Brasília também é uma cidade

 

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Há 56 anos era festa.
Hoje, apreensão.
A cidade sempre ali, firme.
Alguns habitantes nada positivos.
Mas um céu acolhedor que tudo compensa.

Só lamento mesmo, em Brasilia, a falta de ruas. Ruas, sabe, dessas em que a gente anda longamente pelas calçadas indo de um bairro a outro, vendo gente, dando bom dia, eventualmente trocando uma simpatia. Sempre desconfio que a falta desses encontros dados pelo acaso torna uma parte da gente que aqui habita incapaz de um bom dia. Mas não posso saber se isso tem mesmo tanta influência.

Essa foto não é de hoje, é da semana, mas vale pra lembrar que hoje é 21 de abril.

Abraços a todos aqueles que, como eu, gostam de Brasília.
Não necessariamente de alguns de seus moradores Felizmente, quase todos esses, temporários.

Eles vão. Nós ficamos.
Até que um dia nos também iremos. Pra onde? Não sei nem se vou, mas se for pr’algum lugar, que seja, pelo menos, tão bonito e gostoso como Brasília.

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Tempo de recolhimento

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Os tempos exigem serenidade.

O desafio atual é ser capaz de colocar em prática aquela tolerância sobre a qual tanto lemos nas obras doutrinárias.

A hora é de provação.

Que sejamos todos dignos do momento de mudanças que estamos vivendo.

Sem partidarismos. Sem agressões, sem discussões estéreis.

Mas também sem deixar de fazer os alertas que acharmos necessários.

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Fábulas chinesas. Três bananas de manhã.

Fábulas chinesas.

Três bananas de manhã – Autor: Liezi

Certa vez um criador de animais disse aos seus macacos:

– Vocês agora vão receber três bananas de manhã e quatro de tarde.

Os macacos ficaram transtornados. Agarraram-se às grades. Guincharam. Alguns até mostraram os dentes.
O criador disse-lhes então:

– Certo, certo! Que tal então quatro bananas de manhã e três de tarde?

Ouvindo isso, os macacos ficaram muito contentes e se aquietaram. Alguns deles comentaram que aquela, sim, tinha sido uma grande vitória.

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Reflexões em tempos de guerra tola (e existe guerra que não seja tola?)

Reflexões simples para tempos de agressões.

Não basta tirar remporariamente do seu Face os guerreiros do outro lado, nem silenciar aqueles — e ser silenciado por aqueles —  que, após a guerra, continuarão seus amigos. É preciso lembrar que a vida continuará.

E certamente, com Dilma ou Aécio, os mafiosos continuarão sugando os recursos que podem não fazer falta a você, nascido na classe média boa do Leblon ou de Higienópolis, mas faz muita falta a todos aqueles que, especialmente pela falta de educação de verdade, pela total ausência de oportunidades que sempre lhe sobraram, continuarão ignorantes, para que, por exemplo, o velho FHC possa justificar os votos dos pobres. Fará falta àqueles que morrem esperando atendimentos mais complexos nos hospitais mantidos por estados e prefeituras governados pelas máfias.

E, lembre-se, aquele dinheiro gasto numa viagem inútil paga com o dinheiro do contribuinte, esse otário que ainda banca suas gracinhas, aquela grana recebida como ajuda ilegal pra você morar bem, todo esse dinheiro faz falta a alguém que precisa muito mais e pode muito menos do que você. Deixemos de hipocrisia e façamos a nossa parte por um mundo menos injusto, mais fraterno, menos ameaçador.

Talvez seja lhe pedir demais, né? Você teve todas as oportunidades pra ser diferente, para aprender a fazer aquilo que prega aos outros, mas com pequenas atitudes continua a ser sócio dessa mesma máfia que diz abominar. E que você sabe, continuarão lá, até que façamos uma revolução branca com uma reforma política que mude a forma como elegemos os parlamentos, aproximando-nos de povos um tiquinho mais avançados nessas coisas.

Sejamos honestos, você quer mesmo mudança? Ou a mudança que você hipocritamente diz querer vai servir, como bem sabe, pra perpetuar privilégios, dos quais eu e você somos beneficiários? Aqueles que o príncipe beiçudo chama de ignorantes não sabem de nada disso.

Mas você, sabe! E, mesmo assim, não muda!

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O céu que eu não via

O céu que eu não via

O céu sempre esteve. Eu sempre estive.
Mas só há pouco a gente se aconchegou.
A cada encontro me pergunto: como não te via antes?
Cegueira de quem tem olhos perfeitos, me diz ele. Eu sempre te vi!

A cada encontro, um orgasmo juntos.
Ele público, eterno, grandioso.
Eu tímido, contido, quase envergonhado, escondendo o tesão da alma!
Intenso.
A cada encontro, uma nova arte.
Exuberante, belo, perfeito, me leva
Calmamente ao gozo. Sempre.

Eu? Queria que nossos instantes fossem eternos.

Ele sempre esteve ali, mas eu nunca acreditei que me quisesse!
De uns tempos pra cá ficou assanhado pro meu lado.
Se arreganha, sorri, se exibe, me convida:
— Vem cá, seu bobo! Eu sou teu. Me pega, me abraça, me ama, gozemos juntos!
Eu sempre te amei!
Acredita? Agora?

Ainda não sei!, respondo em silêncio!
Ah!, mas como é bom estar contigo!
Disso já não duvido mais.
Você me fez mais ar!
Você me fez mais homem!
Capaz de aprender a amar.
Humano, enfim!

