, não tema, você é um homem de bem! Acordou!

adão

Guardou o sonho consigo por vários dias, até que pudesse leva-lo à sua sessão semanal com uma psicóloga com quem andava, há meses, em sessões semanais, tentando entender um pouco dos ataques de pânico que vinha sofrendo em suas noites mal dormidas. Contou-o aos pedaços, o que ainda conseguia lembrar. Não lhe seriam necessárias muitas explicações para que compreendesse ali claramente uma relação entre prazer e pecado, desejo e proibição, bem e mal. Ouviu atentamente as observações da psicóloga. Pode então compreender, de modo simples e cristalino, que estava num ponto em que poderia estar prestes a pingar a última gota de fenoftaleína na solução ácida de sua vida, antes da virada. Entendeu o recado: não lhe era proibido ter prazer, que agora viria abonado pela igreja, na figura do líder que lhe dera, sutilmente, permissão. O lado ruim é que precisava, ainda, de permissão, nem que fosse autoconcedida, para sentir prazer. Sentiu que o prazer da vida — a vida com seus prazeres — era não só permitida, mas possível ao homem, a ele. E não deixaria de ser um homem de bem por isso.

Simples assim, primário assim. Confirmando o que sempre pensara: que os sonhos talvez sejam mesmo a voz nem sempre tão secreta pela qual o universo nos mostra caminhos que, pela razão, ainda não conseguimos ver, e muito menos, percorrer!

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Ricardo e suas insignificâncias

Uma história sem graça que insistiu em ser contada; casualidade reveladora

A primeira vez que Ricardo viu André, casualmente passando pela rua, saindo da quitanda próxima à sua casa, achou-o interessante. Jovem, corpo bem torneado, nem especialmente bonito, nem dono de qualquer feiúra. Passou, se olharam, reconheceu, mas não deu muita importância. Esqueceu.

Algumas semanas depois, estava Ricardo na farmácia da mesma rua, ia já pagando sua compra quando entrou André. A troca de olhares agora foi decidida. Aguardou na calçada. Conversaram. Ricardo, receoso de mais algum daqueles insistentes incidentes que sempre atrapalhavam coisas que lhe prometiam ser boas, avisou logo que iria ao trabalho ainda pela manhã, não teria muito tempo. Não foi argumento sólido para que nenhum dos dois desistisse. Seguiram até a casa de André, a poucos metros do comércio local.

Arte-Escultura-Itália-MICHELANGELO-DAVID-TORSO

Mal fechada a porta, as roupas foram sendo largadas entre beijos e carícias, até muito carinhosas para dois seres que praticamente não se conheciam. Ricardo sentiu, pela segurança de André, que era real seu desejo, que sua confessada preferência por maduros não parecia mentirosa. Despiu-se logo, assim André poderia arranjar desculpa e encerrar a peça antes da primeira campainha. Não desistiu, gostou, sorriu. Enquanto atendia uma ligação ao celular — que pareceu ser de alguém da família — foi tirando a pouca roupa que restava, já pronto para o assalto.

Quando finalmente pode contemplar aquela obra de arte em músculos bem definidos e pele lisa, cheirosa, com respiração curta, contornos macios, entendeu que estava diante do corpo mais próximo à perfeição que já vira ao vivo. Ficou atônito. Tentou a todo custo excitar-se, mas o ânimo que lhe ia no peito não chegou aonde deveria. André não desistia, tentou, mas Ricardo precisou dizer que estava realmente atrasado para o trabalho. Beijaram-se e Ricardo se foi, com promessas de ambos de se encontrarem com mais calma numa outra hora. Não sabia se voltaria.

Naquele dia, compreendeu que talvez já tivesse passado seu tempo do sexo sem amor, sem sentido, por puro e quase sempre insaciável desejo. Imaginou que talvez o tesão, sem avisar, tivesse passado a ser mais seletivo — coisa que nunca fora –, exigente, com nuances tão indefinidas que nem mesmo aquele jovem, o mais belo homem que já pudera ver e tocar, conseguiu coloca-lo na posição de franco atirador. Tentou novamente no dia seguinte alguém menos exuberante que André, com nova decepção. Desta vez, chegou ao fim, para não decepcionar o parceiro, mas foi um gozo que já nasceu apagado.

Precisaria de algum tempo para entender o que se passava com ele. Para aceitar a mudança, teria ainda que descobrir se estava diante de algo novo, se era de fato uma evolução exigente, querendo que doravante sexo só tivesse sentido com envolvimento, ou se continuava o mesmo indeciso e vacilão, que não se acreditava digno de um jovem de corpo monumental, carinhoso e que manifestava claramente desejo por ele.

Não sabia, ainda, se era já um velho ou se continuava o mesmo adolescente amedrontado e inseguro de sempre. Não encontrou a resposta. Decidiu não ver mais André, que ainda ligou algumas vezes, insistiu e poderá ter se sentido rejeitado. Não acreditava ser possuidor da exuberância mencionada por Ricardo, que continuava não se achando merecedor de “tudo aquilo”.

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