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dálias indiferentes

João vivia ultimamente liberto dos pesadelos que o assaltavam até há poucas semanas. Até o ingênuo João sabia que parte de seus sonhos macabros, talvez mesmo a parte mais substancial deles, não era de origem endógena, orgânica ou espiritual, mas decorrente de drogas passageiras. Depois de algumas semanas de paz, o tolo João teve um sonho que, inversamente à lógica comum na ocorrência de sonhos escuros, em que passamos de tormentos no sono a alívio ao acordar, causou efeito inverso.

João sonhou que entrava pelo quintal da casa de sua avó Leocádia, pedaço de mundo bucólico na sua infância, hoje transformado num estacionamento calçado de pedras, indiferentes ao passado e à história de quem primeiro pisou aquele solo. Esse quintal era o pedaço da Terra em que sempre buscou refúgio imaginário, ainda nos dias de hoje. Gostava de fantasiar que aquele lugar ainda existia e o acolhia, secreta e discretamente. Passou pela casinha de madeira minúscula, construída ao estilo dos imigrantes poloneses, passou pelo pé de jasmim, pelas dálias multicoloridas meio largadas em meio a pés de couve e algum mato intruso, viu as janelas da cozinha fechada, imaginou que a avó e a tia estivessem na labuta no puxadinho dos fundos.

Foi se aproximando, mas o silêncio continuava, tão gritante que lhe permitiu ouvir as patas dos coelhos raspando no viveiro que habitavam, improvisado numa embalagem de pinho que trouxera da fábrica em Curitiba o piano que a essa hora era tocado por alguma aluna na casa do vizinho. Pelo que ouvia, já sentia que era mais uma que nunca chegaria, como ele, a tocar uma sonatina que fosse. Chegou, olhou, coelhos indiferentes, algumas baratas andando pelas paredes de madeira escura, ouvia uma torneira pingando no tanque de cimento, mas não havia sinal de ninguém. Pra onde teriam ido? Ficou triste. Queria receber uma bronca que fosse da vó, mas não podia mais se agüentar sozinho ali naquele mundo. Mas a avó não estava, a tia não estava, tudo era indiferente à sua presença.

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Sentiu um aperto no peito, um medo de algo que nunca havia enfrentado, e rezou. Não sabia rezar e não acreditava em nada, mas rezou. Pediu, desesperadamente que virasse subitamente parte do solo que alegrava e nutria aquelas dálias que adoravam sua avó, que mesmo abandonadas insistiam em florir. Cochilou ali, sem saber o que fazer, pra onde ir. Quando acordou, viu que do imenso paredão que fechava o fundo do quintal se abriu uma porta, e do outro lado, ninguém, nada, apenas uma luz intensa, branca, amarelada como a cor do sol, mas embaçada, preenchida por uma nuvem espessa, uma neblina cerrada ao sol. Achou estranho, mas foi tomado por uma imensa felicidade. Alguém havia lembrado dele e o tiraria dali, daquele mundo. Ficou feliz porque, estava certo, finalmente chegara a hora de morrer e sair daquela merda toda em que chafurdava há tantos anos. Só não dizia que era desde o dia em que nasceu porque, de fato, não se lembrava como tinha sido sua vida nos primeiros dois ou três anos. Se imaginou sempre já tendo nascido com três ou quatro anos.

Sentiu cheiro de sangue limpo, impregnando as tábuas de pinho enegrecidas pelo tempo. Imaginou que sua avó a a tia haviam escapado por aquela passagem secreta e poderiam estar esperando bem ali, mas a voz que ouviu não era delas, nem de ninguém conhecido. Uma voz que ordenava, com carinho: “entra, João, que a casa agora também é tua” e você aqui é muito bem-vindo.

Antes que pudesse se levantar, acordou na cama dura, o sol do sábado já alto se infiltrando peloas brechas da cortina. Desesperado, pensou: não é possível que eu tenha voltado pra essa merda! Agora que me mostraram que havia uma saída! Por que não me deixaram entrar?

Entre sonho e realidade, inseguro do que era verdade ou imaginação, navegou fundo novamente em busca daquela porta que havia sido aberta no paredão de seu recanto secreto. Tentou dormir para, quem sabe, se convencer que aquilo realmente existia. Dormiu, mas o que viu e sentiu não foi mais o ambiente luminoso, mas a velha e tola vida de volta.
Acordou, viveu o sábado, o domingo, o peito cada vez mais apertado, cada vez mais triste, a cada minuto mais desanimado e irritado, sentindo uma dor profunda em todo o corpo, como se uma agulha tivesse espetado sua alma subitamente transformada em matéria viva. Suas pálpebras pesavam cada vez mais, os olhos doíam segurando lágrimas que já haviam secado há muitos anos, as mãos tremiam. A única coisa que sentia era uma imensa vontade de torturar e matar aqueles que, no momento, consubstanciavam e representavam toda a opressão que sentia e cuja origem desconhecia, já que não encontrava respaldo em nenhum fato concreto e relevante.Tinha vontade de acabar com tudo, matar, matar. Mas não tinha nenhuma arma. E se sabia covarde para isso.

João era teimoso, sabia que precisava fazer algo, que quando sentia vontade de matar precisava agir antes que fizesse algo para, de fato, satisfazer sua vontade. Mas João era teimoso e não tinha armas. E era covarde, cagão, bundão. Continuou com a agulha enfiada na alma cada vez mais pobre e desanimada.
E passou a sentir prazer com a dor, e a carregá-la como gozo permanente. Finalmente, por algum caminho torto de sua mente pobre, tinha encontrado a felicidade. O que achava fosse isso. Não era.

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Desfocado

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Desfoca uma imagem banal e poderás ter um arremedo de arte.
Desfoca teus pensamentos e serás…
para muitos, desprezível louco;
para poucos, um novo homem;
para ti, um ser solitário, no limiar do medo profundo.

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